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Lula na convenção do PT: “eu sou Dilma”

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ARTIGO/ELEIÇÕES

FICÇÃO E REALIDADE EM DILMA

Rosane Santana

No país mais patriarcal da América Latina – herança da Casa Grande e Senzala -, a candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff, tenta conquistar o voto do eleitorado feminino – maioria dos votantes -, onde o adversário dela José Serra é mais forte. Tarefa, diria, quase impossível, porque comportamentos culturais, de origem até medieval, não são mudados da noite para o dia, muito menos às vésperas de uma eleição, por mais eficiente que seja o marketing eleitoral.

Em tese, o discurso encarnado por Lula na convenção nacional do PT, “Dilma sou eu”, no que pese o sentido de continuidade que deseja imprimir, pode fazer a candidata perder votos. Com o mercado de trabalho mais competitivo por causa da maior participação da mulher, não raras vezes com grau de escolaridade superior ao do homem, esse tipo de discurso gera certo desconforto no eleitorado feminino.

Frases como atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, que é mais ou menos o que Lula está dizendo sobre Dilma Rousseff e reforçará a medida que a eleição se aproxime, podendo também fragilizar a sua candidata, não são bem aceitas, num momento que ainda é de busca e de afirmação da identidade feminina.

Isso reforça o preconceito e o machismo, numa realidade onde as mulheres ainda são fortemente discriminadas no mercado de trabalho, com salários inferiores àqueles pagos aos homens na mesma função e onde a violência contra a mulher não mereceu até agora uma ação mais vigorosa e à altura dos crimes bárbaros que se sucedem dia após dia. Neste particular, a sociedade brasileira mais se assemelha ao mundo muçulmano.

Fica mesmo a idéia de oportunismo, na falta de outra alternativa, colocar uma mulher candidata a presidência da República, sem qualquer experiência eleitoral anterior, num universo de presença marcadamente masculina, como é o cenário político do Brasil. Masculino e conservador, basta ver nos partidos aliados ao PT, que dão sustentação a Dilma, os tipos de figuras masculinas que se destacam.

Nada há de vanguarda em Dilma, tampouco em sua candidatura, pois ela está passando a idéia de uma mulher controlada ora por Lula, ora pelos marqueteiros e coordenadores da campanha. Por isso, é uma fraude compará-la a nomes como Pagu, Chiquinga Gonzaga e Mãe Aninha – mulheres muito além do seu tempo. Como é também uma fraude colocar no mesmo saco Luíza Mahin, Maria Quitéria, Anita Garibaldi, Chiquinha Gonzaga, Patrícia Galvão (Pagu) e Mãe Aninha.

Maria Quitéria, por exemplo, nada tem de vanguarda. Depois da independência da Bahia voltou à vida familiar, casou-se etc., como provam novos trabalhos historiográficos.

Aliás, este mesmo recurso – a associação de Dilma com figuras históricas de destaque – foi usado no programa do PT veiculado em 13 de maio, em rede national de televisão, quando a vida da candidata foi comparada a de Mandela. São construções fictícias, delírios de marqueteiros que, por ora, podem até surtir efeito, mas não se sustentam em um debate de televisão, por exemplo, quando a Dilma de carne e osso for colocada diante do experiente José Serra – um intelectual na política – e da simplicidade desconcertante de Marina Silva, verdadeiramente a força da mulher brasileira, heroína de fato.

Encontro recente com industriais, em São Paulo, revelou quão frágil é a candidata de Lula e suas explicações sobre o cenário econômico, mesmo sendo ela formada em economia; Serra deu aula e Marina encantou.

Decididamente a eleição no Brasil, a exemplo do que observou o historiador John Lukacs, nos Estados Unidos da segunda metade do século XX, transformou-se em um concurso de publicidade, onde a democracia foi relegada a um plano inferior. E não surpreendem as decepções posteriores do eleitorado com alguns candidatos eleitos, quando há um fosso entre aquilo que realmente eles são e o que o marketing construiu.

A candidatura de Dilma tem mais de ficção do que de realidade eleitoral. Nasceu em laboratório. Resta saber se será vitoriosa. Tenho dúvida. Acho difícil, num cenário em que ficará cada vez mais evidente a sua dependência de Lula e, portanto, a sua fragilidade.Mas, em tempos de pós-modernidade política, não é impossível.

Rosane Sanatana é jornalista

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Comentários

lilian on 13 junho, 2010 at 22:12 #

Esses discursos de hoje (Lula e Dilma) foram incoerentes com a nossa luta feminina, falsificados nem um marketing que apenas engana…


lilian on 13 junho, 2010 at 22:13 #

Quis dizer:”falsificados em um marketing que apenas engana”. Parabéns pelo artigo Rosane!


Jader Martins on 13 junho, 2010 at 22:23 #

Sobre o experiente(?) Serra , saliento que :

No lançamento do Serra na Bahia – – houve ausências notáveis no palanque.

O Farol de Alexandria, que, em janeiro, o demoveu da intenção de não ser candidato.

O FHC preferiu ir para a Europa a se meter na Bahia.

Faltou também um negro.

Um único negro.

Em Salvador, onde a maioria da população é negra, não havia um único negro no palanque.

Mas, lá estiveram José Carlos Aleluia e Paulo Souto, neocarlistas.

O que Serra disse ou não disse não tem a menor consequência eleitoral.

Ele há muito tempo caiu para dentro.

Foi tragado pela própria irrelevância.

As únicas declarações relevantes são as que se referem a ações de política externa, campo em que, invariavelmente, se alinha com a política de seu mentor e pai espiritual, Fernando Henrique: com os Estados Unidos, para o que der e vier.


danilo on 13 junho, 2010 at 23:37 #

vc tem razão, Jader. na convenção tucana eu senti a ausência de Otto Alencar. vc pode dizer aonde estava este luminar carlista???


Marco Lino on 14 junho, 2010 at 7:44 #

Já a Marina foi além: mulher, negra e pobre…


Oriana Lopes on 14 junho, 2010 at 10:27 #

Deu em O Globo desta segunda:

“Na festa petista, cujo lema foi “a continuidade da mudança”, Dilma acabou ofuscada pela desenvoltura do presidente no palanque e, em seu discurso, citou o nome de Lula mais de vinte vezes. Militantes do movimento de mulheres vaiaram o trecho de um dos jingles do PT, que chama Dilma de “coroa”, e também exigiram que a candidata fosse chamada de presidenta.”


Oriana Lopes on 14 junho, 2010 at 10:41 #

Josias de Souza, hoje em seu blog:

“Lula faz de Dilma sua genérica: ‘Eu mudei de nome’”.

Veremos o efeito desse marketing no Sudeste. Aposto que será devastador para a candidata.


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