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Postado em 19-06-2010
Arquivado em (Multimídia) por vitor em 19-06-2010 21:54


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CRÔNICA/AMORES

Revendo “Out of Africa”

Aparecida Torneros

Em época de Copa do Mundo, desde a África do Sul, busquei um filme antigo ontem. E o assisti porque precisava era mesmo disso. Da sensação de voltar no tempo, coisa que às vezes me invade como retrocesso pertinente ao sentido do tempo versus espaço, capaz de ser presente eterno na vivência emocional.

Às vezes, confesso, sei que tudo parece tão distante, inalcançável até, e me pergunto por que encontramos e descobrimos coisas e pessoas, um dia, nessa vida… Vou lembrando …

Volto aos anos 60, a menina aluna do curso ginasial que tinha um trabalho de geografia para fazer. Devia escolher um país qualquer, do mundo inteiro. Escolhi, aos 12 anos, o Senegal. Nem me perguntem porque, eu não saberia explicar.

Na classe, foi um festival de apresentações sobre França, Portugal, Inglaterra, Itália, Estados Unidos e por aí… O professor e a turma se espantaram quando mostrei o pouco que meu pai conseguiu para que eu tivesse material, correndo consulados africanos e a pequena representação diplomática do Senegal.

Eu quis entender aquele continente, ou tentar entender… afinal, dele vieram tantos brasileiros afro-descendentes, de tribos que na América se tornaram escravas. Ali, não foi difícil perceber, havia e ainda há, muita riqueza mineral, e a colonização baseada na exploração dos mais fortes sobre os mais fracos, começava a diminuir naquela década, com a independência de alguns povos e a instabilidade civil que se traduziu em guerras cruentas nos anos seguintes.

Ontem, revi esse filme antigo, sobre a África e a vida de uma dinamarquesa que para lá foi nos anos 20, interpretada pela atriz Meryl Streep, contracenando com o ator Robert Redford.

Intitulado em português como “entre dois amores” , o enredo onde me situei pelo menos há vinte anos atrás, quando vi o mesmo filme pela primeira vez. A bela e selvagem África.
Sentindo o continente negro dentro da minha alma, mais uma vez, me reportei ao Senegal, ao Kenia, a Moçambique, a Angola, a Africa do Sul, passeei nas savanas, busquei o cheiro animal do selvagem encontro da vida com a procriação…
Pude me ver projetada em algum lugar mais hospitaleiro, talvez uma cabana perdida na imensidão do mundo, onde o pôr do sol seja de um encanto tamanho que me faça reencontrar o amor, o mesmo que levo dentro de mim, onde quer que eu vá…

Sei que a gente daquele Continente fica , permanece, no meu coração, como tantas permanecem, e transcendem o tempo, transcendem a história… tudo está certo, é parte de um contexto maior, na nossa história…

Mandela e o apartheid. A alegria de fênix, daquela gente explorada, apesar de tudo, sua lição de felicidade interior, ou da busca incessante de escolher como no filme, “entre muitos amores”…

Ou se ama a vida e se luta por ela, ou se entrega os pontos e se deixa explorar pelos desbravadores que lhes levam, ou tentam usurpar, a dignidade de serem os donos da terra, os habitantes originais de lugares ricos e lindos, que pertencem a uma raça chamada humana… afinal…

No filme, revisto e revivido, redescobri a África, e sei porque a tal Copa do Mundo tão colorida e vibrante, oscila entre muitos amores, não apenas dois, mas nos milhares de amores que norteiam nacionalidade, guerra, poder, rivalidade, posse, hegemonia, multinacionalidade, exploração de minas , pedras preciosas, petróleo, num mundo ainda tão dividido, tão desigual, tão variado em camisas de times de futebol, hinos, bandeiras, apegado a fronteiras e disputas.

Aí, imaginei Lennon, claro, “Imagine”, vocês podem dizer que sou uma sonhadora, mas eu não sou a única, ainda bem… e uma taça em Copa do Mundo, ora, é o esporte, e através dele, quem sabe, asiáticos, europeus, africanos, americanos do norte, centro e sul, esta nossa gente, possa se juntar com seus milhares de amores, na verdadeira alegria que é viver e respeitar o direito dos povos de viverem, em paz e com menor sede de exploração…

Salve a África, Lennon, será que você estava também pensando naquele continente quando criou a canção? Ou terá como eu, assistido um dia, Out of África, e juntando tudo, nos legou o hino que deveria abrir e fechar todos os jogos nas Copas do Mundo, nas Olimpíadas, “can you imagine”?

Aparecida Torneros é escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

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Comentários

Cida Torneros on 30 julho, 2014 at 12:00 #

Há quatro anos.. E o mundo precisa tanto de Imagine…


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