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Postado em 25-06-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 25-06-2010 18:37

Dunga furioso na beira do campo

DEU NO TERRA:

Bob Fernandes
Direto de Durban

Robinho com dores musculares, poupado. Estamos na bancada da imprensa cercados por jornalistas portugueses. Um deles, em nome de todos eles, corneteia:
– Carlos Queiroz está a inventaire.

Ricardo Costa, zagueiro, joga pela direita, na lateral que Miguel ocupava. Queiroz optou por três zagueiros, embora Ricardo Costa já tenha sido lateral com Mourinho no Porto, tanto na direita quanto na esquerda.

Simão deu lugar a Duda, Hugo Almeida a Danny e Pedro Mendes a Pepe. No Brasil, o já esperado Julio Baptista na vaga do suspenso Kaká, Daniel Alves no lugar de Elano e, inesperado, Nilmar no ataque com Robinho fora.

Belo o estádio de Durban, 25 graus e, enfim, depois da gélidas noites de Johannesburgo, uma tarde ensolarada para o futebol brasileiro.

Dunga, já no gramado, reza ou murmura algo para si mesmo. As câmeras da FIFA focam em Luis Fabiano, o grande destaque da última partida da Seleção.

Lentes em Julio Baptista. Nos olhos, nos movimentos nervosos do corpo, toda a ansiedade da estreia em uma Copa do Mundo, do peso de substituir Kaká.

A câmera diante do rosto de Dunga mostra a testa vincada, duas rugas profundas. Felipe Melo, de cabeça baixa, ora.

Rola a bola.

Sete minutos. Portugal, o time inteiro, espera o Brasil em seu campo. A Seleção cerca, toca a bola, busca uma brecha.

Aos 12’ Felipe erra um passe, contra-ataque para Portugal. Desde a estreia, há coisa de um ano, esse é um grande problema de Felipe, as bolas cruzadas no meio-campo ou na intermediária do Brasil.

Quinze minutos, Portugal começa a sair para o jogo. Aos 21’ Felipe Melo racha, a sola da chuteira raspa o cotovelo e o rosto de Pepe. Sinais claros de descontrole; excesso de vontade, escassez de frieza.

Difícil achar uma vereda, uma jogada no ataque. A bola gira de pé em pé, Julio Baptista, Daniel, Fabiano, Nilmar… Portugal não dá espaço e o Brasil não consegue inventá-lo.

Sem Kaká e Robinho, falta inspiração, luz, a centelha de um craque do meio para a frente.

Contra-ataque, passe longo para Cristiano, que dispara, resta a Juan enfiar a mão na bola. Cartão amarelo.

Luis Fabiano sassarica aos 29’, acha Nilmar, que afunila pela esquerda e toca de pé esquerdo. Na trave.

Contra-ataque, Tiago tenta cavar um pênalti. Cartão amarelo.

Felipe racha aos 34’, a bola passa longe, mas na direção de Carlos Queiroz, que encrespa e aponta Felipe para Archundia, o juiz mexicano.

Há algo estranho, Felipe Melo está alguns tons acima.

Pepe esperou 17 minutos, mas dá o troco em Felipe. Pisa no seu tornozelo aos 38’. Cartão amarelo para Pepe, que olha para Felipe e mostra com os dedos: 1 a 1. Felipe devolve três minutos depois, atropela Pepe no meio-campo.

Cartão amarelo, um esporro de Gilberto Silva. Ao pé do ouvido, mas a câmera capta alguma coisa:

– …você não quer jogar? Caral…porr…

Dunga, imediatamente, manda Josué entrar. Felipe sai e passa por Dunga, que já esteve lá, conhece a sede de um volantão do gênero quando as coisas escapam dos trilhos. Ambos se cumprimentam.

Segundo ato.

Josué, Gilberto Silva, Daniel Alves, Julio Baptista, Luis Fabiano… quem vai criar?

Duas vezes Cristiano dispara pela esquerda e Portugal quase chega. Sai Duda, entra Simão.

Gilberto Silva erra feio no meio-campo, Cristiano Ronaldo invade pela direita, ao desarmá-lo Lúcio toca para Raul Meirelles, que perde diante do gol. Na jogada Julio Cesar sente, parece ser o mesmo local da contusão na partida contra o Zimbabwe.

Dunga esbraveja, xinga, Jorginho lhe diz alguma coisa. Portugal melhor em campo.

Michael Bastos pela esquerda, aos 20’, isola a Jabulani. Jogada bisonha, vaias da torcida. Cristiano Ronaldo cresce. Portugal, no contra-ataque, busca jogar. Sem bola, se fecha. O Brasil toca, toca, mas não busca o jogo lateral, não consegue avançar.

