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Postado em 29-05-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 29-05-2010 00:11

Delegado Cleyton: crime e política

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ARTIGO DA SEMANA

TIROS E VUVUZELAS

Vitor Hugo Soares

Foi uma semana como o diabo gosta na Bahia, embora nada indicasse que terminaria assim. Os indícios eram de que uma trégua se anunciava no horizonte das complicadas manobras sucessórias na política local, depois das recentes e agitadas passagens dos pré-candidatos José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva por Salvador. Todos eles de olhos e garras voltados para a conquista do mais alentado naco possível do quarto maior colégio eleitoral do País, no espaço nordestino que os estrategistas consideram crucial para quem deseja o lugar do presidente Lula nas eleições que se aproximam.

Animado e festeiro como reza a fama, o baiano na verdade parecia deslocar seu foco de interesse para a África do Sul, distante do campo de conflitos do governador petista Jaques Wagner com o ex-ministro peemedebista Geddel Vieira Lima, enquanto o carlista ex-governador Paulo Souto, do DEM, aproveita a brecha para ir ganhando terreno nas pesquisas do jogo pelo Palácio de Ondina.

Salvo pequenas escaramuças e querelas localizadas, a “gente dos interiores”, principalmente os moradores da capital e Região Metropolitana – adeptos de um barulho como ninguém – pareciam interessados mesmo, por enquanto, em aprender a lidar com a Vuvuzela.

Os soteropolitanos pegaram gosto pela diabólica invenção em forma de instrumento de sopro das arquibancadas sulafricanas. Mas, assim como o aparentemente descomplicado toque do berimbau na terra de João Gilberto e Carlinhos Brown, a vuvuzela também não é tão simples e óbvia de soprar e fazer zoada como aparenta. Ou tocar como se deve e fazem os torcedores da terra de Mandela nas ruas e nos estádios.

Requer técnica, pulmão forte e bastante esforço. No entorno da Baia de Todos os Santos alguns até já conseguiram dar um jeitinho para tornar as coisas mais fáceis, sem perder a festa: “é a chamada vuvuzela baiana , com fole em uma das extremidades para não precisar botar os bofes para fora na hora da barulheira”, explica ao articulista um surpreendido amigo, ao verificar a febre da vuvuzela que começa a grassar na cidade da Bahia.

Enquanto isso, em Brasília, os escolhidos de Dunga e a ladina turma da CBF recebiam, na quarta-feira, as bençãos do poder, antes do embarque para campos africanos. No meio do foguetório no Planalto Central, e acima do zumbido das vuvuzelas, escuta-se o som de disparos de verdade e os gritos de socorro e de desespero de uma jovem esposa diante do marido assassinado fria e inapelavelmente.

O morto é o delegado Cleyton Leão: 35 anos, dois filhos pequenos (um ainda de colo), chefe de polícia em Camaçari, considerado modelar. Assassinado com tiros na cabeça quando dava entrevista, por telefone celular, a uma emissora de rádio local, sobre combate ao crime organizado, dentro do carro parado na margem da estrada da Cascalheira – área metropolitana onde a violência e a miséria se alimentam e vicejam em glebas de pobreza ao lado de um dos mais prósperos e produtivos polos petroquímicos do País e de uma das mais modernas montadoras de automóveis da América Latina

Logo a tragédia baiana dividiria os espaços dos principais noticiários locais e nacionais, da quarta-feira, com a festiva despedida dos canarinhos em Brasília. É tempo de Copa do Mundo e de campanhas eleitorais e as emoções se misturam . Oportunismo e demagogia política e administrativa também, no governo e na oposição. A grave questão da violência é politizada de parte a parte. Volta ao topo do cardápio de promessas dos pré-candidatos presidenciais e estaduais. Segue-se a ladainha de sempre dos “a favor” e “dos contras”.

“Depois do crime, o tiroteio”, diz o Correio da Bahia em título primoroso e emblemático de uma de suas manchetes, no noticiário político desta sexta-feira, sobre o crime da Cascalheira. Em menos de 24 horas a força tarefa policial mobilizada pelo Governo do Estado prendeu, em vistosa mega-operação, três acusados pelo “latrocínio seguido de morte do delegado”, apresentados em feérica entrevista coletiva. Um quarto suspeito foi morto e o caso dado por “encerrado” em seguida ao sepultamento de Cleyton, no Campo Santo.

Mas não acaba aí, pois segue sem trégua o conflito político. Os pré-canditatos ao governo, Geddel e Paulo Souto, juntaram-se nos ataques cerrados à política de segurança do governo de Jaques Wagner, que acusam de inerte, leniente e vacilante diante do crescimento da violência no estado. Os petista do governo estadual e seus novos aliados reagem e jogam a culpa na “herança maldita” deixada por sucessivos governos carlistas, comandados pelo finado Antonio Carlos Magalhães.

Como se vê, vai ser preciso soprar forte as vuvuzelas para abafar o barulho da campanha na Bahia antes do primeiro chute na Copa do Mundo..

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Marco Lino on 29 Maio, 2010 at 9:18 #

Artigo equilibrado. Parabéns!


Carmem on 29 Maio, 2010 at 10:03 #

Irretocável artigo, Vitor Hugo. Como seria bom se nossa imprensa brasileira tivesse mais exemplos a serem destacados. Parabéns, equilíbrio e seriedade são artigos fora da pauta.


Regina on 29 Maio, 2010 at 11:46 #

Excelente artigo, Hugo. O brigada por sua consistencia em abordar “os sabores e desabores ” do dia a dia de uma maneira impar e impecavel.


Mariana Soares on 29 Maio, 2010 at 15:35 #

Muito bom, meu irmão! Colocar poesia e sentimento na medida certa, juntando os assuntos que são notícia, muitos deles, às vezes, cruéis, é tarefa para mestres. Lembro, agora, Chico Buarque, que, em uma das suas belas letras, diz: “…a dor da gente não sai no jornal…”. Você tem mostrado nos seus textos, como poucos, que isto nem sempre é verdade. Parabéns!


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