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Postado em 19-06-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 19-06-2010 01:04

Dilma torce pela seleção em Paris

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ARTIGO DA SEMANA

Política e brasileiros ao rolar da bola

Vitor Hugo Soares

Nada melhor que acompanhar a movimentação dos três principais candidatos à sucessão presidencial, dentro e fora do País, nestes dias de junho em que a bola rola e as paixões do mundo afloram na África do Sul, para constatar toda a verdade e atualidade da análise sobre o caráter do brasileiro, produzidas há muitas décadas em “O Vulcão e a fonte” pelo notável escritor paraibano e flamenguista doente, José Lins do Rego.

Ao autor de “Menino de Engenho” recorro nesta sexta-feira, 18, de emoções embaralhadas: primeiro, a consternação profunda do leitor compulsivo com a notícia da morte do Prêmio Nobel, autor do “Ensaio sobre a Cegueira”, o incrível português cidadão do mundo, José Saramago. Em seguida, o contentamento do torcedor fanático do futebol jogado com fôlego e classe – como gostava o notável escritor nordestino com alma de carioca -, diante da inesperada vitória da Sérvia sobre a poderosa Alemanha. Muitos dos nossos analistas já propagavam uma final quase certa do mundial entre os alemães e os até aqui indomáveis argentinos treinados por dom Diego Armando Maradona. Veremos!

Enquanto isso, é bom não esquecer de olhar para outros lados. Em um deles, no continente europeu, a petista Dilma Rousseff se mexe. Busca espaço e visibilidade interna e internacional, quando as atenções estão voltadas para a terra de Nelson Mandela. Vestida com a camisa “canarinha”, ela torce pelos comandados do gaúcho Dunga em uma casa noturna de Paris – entre conversas fechadas e imagens abertas via Jornal Nacional de beijinhos carinhosos aplicados na face do conservador presidente da França, Nicolas Sarkozy.
No Brasil, o candidato do PSDB corre com a gana do lateral Maicom na decidida tentativa para amenizar, nas próximas pesquisas de opinião, os estragos causados no eleitorado pelo programa petista que teve Lula como apresentador e a então pré-candidata Dilma no papel de coadjuvante de luxo, daquelas que no cinema ficam, no fim, com o prêmio principal.

Na quinta-feira, no programa dos tucanos no rádio e na televisão, foi o próprio candidato quem assumiu o protagonismo . Serra chamou para ele a responsabilidade do jogo político eleitoral transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão em horário nobre. Metido na pele do “cara simples” – meio parecido com o companheiro de partido Fernando Henrique Cardoso em campanha , mas sem chegar as raias de ser filmado comendo buchada de bode no sertão baiano, como fez FHC ao lado de ACM em Nova Canudos -, o culto e sofisticado palmeirense Serra tratou de exibir a face do homem popular.
O cara de origem humilde que vence pelo trabalho duro, a aplicação no estudo, a firmeza de princípios e aplicação. O político que lidera e sabe administrar ao mesmo tempo. O líder estudantil, o exilado, a trajetória de feitos na educação e principalmente na saúde, quando comandou a pasta entre março de 1998 e fevereiro de 2002, durante o governo de Fernando Henrique. “Quando eu digo “o Brasil pode mais”, é porque pode mais. Agora, precisa fazer ele ir para frente e eu acho que eu sei. Precisa querer, precisa saber como fazer”, dispara o tucano Serra, enquanto a TV mostra imagens de feitos em São Paulo e no país, e o candidato conversa com personagens, escuta comovidos testemunhos , sentado em salas de estar das famílias , como fez há pouco tempo a concorrente Dilma.

Enquanto isso, a verde Marina Silva, indiferente ao barulho das vuvuzelas, tenta ocupar o meio de campo da campanha. Considera Dilma e Serra farinha do mesmo saco, que se esforçam , cada um de seu jeito, no cumprimento da estratégia de Lula para fazer das eleições presidenciais de 2010, um plebiscito em disputa à sua sucessão “para tudo seguir como está”. Marina lembra o sufocamento da candidatura do deputado socialista Ciro Gomes – forçado por “amigos” e “aliados”, a abandonar o campo antes do jogo começar de fato . Marina quer debate pra valer na campanha, recusa a farsa do faz de conta e da propaganda, para que o eleitor faça escolha sem dicotomias, democrática e livremente como deve ser. E assim dá fervura que esquenta o morno.

