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Postado em 25-06-2010
Arquivado em (Artigos, Janio) por vitor em 25-06-2010 18:17

CRÔNICA/CRAQUES E BOLAS

O sofrimento da Jabulani

Janio Ferreira Soares

Minha primeira bola foi um presente do meu tio Lindemar e veio acompanhada de calção, meião, camisa e chuteira. Eu tinha lá meus sete anos e ele achava que eu seria um craque. Mas assim que eu percebi que não levava nenhum jeito para o futebol comecei a devorar seus livros, discos e revistas. Foi melhor assim.
Também foi ele quem me levou para ver o meu primeiro jogo numa Fonte Nova ainda térrea e segura. Foi um Bahia e Cruzeiro daqueles, já que no time mineiro estavam Tostão, Dirceu Lopes e Cia. Saí do estádio hipnotizado, achando que todos os jogos da minha vida seriam espetáculos iguais. Mas bastou um Galícia e Leônico para que eu percebesse que jogadores capazes de fazer um menino do interior voltar para o sertão acreditando que anjos existem eram raríssimos.
Dito isto, estou bem à vontade para dizer que continuo admirando o que realmente vale à pena, independente de paixão ou patriotismo. Isso serve tanto para o esporte como para qualquer tipo de arte. Ou você é daqueles que torcem para que um filme brasileiro ganhe o Oscar mesmo sabendo que ele é muito inferior a uma produção, digamos, argentina, só por causa de sua porção Dom e Ravel? Se for, pisou na bola.
E por falar nela, jamais presenciei uma ser tão maltratada como essa de nome Jabulani. Até agora só a vi acariciada quando tocada pelos pés de Messi ou pelas mãos dos árbitros ao pegá-la no pedestal antes das partidas. No mais, é só dor em vários idiomas.
Aliás, se essa bola falasse, certamente diria que felizes foram suas antepassadas, que mesmo sem nenhuma tecnologia de ponta eram tratadas como deusas por craques que apesar de calçarem pesadíssimas chuteiras de couro cru, flutuavam pelos gramados feito anjos conduzidos pelas mesmas asas que eu vi naquela noite nos ombros de Tostão e Dirceu Lopes, num tempo em que o futebol e a vida eram de fantasias, e a Bahia, com seus geniais artistas e poetas desfolhando bandeiras, organizando movimentos e orientando carnavais, era a ponta-de-lança da geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anunciava.

jJanio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco .

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