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Postado em 18-06-2010
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 18-06-2010 10:47

Marina: resistência à dicotomia

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O jornalista político Ivan de Carvalho em seu artigo desta sexta-feira, na Tribuna da Bahia, analisa a estratégia eleitoral governista de transformar a eleição presidencial deste ano em plebiscito, que corre o risco de desmoronar apesar da cabeça cortada do deputado socialista Ciro Gomes. Mas a verde Marina Silva resiste, para preocupação cada vez maior da coligação governista. Essa dicotomia eleitoral desejada pelo governo seria prejudicada com quaisquer outras candidaturas expressivas que surgissem, assinala Ivan no artigo, que Bahia em Pauta reproduz.
(VHS
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OPINIÃO POLÍTICA

Estratégia e prática

Ivan de Carvalho

No âmbito federal, o planejamento estratégico da candidatura Dilma Rousseff, feito pelo presidente Lula e o comando do PT, era a de conseguir um cenário de eleição plebiscitária, com duas candidaturas expressivas apenas: a governista, representada pela petista Dilma Rousseff, e a oposicionista, do tucano paulista José Serra (já que este não queria abrir mão para o tucano mineiro Aécio Neves).

Essa dicotomia eleitoral desejada pelo governo seria prejudicada com quaisquer outras candidaturas expressivas que surgissem. Claro que aqui não estou falando do PSOL com Plínio de Arruda Sampaio (um nome reipeitável, mas sem respaldo). PSTU e assemelhados contam ainda menos.

Mas a dicotomia estava sendo quebrada por Ciro Gomes, do PSB e o presidente Lula moveu-se para sufocar tal ameaça à sua estratégia, mesmo que junto sufocasse também o amigo fiel. E o fez de uma maneira cruel, evitando bater de frente, atacando como uma serpente, pelos calcanhares – Lula convenceu o partido de Ciro a não lançar Ciro e a apoiar Dilma.

Para conseguir isto, fez o PT apoiar a reeleição do socialista Eduardo Campos, presidente do PSB, a governador de Pernambuco. Campos, todo feliz, retribuiu o favor cortando a cabeça, perdão, a candidatura de Ciro. O presidente Lula foi tão sofisticado na degola indireta que acabou conseguindo, numa troca de apoio, atrair até o irmão de Ciro, Cid Gomes, governador do Ceará. Ainda não se sabe o que Ciro está achando disto, mas o senador tucano pelo Ceará, Tasso Jereissati, já rompeu sua aliança com Cid Gomes, mesmo sabendo que isso torna difícil sua reeleição para o Senado.

O que não estava previsto na estratégia de Lula, no início, era a candidatura da ex-ministra petista Marina Silva a presidente, quanto já ex-ministra e pelo PV. E a esta altura, Marina é o único fator capaz de quebrar a dicotomia da campanha e da eleição de 3 de outubro, pois a de 31 de outubro (segundo turno, se houver) será necessariamente dicotômica. Mas diferente.

Marina também é a principal razão para que se espere uma eleição em dois turnos, o que será – independente de quem tenha mais votos no primeiro e vença no segundo – melhor para o país e sua educação democrática, bem como para seu futuro político imediato, do que uma decisão final em 3 de outubro, dispensado o segundo turno.

Bem, e na Bahia? Aqui, o segundo turno é muito mais provável que uma decisão final em 3 de outubro. Há, por enquanto, como ocorre na área federal, três candidaturas com expressão política. As de Jaques Wagner, Paulo Souto e Geddel Vieira Lima, no momento em terceiro lugar nas pesquisas. Há quase que um consenso nos meios políticos baianos de que Geddel deverá crescer mais (para governador) do que Marina Silva (para presidente). Ele ficará muito mais perto do eleitorado baiano do que Marina do eleitorado brasileiro. Tem tempo equivalente (não igual) ao de Wagner e Souto na propaganda eleitoral gratuita no rádio e televisão e uma estrutura político-partidária importante.

Isto já induz ao raciocínio de que haverá segundo turno na Bahia. E há ainda algo a acrescentar – o candidato do PV a governador, deputado Luiz Bassuma, numa chapa que inclui o deputado Edson Duarte como candidato a senador. Eles darão palanque a Marina na Bahia. E, com a campanha, apesar do pouco tempo de que dispõe para propaganda eleitoral no rádio e TV, Bassuma pode chegar aí a uns sete, oito por cento. Isto seria garantia absoluta de segundo turno.

