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Postado em 09-05-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 09-05-2010 20:50


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De São Paulo vem o e-mail do jornalista Claudio Leal com o aviso ao editor do Bahia em Pauta: “Caetano estreou hoje como colunista de O Globo. Está muito boa a coluna. Você já leu?”
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Resposta: Li e também gostei. Tanto que o texto de Caetano Veloso em O Globo deste domingo vai reproduzido no BP. Com agradecimentos a Claudio e viva a Caetano.

(Vitor Hugo Soares )

Política: o Largo da Ordem

Caetano Veloso (O Globo, 8/05/2010 )

Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média.” Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem – e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime – e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média.” O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria – ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.

Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia.” Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia. Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.

Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores. Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas.” Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.

ACM é um nome que se evita – a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antônio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres. Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador. Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia. Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.

A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao centro histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova auto-imagem.

O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime. A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas. O secretário de Cultura, meu amigo Márcio Meirelles, é o responsável pelo destino da área. Diretor do Bando de Teatro Olodum, Márcio nos deu “Ó paí, ó!”. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo. Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.

Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo – e sobretudo veio vindo a Lapa. A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento – e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula. O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM — e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme. Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do centro histórico tem parte no aumento da criminalidade. Política para mim é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol – nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.

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Comentários

Carlos Volney on 10 Maio, 2010 at 19:14 #

Surpreende-me agradavelmente esse artigo de Caetano. De genialidade indiscutível, nosso poeta não vinha sendo muito feliz em suas delcarações/aparições anteriores, sob minha ótica. Mas é preciso, claro, conciso, corajoso e retrata com fidelidade a situação do nosso Pelô. É preciso deixar de nos situarmos ideologicamente como quem se situa perante a preferências futebolísticas. A Bahia é maior e terá de ser sempre. AXÉ (malgrado o desgaste do termo).


Pablo on 14 Maio, 2010 at 13:35 #

Fico surpreendido da mesma forma, mas com tanta bestialidade de Caetano … Ele mal frequenta Salvador, mal acompanha as mudanças que acontecem, não sabe do que está falando. Me assusta ainda mais os soteropolitanos que passam meses sem pisar no Pelorinho e ainda querem emitir uma opinião que mereça respeito. Todos ignorantes, que não pisam as pedras nem as observam.


Heitor on 15 Maio, 2010 at 18:56 #

O PT fez isto (abandono e péssima administração) também com a educação. O Projeto Educar para Vencer do governo César Borges e Paulo Souto que contavam com assessoria de profissionais de Minas Gerais por este estado ter os melhores índices educacionais do Brasil foi retaliado deixado para trás sem analisar o que ele tinha de bom e técnico. Todos os gestores formados nos programas de gestão foram demitidos e os diretores de escola passaram a ser indicados políticos do PT e dos seus aliados mesmo sem formação técnica. Depois fizeram uma eleição fajuta para eleger quem já estva de posse indicada na escola…
E Márcio Meirelles ainda diz que era ACM quem usava o chicote …
Não era só ele não! Tem muito simpatizante de Fidel que só enxerga o idealismo enão vê atruculência militar de uma ideologia fracassada. A extrema esquerda é tão violenta quanto a extrema direita e geralmente menos ética.
Que as mentes pensantes no Brasil estejam atentas para não vivermos o terror de uma ditadura de esquerda cuja possibilidade é demonstrada nas “amizades” do presidente Lula…


Roberto on 15 Maio, 2010 at 22:07 #

Até que enfim um comentário inteligente neste site! Parabéns, Heitor. Onde assino?
Tem uns merdas por aí fazendo verdadeiros malabarismos, deturpando até as palavras de Caetano, forçando a barra, só porque o cara emitiu a opinião dele. Uma coisa é discordar da opinião, outra coisa é desqualificar quem a emite para atingir o argumento.


ANA CLAUDIA FALCAO on 19 Maio, 2010 at 15:00 #

parabens Caetano, em fim alguem que teve a coragem de expressar o sentimento comum a todos os baianos dtentores de razão e consciencia. gostem ou não, admirem ou não, compctuem o não, partidario ou não, mas tennham a personalidae e a hombridade de admitir e respeitar o trabalho de revitalização da nossa Bahia pelo entao antecessores. Ser oposição não significa oposicionar a tudo a que se refere ao adversario, oposicionar sim ao que desiguala, injustiça, agride a sociedade e o bem comum. Os bons feitos devem sim ser continuados ou se preferir “melhorados” Isto sim é ser OPOSIÇÃO COMPROMEIDA. PARABENS CAETANO, minha admiração por este personagem, homem da cultura baiana CRESCEU.


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