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Postado em 31-07-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 31-07-2010 08:49


Um livro mágico de Saramago
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ARTIGO DA SEMANA

NA VÉSPERA DE AGOSTO

Vitor Hugo Soares

Acabo de ler “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, um dos primeiros e mais fabulosos romances de José Saramago. Agora entendo porque esta obra foi a razão inicial do encontro e da paixão da espanhola Pilar Del Rio pelo recém falecido escritor português, no cenário da incrível Lisboa dos anos 30 que o livro retrata, quando do retorno a Portugal logo depois da morte de Fernando Pessoa, do heterônimo mais clássico do grande poeta, que se auto exilara no Rio de Janeiro.

Ainda estonteado pela mágica e embriagadora atmosfera da história e de seus personagens, escuto um leve bater na porta do apartamento em Salvador. É agosto que pede licença para entrar neste domingo do ano eleitoral de 2010. Sétimo mês do calendário gregoriano, tão emblemático e sugestivo da vida do País, a começar por um dos fatos de maior impacto nas recordações do jornalista quando garoto: o suicídio de Getúlio Vargas, chefe da Nação e guia do antigo trabalhismo brasileiro – de fim tantas vezes decretado, e tantas vezes ressuscitado, principalmente quando o tempo é de pedir votos.

Lembro nitidamente do momento em que a notícia chegou, no meio do formigueiro humano da construção da primeira usina da Companhia Hidroelétrica do São Francisco, (CHESF), em Paulo Afonso, que iluminaria o Nordeste nos anos seguintes e tornaria Getúlio um mito ainda maior na região. Veio através de um potente serviço da auto-falante instalado no centro da praça principal da Vila Poty, coração da cidade operária, que naquele instante parecia atingida por fragmentos do disparo no Palácio do Catete, no Rio tumultuado dos 50. Ontem como hoje, já se vê.

Impossível esquecer. Mas fiquem tranqüilos, que não contarei de novo a historia do impacto daquele dia na vila baiana, como já o fiz tantas vezes em outros artigos. Este, por enquanto, é só um breve registro para não deixar passar em branco a chegado do novo mês, que na pauta do jornalismo nacional tem peso inescapável. Comparável ao do preço do quiabo, do camarão e do dendê na época do caruru de Cosme e Damião, nas pautas dos jornais baianos, no mês de setembro.

Na verdade, três assuntos me ocuparam a atenção nesta semana de pré-agosto: O clima de conversa de comadres no “ti ti ti” que invade, praticamente, todos os espaços da cobertura da campanha presidencial – e para os governos estaduais também – de nossos mais lidos diários e revistas semanais; a torcida pelo Esporte Clube Vitoria, o rubro-negro baiano que enfrenta os “santásticos” meninos da Vila Belmiro, na decisão da Copa do Brasil de futebol; e como já informei no começo, a leitura de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A campanha política é esse disse me disse inconseqüente e enganador que se sabe. O sexo dos anjos é o tema que mais se discute até aqui. Ultimamente substituído pela polêmica em que se engalfinham os petistas de Dilma Rousseff e os tucanos de José Serra, para tirar a limpo quem é de esquerda e quem é de direita na geléia geral da campanha, o que no final das contas se resume na mesma cantilena e só reforça as suspeitas levantadas pela verde Marina Silva, de que petistas e tucanos não passam de duas faces da mesma moeda.

O Vitória perdeu o primeiro jogo na Vila. Foi baleado duas vezes, mas os “santásticos” comandados por Neymar deixaram vivo o time baiano, mesmo que respirando “por aparelhos”, como insinua o comentarista Milton Neves na Band News. Os 90 minutos decisivos do jogo serão quarta-feira que vem em Salvador, na fogueira rubro-negra do estádio do Barradão, onde o Leão da Barra não tomou um gol sequer nesta Copa do Brasil. Quem sabe o troco, apesar de toda beleza e perigo do gingado do Santos?…

Por enquanto, o conforto vem mesmo é das páginas do livro de Saramago, inclusive no que concerne ao jornalismo, como diria Janio Quadros. No romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, uma passagem marcante neste particular é quando, de volta do Brasil para Portugal, em seguida à morte de Fernando Pessoa, o médico heterônimo do grande poeta luso pega os jornais para ler, depois de passar um tempo na ignorância do que se passava no mundo.
Não que por inclinação Ricardo Reis fosse leitor assíduo, pelo contrário, fatigavam-no as páginas grandes e as prosas derramadas, mas por simples falta do que fazer, revela Saramago sobre o personagem. “Demissão do governo espanhol, aprovada a dissolução das cortes, é uma das notícias do jornal que o médico tem nas mãos naquele 1936. O Negus num telegrama à Sociedade das Nações diz que os italianos empregam gases asfixiantes, é outra notícia.

O personagem constata: “São assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase sempre quando já é tarde demais para emendar os erros, os perigos e as faltas”. Bom jornal, reflete o personagem do romance, seria aquele que no ano de 1914, tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia 24 de Julho. Disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça, quem sabe se não iríamos a tempo, e melhor seria ainda se aparecesse publicada a lista dos que iriam morrer.
Saramago com a palavra final para quem quiser escutar ainda: “Milhões de homens e mulheres a ler no jornal da manhã, ao café com leite, a notícia de sua própria morte, destino marcado e a cumprir, dia, hora e lugar, o nome por inteiro, que fariam eles sabendo que os iam matar, que faria Fernando Pessoa se pudesse ler, dois meses antes, o autor da Mensagem morrerá no dia trinta de novembro próximo de cólica hepática, talvez fosse ao médico e deixasse de beber, talvez desmarcasse a consulta e passasse a beber o dobro, para poder morrer antes.”
Magnífico romance! Magnífico Saramago!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 31 julho, 2010 at 10:28 #

Caro VHS

Enquanto o Blogbar descansa, talvez tenha chegado a hora de encerrar as atividades, este teu leitor passeia pelos teus textos.

Agosto, só tem como perdão, o vento da minha infância que contribuia com o empinar de pipas.

Marina, a tua jaguatirica, acerta ao dizer: -“que petistas e tucanos não passam de duas faces da mesma moeda.” . Eu digo isto desde sempre. Mas… ela, de maneira delicada, confessa no dia a dia que fará igual, até louva a política de transferência descarada de renda para o setor financeiro.

Maus ventos varrem esta eleição, não importa quem triunfe, perderemos todos, continuaremos sob o mantra dos “Meninos do Copom”, esse nada doce “JurosAlém”.

Resta o Saramago…

O Vitória…

E a abusada maestria dos “Meninos da Vila”. Moleques sim, mas só na bola…


Mariana Soares on 31 julho, 2010 at 21:12 #

Belíssimo texto e comentário idem! Não sou fã do mês que se aproxima e espero que passe rápido e sem deixar rastro…Só resta mesmo uma esperança de alegria nesse agosto que se anuncia, quase sempre muito sombrio, que meu Vitória vença essa peleja no Barradão e traga o nosso primeiro título nacional…


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