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Comentários

Marco Lino on 18 junho, 2010 at 11:40 #

Bom, se Bassuma chegar aos 8%, então Geddel chegará aos 80%… Lula não esperava o crescimento da ex-pupila Marina, assim como os apoiadores de Serra não esperavam que o crescimento dessa se desse, majoritariamente, sobre seu quinhão sacramentado – classe-média conservadora.
Esperemos outubro.


danilo on 18 junho, 2010 at 16:27 #

classe média conservadora, “quinhão sacramentado” de Serra???

na-na-ni-na-não, meu caro. e o q dizer da nova classe média proveniente do Lullismo, a qual é tão ou mais conservadora q esta [mais antiga] q apóia José Serra?

essa nova classe média lullista é conservadora e reacionária até o talo e com deslumbramento pequeno-burguês semelhante àquela da época de Médici e Geisel, e q acreditavam no tal do Milagre Econômico. apoiavam o regime militar, arranjavam emprego nas metalúrgicas acopladas à indústria automobilística, no Centro Industrial de Aratu, nas construtoras aliadas ao BNH.

o tempo voa e a caderneta do Baneb continua numa boa. Prá frente Brasil, ame-o ou deixe-o, este é um país que vai prá frente e ninguém segura a juventude do Brasil de Lulla-lá-lá


ivan de carvalho on 18 junho, 2010 at 17:27 #

Bem no alvo, Danilo.


Marco Lino on 18 junho, 2010 at 19:37 #

Olha Danilo, os dois estratos estão divididos. Referi-me à parcela mais conservadora da classe média tradicional, mais intelectualizada, antitrabalhista por convicção (ou simplesmente por não dá a mínima para a coisa) e que vota majoritariamente no Serra. Marina, com seu charme, avança nesse eleitorado – e a inteligentsia serrista não sacou de cara.
Agora, meu caro, nada contra desenvolvimento econômico. Aliás, sempre bati nas elites baianas exatamente por não darem a mínima para isso, o desenvolvimento do Estado. Observe que Luis Vianna, Rômulo Almeida e Ângelo Calmon empreenderam sozinhos uma luta encarniçada contra as elites de São Paulo pelo Polo Industrial de Camaçari. Que fizeram os “ilustres” baianos?! Procure nos jornais da época… Aliás, hoje, MK diz que o Polo foi obra de ACM…
O que houve depois? Ah, a Ford… Pois é, a Bahia continua miserável e a nossa classe média “culta” clama por um coronel que dê jeito na segurança pública. Querem uma ilha de paz num mar de miséria… terão!
Abs


Marco Lino on 18 junho, 2010 at 20:15 #

Por não “dar” a mínima, é claro!


danilo on 18 junho, 2010 at 21:28 #

sabe. Marco Lino, o q incomoda mesmo é o seu “bom senso” a favor da sua ideologia, a ideologia dos cumpanhêro. vc acerta nos argumentos, porém a ideologia o empurra no sentido do equívoco.

vejamos:

1. essa mesma classe média intelectualizada à qual vc se refere é a mesma classe média q mantinha [e ainda mantém] uma posição crítica em relação aos políticos brasileiros, pois sabem q eles são todos uns félas de uma puxa mallandros. é a mesma classe q apoiava Lulla em priscas eras qdo elle era oposição e por elle ser contra tudo aquilo q hoje elle defende. portanto, esta classe média crítica é a Geni do lullo-petismo.

2. nada contra o desenvolvimento, é claro. porém vc, propositalmente, esconde em suas palavras a importância de Malvadeza no processo desenvolvimentista baiano. [obs: NUNCA votei em ACM, frise-se]. mas deixe de guéri guéri porque vc sabe da inegável importância de Malvadeza para o avanço econômico-financeiro da Bahia.

3. quanto à Ford é engraçado, pra não dizer patética a posição da esquerda baiana quanto ao processo de instalação da Ford em nosso estado, em Camaçari. o PT foi veemente contra a vinda da Ford. fez campanha aberta contra a Ford. e hoje parece até q a Ford virou uma estatal petista. o PT se apropriou da Ford, assim como as realizações de FHC foram surrupiadas pelo PT para se tornarem realizações únicas e exclusivas de Lulla. é muita cara de pau, não acha?


Marco Lino on 18 junho, 2010 at 22:21 #

Caro Danilo,
Referi-me a industrialização… depois do Polo e CIA, quis dizer, só houve a Ford. Não escondi nada do ACM, mas, desde Vargas e sua tentativa de industrializar o Brasil, as elites baianas (inclusive nosso herói, líder maior, paixão da Bahia, etc, etc, etc.) deram uma banana para o desenvolvimento industrial do nosso estado (falo da industrialização pois esse era o modelo do Sul/Sudeste e da Europa tb). O que nosso prefeito do século fez foi, desde seu primeiro mandato, preparar Salvador para o turismo. Muito pouco, pois a cidade continuou muito pobre. Tem até uma pontinha “bonitinha de se ver”, que a turistada adora; mas o resto…
Lula perdeu, sim, uma parcela da classe média, mas não dessa que me referi. Essa, repito, é uma parcela conservadora que se diz “liberal” (?) e que naturalmente não vota em Lula (talvez até tenha motivos para votar nele agora…). Daí ser o “quinhão” serrista em que Marina avança – mas no segundo turno volta para ele.
Quanto à Ford, vc deve saber que o PT era governo no RS e estava jogando politicamente com a Ford por mais (ou por algum) impostos. ACM, esperto (e não sem a ajuda de FHC), ofereceu a lua de mel antes do casamento… o cara foi, é claro! Mas quem arrumou a cama para o cara deitar foi ele, sem dúvida!
Minha ideologia, meu caro, é desenvolvimento econômico e social para incluir tanta gente que está fora da festa, da cidadania. Daí eu achar que Marina deve explicar à nação que tipo de desenvolvimento econômico ela defende sem hidrelétrica, porto, aeroporto, estradas, ferrovias, etc. Este discurso cabe muito bem a um país industrializado; mas para quem precisa crescer dois dígitos para incluir tanta gente…. só se aumentar o Bolsa-Família (o País não cresce, não tem emprego novo, mas há a bolsa…)
Observe que vc defende um “avanço econômico-financeiro da Bahia” sob a égide de ACM, mas, quando este morre, a Bahia está com índices sociais semelhantes aos de Alagoas, Piauí e Maranhão – talvez por isso vc não tenha usado o “avanço social”, não?
Abs


