jul
10
Postado em 10-07-2010
Arquivado em (Aparecida, Artigos) por vitor em 10-07-2010 09:49

Eliza Samúdio: a vítima

=========================================

CRÔNICA/ MULHER

LÁGRIMAS POR ELIZA

Maria Aparecida Torneros

Confesso que chorei. Na madrugada desta sexta-feira, depois de ter “convivido” com o caso Bruno, através do noticiário intenso a que a sociedade brasileira está sendo submetida, senti-me tão sofrida quanto qualquer ser injustiçado, vilipendiado, ofendido, violentado, agredido, física, moral, psicologicamente, como se fora uma criatura de menor porte, num mundo ainda machista, preconceituoso, atrelado a valores em que sexualidade e dinheiro caminham juntos e se complementam com barbáries, ou com imensa injustiça.

Considerando que há uma pseudo rede de proteção legal que se rompe, fragilmente, no que diz respeito à seriedade com que se deve encarar fatos que generalizam e vulgarizam as mulheres brasileiras, em tese, em universalidade, em desigualdade de condições, em desgraça ou desrespeito, em agressão ou descrédito, em condicionamento vil, estado pueril, imagem clara do absurdo número de queixas ( 270 MIL) nas delegacias de atendimento a mulheres, só no ano em curso, no Brasil, o que representou um aumento de 95 por cento em relação ao ano anterior.

Uma Senadora da República, no dia 9 de março, em discurso no Congresso, alertou e protestou para as declarações do goleiro Bruno acerca das mulheres. De que adiantou? A história seguiu seu curso de tragédia anunciada, a mulher reclamante, na época ainda grávida, teve o filho que não abortou, foi submetida a crueldade por parte de um grupo de pessoas que compactua, socialmente, para romper a cadeia legal que deveria proteger direitos e salvaguardar a vida humana, sua dignidade e sua indiscutível chance de elevar a voz e clamar por justiça.

A mulher Eliza Samudio, vítima, agora passa, como tantas outras já passaram, da condição de morta para a condição de ré, praticamente, julgada por aqueles que, infelizmente mantém o ciclo absurdo da opressão à liberdade de viver a que as mulheres não só tem direito, como vem lutando para conquistar e consolidar há mais de uma centena de anos.

A modelo Eliza, a amante Eliza, a ex-atriz pornô Eliza, a namorada Eliza, a reclamante Eliza, a grávida Eliza, a sequestrada Eliza, a massacrada Eliza, a assassinada Eliza, a mãe Eliza, mãe de um menino chamado carinhosamente por ela de “Bruninho”, ironia do destino que a fez nomear o menino em homenagem a um pai biológico que, segundo o andamento das investigações, parece ter sido o próprio algoz da infeliz mãe de um filho seu.

Que circunstâncias e valores afetivos, morais, sociais, podem levar a comportamentos tão bárbaros? Conjuguem-se mundos como o do futebol, da dinheirama que por ali corre, do submundo da prostituição e da droga, da ausência de família organizada, nada disso justificaria torturar ou matar um semelhante, ainda mais alguém que em algum momento esteve em nosso abraço, ou fez parte de algum arremedo de carinho. Mas, como imaginar que encontros fortuitos, regados a intensa sensualidade estariam providos ou desprovidos de carinho? O afago humano é uma bênção para a manutenção da existência, o toque pode ser a luz para que a vida se prolongue, numa cama de hospital, o olhar compassivo é prêmio para uma alma carente, uma criança abandonada ou um ancião solitário no fundo de um asilo.

Nada disso, entretanto, é suficiente, parece, para conter uma animalidade desenfreada, quando se desprotege uma cidadã, mulher, jovem, mãe, que teria em algum momento confiado na justiça do seu país, e, cujo exame comprobatório da tentativa de fazê-la abortar, só teve seu resultado providenciado quando ela já não mais respirava, e seu filho, como uma teimosia da natureza sábia, permanece vivo para um dia aprender sobre os homens, a injustiça, seu próprio calvário, resgatar sua caminhada, crescer, viver e realizar alguns dos sonhos que Eliza deve ter tido para ele, e que não foi premiada com o direito de criar o seu bebê, ou de lutar, em termos legais pela criação do seu “Bruninho”.

