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Postado em 07-08-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 07-08-2010 00:04

Plinio: a boa surpresa na tela da TV

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ARTIGO DA SEMANA

UM DEBATE SUECO

Vitor Hugo Soares

Se aquele irônico personagem marciano das crônicas imortais de Nelson Rodrigues tivesse aterrissado com seu disco voador no Brasil, na noite de quinta-feira, e ligasse o aparelho de televisão no primeiro debate da campanha presidencial de 2010, promovido em São Paulo pela Rede Band, teria tomado um susto: “Errei de rota e pousei na Suécia!”, pensaria o ET.

O que ele teria visto? No cenário do embate conduzido pelo jornalista-âncora Ricardo Boechat, aparecem Josá Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV). Duas mulheres e dois homens da política brasileira, que os “senhores ouvintes e telespectadores” se acostumaram a identificar ao longo de décadas pelo estilo de cada um, mais para o “quente” que para o “frio”, para usar a linguagem padrão dos comunicólogos dos anos 60/70, substituídos pelos marqueteiros e seus jargões atuais.

Os quatro candidatos são todos passageiros do trem da chamada esquerda brasileira, cujos destinos, de uma forma ou de outra, se cruzaram antes nos célebres e agitados anos de luta contra a ditadura (que não nos ouçam os chatos da objetividade jornalística e os politicamente corretos de agora).

É visível que todos eles dissimulam o quanto podem na implacável imagem da televisão – uns mais outros menos, evidentemente. Não fica claro o motivo, mas é como se cada um tentasse esconder a carapaça do passado de “jovem rebelde” , para vender a imagem “clean” de “bom moço”, meio arrependido de traquinagens idas e vividas, na hora de disputar o voto sabidamente conservador da maioria dos eleitores do País, principalmente nas regiões onde as pesquisas indicam que o jogo anda mais apertado.

Serra, ex-agitador militante de Ação Popular (AP) e ex-presidente da UNE, ex-guerreiro das passeatas que foi parar no exílio chileno, é a gentileza em pessoa na tela. Esbanja elegância e “fair-play” de zagueiro do Fluminense, o “pó de arroz” carioca, como se recepcionasse em sua casa os demais convidados do debate. O candidato paulista não ri (como registra sua preocupada filha em um dos intervalos) mas também não se exaspera em nenhum momento.

Nem mesmo quando provocado mais diretamente por Plínio – o em geral enfezado comunista padrão, mas que se revela na TV o mais lépido e bem humorado candidato á sucessão de Lula. Diante da insistência do tucano em trazer para o cenário o tema da saúde, o candidato do PSOL pontua: “Agora eu entendo porque Serra é chamado de hipocondríaco”.

Diante da estocada de Plínio em seu adversário mais direto nas pesquisas, Dilma quase se engasga ao tentar disfarçar o contentamento com um gole de água no copo colocado à sua frente. Imagem marcante que a câmera ágil e indiscreta registra em fração de segundos. Mas a ex-militante esquerdista da guerrilha urbana, temida também por suas tiradas explosivas em mais recentes reuniões do governo Lula (que o diga o ex-ministro da Defesa Waldir Pires), logo se recompõe, sem perder a elegância e sem molhar o alva roupa que ela ostenta no debate, em substituição ao tradicional terninho vermelho que costuma envergar nos encontros com companheiros trabalhadores metalúrgicos no ABC e em outros palanques e reuniões de campanha. “Vim em nome da paz”, explica a petista aos que se surpreendem.

Marina Silva, já se sabe, é normalmente um doce de pessoa. No debate da Band, virou puro mel de mandassaia. A ex-militante petista, valente jaguatirica acreana, braço direito de Chico Mendes na preservação da mata amazônica e defesa da exploração dos recursos sustentáveis da floresta, esteve mais “ligth” ainda.

A candidata verde não mostrou as garras de felina nem quando Plínio também lançou um bote direto contra ela, acusada de ter virado uma “capitalista da luta ambiental” cujas posições não guardam mais “nenhuma diferença na comparação com o pensamento conciliador de Serra e Dilma” sobre política, economia e até a questão social. A jaguatirica responde com um riso discreto, compreensivo e quase filial ao atacante.

Suécia é pouco! Isso no tempo em que o país nórdico era mostrado nas escolas brasileiras como modelo mundial de boa educação, “terra de gente que não xinga, não fala alto, nem joga papel na rua”. Talvez esteja aí a principal razão da baixíssima audiência do primeiro debate da campanha presidencial na TV Band, que variou entre 3 e 6 ponto percentuais (no pico), segundo revelado pela própria emissora paulista.

Números pífios (talvez seja esta a mais perfeita definição), principalmente quando o índice é comparado com o banho da concorrente Rede Globo, que bateu nos 44 pontos de pico ao transmitir o jogo Internacional x São Paulo pela Libertadores da América, no estádio do Morumbi. Bem pertinho da arena política.

