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Postado em 22-05-2010
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 22-05-2010 10:01

Damário: última poesia

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O editor do Bahia em Pauta recebeu a seguinte mensagem via e-mail do jornalista, escritor, amigo e colaborador deste site blog:

Caro Vítor. Acabamos de chegar de Cachoeira, onde fomos nos despedir de Damário. Segue um texto que acabei de escrever e a reprodução de um dos últimos poemas escritos por Damário, inclusive com a correção que fez e a assinatura. Um forte abraço. Diogo

Sejam as Diogo também as palavras do BP na partida do grande poeta baiano.

(Vitor Hugo Soares)

CRÕNICA/SENTIMENTOS

A DESPEDIDA DO POETA

Diogo Tavares

O poeta Damário Dacruz ainda não tinha partido oficialmente deste nosso convívio, mas o espírito dele já passeava pelas ruas de Cachoeira. Os sensíveis, os puros de coração, os iniciados nas coisas do espírito talvez tenham testemunhado isso. O povo tratou de espalhar. Os médicos, estes seres quase sempre pragmáticos, atestaram a morte aos dez minutos desta sexta-feira. Pobres dos homens que compreendem a fisiologia humana e ignoram os mistérios da alma e da poesia.

Corpo, como humano, é como o grande orador Raimundo Cerqueira gosta de descrever a cidade de Cachoeira. Dos pés, a saída para as estradas do mundo, passando pelo estômago, na feira, e pelo coração, na Igreja da Nossa Senhora da Ajuda, até a cabeça, no outro extremo, tomada pelos terreiros de Candomblé e pelas verdades nas tranças que traçam os destinos dos homens. Explicar esta peculiaridade da anatomia de Cachoeira é fundamental para compreender porque tinha que ser nessa cidade do Recôncavo, paixão do poeta de Oxóssi, devoto de Cosme e Damião, que a notícia se deu.

Ninguém contou ter visto o poeta, sob forma etérea, tomando café na Panificadora Estrela, caminhando entre as barracas da feira, comprando angélicas e comendo bolinho de maniçoba e mariscos em das Virgens, esperando um filé na pracinha em frente aos Correios, recebendo um grupo em excursão no quarto da filha Damine, transformado numa representação cênica no porão de um navio tumbeiro, ou meditando, rabiscando um poema em sua escrivaninha no andar térreo do Pouso da Palavra. Ninguém disse ter visto estas coisas horas antes o óbito atestado, mas o boato de que o poeta havia partido do próprio corpo alquebrado pelo câncer de pulmão correu toda a cidade ainda na quinta-feira.

Mistérios dos homens e desta cidade que atraiu o jovem poeta há muitos anos. Nós, pobres homens presos à chamada realidade, levamos muito mais tempo para imaginar Damário pleno em Cachoeira. Nos despedimos dele pela manhã no Jardim da Saudade, em Salvador, para nos consolarmos pela tarde velando seu corpo na Câmara de Vereadores naquela cidade do Recôncavo da Bahia. Então, não haveria carro que coubesse para saciar a imensa saudade. Tomadas as alças por parentes, amigos e admiradores, o caixão do poeta foi levado pelas ruas de Cachoeira.

Da Câmara, o Pouso da Palavra, sonho erguido de um sobrado em ruínas, a esquina da Ladeira da Ajuda, a feira, cada calçada e cada rua estreita da cidade histórica tantas vezes percorridas pelo poeta, segue a passeata silenciosa, cada vez com mais gente, até o cemitério. Homens céticos, precisamos de muitos passos para nos convencer que, sim, o poeta estava vivo naquelas ruas, nos instigando com sua perplexidade compartilhada e o mistério infinito das palavras grávidas.

Diogo Tavares é escritor e jornalista http://pautapariu.zip.net/

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Comentários

Olivia on 22 Maio, 2010 at 11:17 #

Meu último encontro com Damário foi no ‘Senadinho’ do Shopping Barra, conversamos um pouco, ele me disse que estava triste, apesar de cumprir as recomendações médicas suas taxas… deixa pra lá. Passei o dia de ontem lembrando seus belos poemas, especialmente TODO RISCO, ‘a possibilidade de arriscar é que nos faz gente/crescer…’ Valeu, Damário. O firmamento, com certeza, ganhou mais uma estrela. Diogo, solidário e sensibilidade à flor da pele, sempre. Belas palavras, amigo, falou por todos nós.


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