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Postado em 22-07-2010
Arquivado em (Crônica, Janio) por vitor em 22-07-2010 11:35

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CRÔNICA/ PERDAS

O triste fim do Jornal do Brasil

Janio Ferreira Soares

“Quem lê tanta notícia?”. Ao fazer esta pergunta em 1967 nos versos de Alegria, Alegria, Caetano Veloso devia estar de saco cheio de passar por bancas lotadas de jornais estampando matérias sobre a morte de Che Guevara, a visita do General Costa e Silva ao Papa Paulo VI, as tropas americanas bombardeando o Vietnam com napalm, ou a posse de Delfim Neto no Ministério da Fazenda. Quanto às resenhas sobre o lançamento do LP Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e do compacto simples com Penny Lane de um lado e Strawberry Fields Forever do outro (ambos dos Beatles), ou ainda algo sobre a morte de Guimarães Rosa, certamente estavam nas páginas do excelente Caderno B do Jornal do Brasil, na época um contraponto aos vigiados primeiros cadernos e às barras pesadíssimas que nos espreitavam nos bares, esquinas, sertões e gerais.
Nos anos 70, quando eu estudava em Salvador, gastava quase toda minha grana em discos, livros, revistas e jornais. Além dos locais eu comprava o Estadão, O Globo, Folha de São Paulo e o Jornal do Brasil, e passava boa parte do dia devorando-os e vibrando com uma turma de colunistas e cronistas que tinha um jeito todo especial de escrever, sobretudo nos cadernos culturais. Mesmo de férias no interior eu sempre encontrava um jeito de mandar alguém enviá-los, especialmente as edições dominicais, pesadas e preciosas pérolas de papel.
A propósito, vibrei muito quando começou toda essa onda de Internet e descobri-os novamente a disposição dos meus ainda ávidos olhos, antes mesmo de o galo cantar. É claro que paginá-los com um simples toque nem de longe se compara ao prazer de folheá-los manualmente, embora essa possibilidade tátil continue existindo quando das minhas viagens, infelizmente agora com um desfalque irreparável.
É que a partir de setembro não mais terei o prazer de comprar o velho JB nas bancas. Dalí em diante, só na Internet. Não que não valha a pena acessá-lo via rede. Mas que vai ser muito esquisito sabê-lo para sempre ausente das minhas mãos numa manhã chuvosa de um domingo qualquer, isso vai. Uma pena.

Janio Ferreira, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afonso (BA), no Vale do São Francisco

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