A bola gira e ninguém aparece para o jogo, todos estáticos, presas fáceis para a marcação portuguesa. Daniel tenta de longe aos 26’, fraco, sem direção. Vaias. À torcida restam as Olas.

Josué erra o 100º passe do Brasil, Dunga pula, salta à beira do gramado. Jogadas grotescas se sucedem, o Brasil apanha da Jabulani. Dunga chia, Jorginho olha o relógio e avisa o técnico:
– Faltam dezenove…

Julio Baptista erra mais um passe. Dunga chama Ramires aos 40’. Julio sai. De cabeça baixa.

Faltam dois minutos para acabar o suplício. Daniel Alves parado, mão na cintura. Dunga o chama e esbraveja. Vaias da torcida aos 44’.

Escanteio, Lúcio e Juan sobem para a área de Portugal. Michel Bastos, encarregado da cobertura, se posiciona mal, além do meio-campo. Dunga berra, as vuvuzelas atrapalham, o técnico se agacha, enlouquece à beira do gramado. Quando Michel percebe e olha… encontra Dunga a sapatear e gesticular.

Juan se aproxima da lateral. Bronca monumental do técnico, endereçada a alguém. Lúcio toca de calcanhar, bola perdida na lateral esquerda, Juan a domina na área e… perde-a sozinho, quase gol.

Dunga, claro, pira à frente do banco.

Fim de jogo. Uma vaia enorme ecoa pelo estádio.

Com 61% de posse de bola, o Brasil errou 113 em 703 passes; daqueles passinhos laterais, curtos. Portugal errou 104 em 379. Em 18 chutes da Seleção, 5 chegaram ao gol. Portugal chutou 13 e fez chegar 3.

Da posse de bola do Brasil 63% se deu no meio-campo, entre o círculo central e as laterais, e isso diz tudo quando, sem Kaká e Robinho, a criação fica a cargo de Felipe Melo, Gilberto Silva, Julio Baptista, Josué…

Sobrou vontade física, vontade de disputar a bola, mas faltou inspiração, criação, luz, a centelha. O sapateado, o berreiro de Dunga à beira do gramado é a melhor análise da partida. Ele agora está na sala de imprensa, na coletiva. Exausto.

Faltou futebol.

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Comentários

danilo on 25 junho, 2010 at 19:43 #

parabéns Dunga por peitar a Globo golpista. vc calou a boca destes críticos imbecis. sua seleção está apresentando um excelente padrão de jogo, este time rompedor, o típico futebol moleque canarinho. até agora a seleção brasileira esteve impecável. vc Dunga é o orgulho deste novo Brasil q desponta para o mundo com sua pujança. somos a nação mais importante do planeta.


Jacob Solitrenick on 27 junho, 2010 at 23:15 #

Bob, se o jogo tivesse algo de bom como a sua narrativa teria valido a pena. Vamos torcer que contra o Chile venha uma boa surpresa.


Guilherme Scalzilli on 28 junho, 2010 at 1:19 #

Torcendo contra
(publicado na revista Caros Amigos em junho de 2010)

Vai começar o espetáculo do ufanismo histérico. Mídias de todos os suportes serão tomadas pela publicidade oportunista do verde-amarelo. Jornalismo e marketing, amalgamados por interesses comuns, fornecerão os delírios de união e superioridade que o público precisa para engolir a farsa consumista. Milícias uniformizadas tomarão ruas e bares, assegurando a adesão das massas ignóbeis à ditadura do hexa.
Pois não contem com este humilde escriba. Torço apaixonadamente para o fracasso da seleção brasileira na África do Sul. Quanto mais humilhante e precoce, melhor. De preferência jogando mal, tomando olé, sob apupos das torcidas e o escárnio da crônica internacional. Que os falsos craques sejam desmascarados, patrocinadores amarguem prejuízos, apresentadores e comentaristas engasguem na desmoralização dos seus favoritismos.
A escolha soa impopular e arriscada, mas deveria constituir uma demonstração de coerência para os apaixonados pelo esporte. O time da CBF personifica os vícios e artimanhas que envenenam o futebol nacional. Ali podemos entender a pauperização dos campeonatos regionais, a destruição de clubes interioranos, o êxodo de talentos, o esvaziamento dos estádios, a imoralidade dos bastidores.
Uma seleção formada quase exclusivamente por jogadores de times estrangeiros não possui qualquer identidade com o torcedor brasileiro. Eles nem ao menos são melhores do que dezenas de atletas que jogam no país, e que formariam uma equipe mais entrosada, motivada e empolgante. Mas, claro, Dunga não pode privilegiar a qualidade. Sua caricatura de sargento brucutu ameniza as motivações financeiras da convocação, que atende aos interesses de empresários, cartolas e especuladores.
O legítimo espírito patriótico deve repudiar esse empreendimento nefasto e sua utilização da retórica nacionalista em benefício de corjas obscuras.


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