História triste, confesso que chorei. O respeito é o que a memória de Eliza merece agora. Respeito e cumprimento das leis. Cadeia para os seus algozes, conscientização da sociedade brasileira para uma doença que nos assola: o rompimento inaceitável da rede de prodeção para as mulhers vítimas de violência.

Cida Torneros , escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

Be Sociable, Share!

Comentários

rosane santana on 10 julho, 2010 at 14:31 #

Cara Cida, primeiro devo confessar que sou uma admiradora dos seus textos pelo que têm de bem escritos não só na forma como no conteúdo. Segundo que, como mulher e pessoa humana, associo-me ao seu desabafo acima. Passei 3 anos nos EUA e uma das coisas que mais me chamaram a atenção por lá foi o respeito verdadeiro aos direitos da mulher. Às vésperas da viagem de volta, assisti atônita o assassinato de uma cabeleireira pelo ex, através da Globo Internacional. Depois que cheguei aqui, há quatro meses, já registrei mais uns 10 crimes bárbaros contra mulheres. O de Elisa foi o maior, pelo que tem de crueldade, brutalidade e maldade. Impensável. Mas, o que mais me indigna é a passividade dos órgãos de repressão do Estado e da própria Justiça para punir severamente essa barbárie. Neste particular, estou convicta, nossa sociedade ainda está na idade da pedra lascada. Precisamos dar um basta!


Graça Azevedo on 10 julho, 2010 at 19:29 #

Cida, desde o lançamento do seu livro em Salvador que me tornei cativa do seu texto. Este, em particular, me mobilizou.
É incrível o tratamento dado às vítimas. A adjetivação usada beira as raias do mais absoluto nazismo. A culpa é da vítima (quem mandou nascer negro, muher,honesto, etc) . Perdi um filho assassinado e a sua culpa foi ter aberto a sua porta para a sua diarista e para o irmão dela, o pedreiro que reformou a sua casa. Em tempo: até quando Pimenta Neves vai estar livre?


mirtes costa on 10 julho, 2010 at 20:39 #

Cida Torneros, como dói na gente, ñ importa onde agente esteja, a morte de Elisa, doeu em vc da forma sentida descrita acima e imagine o tamanho dessa nossa dor. A VIOLÊNCIA CONTRA MULHER DÓI MESMO NO MUNDO INTEIRO.


mirtes costa on 10 julho, 2010 at 20:41 #

Cida Torneros, como dói na gente, ñ importa onde agente esteja, a morte de Elisa, doeu em vc da forma sentida descrita acima e imagine o tamanho dessa nossa dor. que dói no Brasil todo !!!.


mirtes costa on 10 julho, 2010 at 20:46 #

O Brasil inteiro esta machucado e sentindo a morte de Eliza, O Brasil fica manchado no resto do mundo, chega de violência contra as mulheres,o governo precisa tomar uma atitude . ! ! !


mirtes costa on 10 julho, 2010 at 20:47 #

Valeu Cida Torneros pela nossa defesa


Cida Torneros on 24 Fevereiro, 2017 at 14:01 #

Nossa sociedade está confusa. Perdida. Infestada de juridiques cheio de brechas machistas e corruptas . Libertar o ex goleiro Bruno sem ter cumprido os 22 anos de pena não é uma pena. É uma vergonha. Cada juiz que se atém ao texto somente se ampara num contexto fantasioso. Próprio para brincar com a nossa cara e cair na folia carnavalesca. Os restos mortais de Eliza se desfazem em lamentos de todas as criaturas enganadas e injustiçadas. Feminicidio é uma prática hedionda. Cadeia neles e em todos que pensam que ser macho é distribuir semem como borbulhas de sabão. Quando germinam viram pessoas que merecem viver e ter amor e reconhecimento de suas origens.
Que a alma de Eliza Samudio descanse em paz. Que seu filho consiga crescer e ser feliz apesar de tudo. Que um dia até possa tentar entender porque o pai fez o que fez ou permitiu que outros fizessem. Que estude e até faça carreira no direito. Quem sabe venha a ser um juiz para dar justas sentenças. Ou um goleador para marcar o gol da Vitória em homenagem àquela que sonhou criá-lo com amor e proteção.
Viva a memória de Eliza!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • julho 2010
    S T Q Q S S D
    « jun   ago »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    262728293031