danilo on 18 junho, 2010 at 23:49 #

pô, taí, nada como um debate franco e em alto nível para aproximar impressões e opiniões aparentemente contrárias. concordo com vc, meu caro. Marina representa, sim, um atraso naquilo q diz respeito a avanços q se tornam urgentes e necessários q o Brasil de hoje alcance um novo patamar econômico.

ainda estamos carentes daquilo q o saudoso Mario Covas pregava: um VERDADEIRO choque de capitalismo q seja capaz de transformar a sociedade brasileira. e não este carcomido capitalismo de estado e patrimonialista q se arrasta por séculos entre nós.

infelizmente, apesar da aparente plataforma modernex ambientalista, Marina carrega consigo uma conservadora inclinação religiosa que a faz se posicionar contra temas q já deveriam estar superados no atual estágio da civilização humana.

mas votar em Dilma, nem pensar. além do autoritarismo latente no gene petista e que cresce a olhos vistos – intolerância com o contraditório, alianças com déspotas e regimes ditatoriais – não é justo q queiramos q o Brasil se torne num México do período do PRI.

o PRI – Partido Revolucionário Institucional q dominou aquele país por quase um século instalando no México aquilo q os analistas denominam de “ditadura democrática perfeita” com eleições livres, porém vencidas sabe-se lá como e onde tudo era decidido na base do “dedaço” pelas lideranças q em muito se assemelham aos capas pretas petistas, a exemplo de Zé Mensalão Dirceu, Gushiken, Berzoini etc etc.

Serra também tem seus problemas. assim como Lulla e Dilma fizeram, ele está fazendo alianças com figuras nefastas. isso sempre fez parte da política brasileira, mas daí a vcs lullo-petistas afirmarem q Serra é um troglodita da direita é uma baita de uma mentira.

vc, meu caro Marco Lino, sabe q a trajetória de Serra é digna. foi presidente da UNE, se posicionou contra o regime militar, exilado, um brilhante parlamentar e senador. excelente Ministro da Saúde q trouxe diversos benefícios para a área peitando poderosos lobbies internacionais e quebrando patentes de medicamentos.

é um bom administrador, governa com habilidade o estado mais poderoso do país – certamente vc há de dizer q SP está quebrado e tal e tal, mas se SP com aquele pujência está assim, imagine como estará o Piauí governado pelo petista Wellington Dias?

negar as qualidades de Serra é mesquinhez política. coisa rasteira q tenho absoluta certeza q tanto eu quanto vc desejam q estas práticas já estivessem banidas do nosso país. mas infelizmente o PT [re]estabeleceu essa animosidade. Jogando pedras nos outros, acusando opositores de serem reacionários e ao mesmo tempo os lullo-petistas se alinham com figuras como Sarney, Collor, Renan etc etc. igual a todos os outros q vieram antes.

enfim, cada um vota em quem quer, mas votar em Dilma é o fim da picada


Marco Lino on 19 junho, 2010 at 1:38 #

Não condeno Serra pelas alianças, pois sei que ele quer ser eleito e depois governar.
Mas esse “mercadismo” que o PSDB abraçou cegamente não me parece ser suficiente para alavancar o país e transformar sua sociedade. Os tucanos parecem conceber o Brasil a partir de São Paulo, e São Paulo é muitíssimo diferente do Brasil. Esperar que a iniciativa privada desenvolva o Nordeste e Norte brasileiro… é condenar milhões de brasileiros ao eterno subdesenvolvimento.
A agenda varguista – que vc critica tanto e que FHC disse ter sepultado – ainda se mostra (por mais incrível que pareça) atual para o Brasil de hoje e foi ela – a meu ver, é claro – quem fez o país passar com desenvoltura pela última crise. Se ficasse dependendo dos financiamentos privados naquele momento, o Brasil teria quebrado novamente, pois o mercado “tirou o corpo fora” na hora h e ficaram os bancos públicos, a Petrobrás, as obras públicas e as desonerações do governo bancando o período. Tamanho do estado: essa é, a meu modestíssimo ver, a principal diferença hoje entre PSDB e PT.
Entre Vargas e Lacerda, fico com Vargas.
Saudações


danilo on 19 junho, 2010 at 14:59 #

das duas uma: ou o Brasil vira São Paulo, ou o Brasil faz a opção de ser um Maranhão. a escolha é livre.


Marco Lino on 19 junho, 2010 at 16:43 #

Não seja tão radical, meu caro.


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