E voltamos a José Lins do Rego. Aquele que escreveu linhas antológicas sobre o caráter do brasileiro depois do fracasso da nossa seleção em pleno Maracanã, na Copa de 50, vencida pelos uruguaios. A Copa que terminou tão melancolicamente, deu ao escritor uma experiência amarga, mas ao mesmo tempo propícia para ele completar suas observações sobre o caráter do seu povo. No estádio uma multidão em aglomeração raramente vista até então. Duzentas mil pessoas comprimidas num praça de esportes, nas reações mais distintas, “ora na gritaria das ovações, no barulho das vaias, ou no angustioso silêncio da expectativa de um fracasso”
Ali estava então, segundo o autor de “Fogo Morto”, todo o povo brasileiro.”Não era o Brasil de um grupo, de uma região, de uma classe. Não. Era o Brasil em corpo inteiro. E Zé Lins, como era chamado por Graciliano, dá sua impressão sobre tudo aquilo que via, uma boa impressão. “Senti que havia povo na Nação – nova gente com capacidade de se congregar para uma causa, para uma obra, para os sofrimento de um fracasso”, diz o escritor ao mostrar o lado positivo da questão.

Mas há os outros lados. Há os nossos defeitos, nossas fraquezas , as nossas deficiências, assinala o escritor. “Sim, há o brasileiro que é um adorador da vitória, o homem que não admite fracasso. Vencesse magnificamente a nossa equipe, e tudo estaria no ápice. Subia-se a montanha de um fôlego só. Nada havia melhor do que o Brasil. Seríamos, no mínimo, os maiores do mundo. Mas, se numa luta de igual para igual, perdeu-se a batalha, como aconteceu na última partida, então já não seremos mais os maiores do mundo, passaremos a ser os piores. Cospe-se na cara dos heróis que, três dias antes, tinha-se carregado nos ombros”.

Magníficas palavras do rubronegro José Lins do Rego. Válidas tanto para o futebol como para a política no Brasil.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 19 junho, 2010 at 6:39 #

Três pequenos atores em busca de um grande personagem.

Serra, Dilma e Marina, buscam a glória de efeitos especiais, maquiagem, e “impostação” de idéias.

Nada de novo no horizonte eleitoral tupiniquim, os figurantes, ou seja, os eleitores, estão habituados com essas encenações, e nem mesmo reagem, apenas perfilam-se em pesquisas modorrentas. Tempos de pitonisas, “Ibopes” e “Datasfolhas” se engalfinham no mesmo palco.

Nesses dias, tão dissonantes e disformes, é raro encontrar luzes, ou reflexões, o que torna VHS e seu texto de extrema necessidade. Vitor Hugo Soares traduz um dos raros faróis nessa bruma, sem perder o compasso e o olhar de poeta.

De resto sabemos de antemão o resultado, o tal “Deus Mercado”, triunfará, abencoando o(a) eleito(a), certo que as oferendas, em juros, continuarão por décadas.

A mistificação impõe modelitos. Serra tenta ser afável, e democrático, desde que ungido e não contestado, e queda-se à margem do lago admirando sua própria imagem. é Narciso até mesmo pela necessidade de exibir, ao menos, um único admirador confesso e fiel.

Dilma, “o capricho de um Rei”, em desespero, experimenta fantasias, na busca insana de uma imagem que a justifique. Atravessa no samba, quebra a harmonia com pesadas alegorias, e sorri, como quarta, na terça de carnaval.

Marina, esconde o consorte, e brinca de menina pobre, embora senadora, embora lema, e tema, de cosmética indústria. Afinal “in natura” só mesmo as longínquas memórias de um seringal mítico de que todos falam e sobre o qual ninguém relata.

Elições são assim, ao menos na concepção de “marqueteiros”, carnavelescos e farsescos.

Tim tim VHS

Ainda resta ternura, ao menos em seu texto.


luiz alfredo motta fontana on 19 junho, 2010 at 7:22 #

errata:

abencoando = abençoando

Atravessa no samba = Atravessa o samba

Elições = Eleições


Mariana Soares on 19 junho, 2010 at 18:36 #

É verdade, Poeta Fontana, ainda existe ternura, e muita, em mais este texto primoroso do nosso editor do BP. Mas, além de ternura, é preciso ter fé e a campanha eleitoral, assim como a copa, está apenas começando. Ainda tem muito jogo pela frente…e, principalmente, temos a arma mais eficaz sob o nosso poder: o nosso voto – o nosso gol de placa!


Carmem on 19 junho, 2010 at 21:05 #

Ainda em choque pela perda do nosso querido escritor universal Saramago, esse texto devolve um pouco de ternura para nossa alma.


Olivia on 19 junho, 2010 at 21:35 #

Belo texto, Vitor Hugo. Irretocável.
Agora um pouco de Saramago por ele mesmo: “Não encontro nenhum motivo para deixar de ser o que sempre fui: Alguém que está seguro de que o mundo em que vivemos não está bem-feito”. Perdemos todos nós com a sua partida. Ele adorava o Brasil e também era amado por muitos brasileiros.


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