No estádio de futebol, sim, se viu um jogo de verdade. Vontade de ganhar dos dois lados: garra, raça, valentia, jogadas de efeito e chutes para o mato quando necessário, no jogo de campeonato. Gente sem medo de correr riscos dentro de campo, sem temor dos urros e apupos vindos da galera nas arquibancadas. No fim um gaúcho, o Inter, vencedor no campo do adversário.

Um elixir contra o tédio, que não deixou ninguém desligar o aparelho, e muito menos dormir diante da TV antes do árbitro apitar o final da partida. Quanta diferença do debate presidêncial da quinta-feira. Se o marciano de Nelson Rodrigues mudou o canal, como muita gente de carne e osso, descobriu finalmente que conduzira sua nave espacial na rota certa.

“Estou mesmo no Brasil!”, deve ter dito o E.T.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares@terra.com.br

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Comentários

Marco Lino on 7 agosto, 2010 at 9:58 #

Não poupou ninguém. Parabéns!


Olivia on 7 agosto, 2010 at 10:33 #

Boa análise, perfeita. Acho também que as regras do debate também contribuem para a mesmice.


ana maria viira on 7 agosto, 2010 at 13:51 #

Brlhante sua análise.Perfeita.Além do clima frio do debate,a desinformação dos candidatos tambem contribuiu para gelar ainda mais.Quando o assunto foi saude, esperei discussões sobre a regulamentação da Emenda Constitucional nº29,A candidata Marina foi a única que tocou ligeiramente no assunto.


Regina on 7 agosto, 2010 at 14:15 #

Erramos sempre quando copiamos os outros. O bom do brasileiro está na autenticidade, no ser diferente, no “jogo de cintura”. Paremos de pensar que o dos outros é o certo. Gostei do seu estilo, Hugo. E o meu voto, como é que fica????


luiz alfredo motta fontana on 7 agosto, 2010 at 15:34 #

Caro VHS

Agosto tem dessas coisas

Está no ar, nunca no clima

Veja só

A tua jaguatirica, “Felis pardalis”, não resistiu, revelou-se apenas mais uma gata doméstica, Felis Catus”, daquelas que a noite comprovam que todas são apenas pardas.

Tem apenas um recado ao Rei, magou-se por ser a “preterida”, afinal, sempre sonhou em ser a “preferida”.

Cara Regina

O voto?

Repito aqui o que venho dizendo alhures:

-“2010, o ano em que a urna enjoou!”


Regina on 7 agosto, 2010 at 15:40 #

Caro Fontana, que vamos fazer????????? Não podemos entregar a rapadura assim de mão beijada!


luiz alfredo motta fontana on 7 agosto, 2010 at 16:17 #

Cara Regina

Resistir mesmo que nas canções

No olhar de VHS

Na saudade de Caymmi

No renovar do gelo exalando o malte

Na trincheira dos blogs

Nos atabaques ao luar

Cara Regina

Em agostos Camus parece gritar

Ainda bem que setembros ressurgem

Abraços

Aqui um poemeto com cara de fim de noite num balcão da vida

———————————————-

Apenas triste

(luiz alfredo motta fontana)

Em algum lugar,

quase esquecida,

de há muito calada,

permanece intacta.

Em algum vão,

desse disperso repertório,

sobrevive,

e espera.

Clara e concisa,

a expressão:

“além de ti, a ausência de antes”.

Essa noite não ficarei mudo,

acordarei amanhã,

apenas triste!


Mariana Soares on 7 agosto, 2010 at 16:58 #

Belíssimo texto: verdadeiro e sublime! Já o debate da Band foi inssosso, sem graça, quase uma novela, onde quase todos fingiram ser o que não são, guardando as garras e armas, que bem sabemos que tentam a todo custo esconcer do eleitorado, especialmente os dois candidatos que estão a frente das pesquisas.
Quanto ao voto, é certo que o “colocaremos” na urna, mesmo que precisemos tapar o nariz na hora de fazê-lo, pois, nesta questão, não dar para a gente se omitir. Ainda vem muito mais por aí, é só esperar, e, como dizia meu velho pai, ninguém engana todos por todo o tempo.
Bela poesia, poeta Fontana!


Cida Torneros on 7 agosto, 2010 at 19:41 #

Maravilha de artigo, Vitor!!!
abrazos montevideanos!!


Regina on 7 agosto, 2010 at 22:43 #

O poeta acertou o alvo, sucumbi.
Temos que tacar fogo no palanque da próxima vez que esses três ou quatro fantoches se apresentarem a nação pra pedir votos. Eles tem que mostrar se tem farinha no saco ou é só pó…


Gracinha on 7 agosto, 2010 at 23:24 #

Parabéns pelo belo artigo! a sua análise me deu a certeza de que n perdi nada, ao contrário, fiquei maravilhada ao aproveitar a noite da 5ª feira para rever Gregory Peck no clássico O Sol é Para Todos. Grande abraço.


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