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De São Paulo vem o e-mail do jornalista Claudio Leal com o aviso ao editor do Bahia em Pauta: “Caetano estreou hoje como colunista de O Globo. Está muito boa a coluna. Você já leu?”
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Resposta: Li e também gostei. Tanto que o texto de Caetano Veloso em O Globo deste domingo vai reproduzido no BP. Com agradecimentos a Claudio e viva a Caetano.

(Vitor Hugo Soares )

Política: o Largo da Ordem

Caetano Veloso (O Globo, 8/05/2010 )

Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média.” Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem – e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime – e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média.” O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria – ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.

Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia.” Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia. Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.

Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores. Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas.” Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.

ACM é um nome que se evita – a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antônio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres. Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador. Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia. Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.

A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao centro histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova auto-imagem.

O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime. A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas. O secretário de Cultura, meu amigo Márcio Meirelles, é o responsável pelo destino da área. Diretor do Bando de Teatro Olodum, Márcio nos deu “Ó paí, ó!”. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo. Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.

Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo – e sobretudo veio vindo a Lapa. A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento – e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula. O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM — e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme. Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do centro histórico tem parte no aumento da criminalidade. Política para mim é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol – nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.

maio
09
Posted on 09-05-2010
Filed Under (Newsletter) by vitor on 09-05-2010

Manchas na praia americana/Reuters-Público

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As autoridades locais anunciaram hoje que começaram a dar às praias de areia branca da ilha Dauphin, no Alabama, manchas de petróleo do tamanho de bolas de golfe.

A agência Reuters revela que foi colocada ao longo das praias uma longa barreira de materiais para tentar conter a poluição. As autoridades recolheram amostras para tentar perceber se se trata de petróleo libertado do poço petrolífero da plataforma Deepwater Horizon.

No Luisiana, a paróquia de Lafourche declarou hoje estado de emergência e vedou o acesso do público à praia de Fourchon. “Decidimos que a nossa melhor opção é usar as praias como barreira natural para proteger as nossas zonas úmidas do petróleo”, disse a responsável daquela paróquia, Charlotte Randolph, citada pelo jornal local “Times-Picayune”. “É muito mais fácil limpar o petróleo das praias do que nos manguezais”, acrescentou.

Hoje, vários caminhões com areia foram descarregados no porto de Fourchon para que esta seja colocada em grandes sacos . Depois, a Guarda Costeira vai lançá-los, de helicóptero, em cinco zonas ao longo da costa. Nos últimos anos, as tempestades tropicais e furacões ajudaram à erosão da zona litoral, deixando uma abertura direta para as zonas úmidas.

O Departamento de Pescas e Vida Selvagem do Luisiana informou hoje que vai alargar a zona onde a pesca está proibida, afetando a região a oeste do rio Mississípi, como medida de precaução, em resposta à maré negra.

As autoridades da Luisiana e ecologistas dizem-se preocupadas com o impacto dos produtos químicos que a British Petroleun (BP) está utilizando para dispersar a maré negra no Golfo do México.

Ontem, responsáveis dos serviços de saúde, qualidade do Ambiente e pescas do Luisiana pediram ao diretor-executivo da BP, Tony Hayward, informações sobre o uso dos químicos. O dispersante usado é o Corexist, fabricado pela NALCO Energy Servisses, empresa sediada no Texas. No seu site, a empresa explica que este produto contém um baixo nível de substâncias químicas nocivas, que apresentam riscos de irritação para os olhos e pele.

CHUVA DE QUÍMICOS

Associações ecologistas já alertam para esta chuva de químicos misteriosos sobre as águas do Golfo. Por exemplo, a National Wildlife Federation (NWF), a maior organização privada Americana de defesa da natureza, quer saber onde vão acabar aqueles químicos.

“Estes produtos são concebidos para reduzir o petróleo em pequenas partículas, sem o fazer desaparecer, mas tornando-o mais facilmente biodegradável”, explicou Bob Perciasepe, da Agência americana de Protecção do Ambiente (EPA).

(Com informações da Reuters e jornal Público)

maio
09

DEU NO TERRA ( ELEIÇÕES 2010)

Em entrevista ao fundador do El País, Juan Luis Cebrián, publicada neste domingo no jornal espanhol, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “prefere um Carnaval a uma guerra” e que enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) não tiver representação de países emergentes, como Índia e África do Sul, o órgão nunca irá proporcionar o governo global necessário.

No texto, Lula afirmou que o Brasil possui uma questão nuclear bem definida, e vai esgotar todas as possibilidades de um pacto com o Irã para que o país continue enriquecendo urânio, garantindo que seus fins são pacíficos. “Não quero a guerra, sou um homem de diálogo”, disse ele.

Na entrevista concedida em Brasília, o presidente da República disse ainda que um chefe de Estado não é uma pessoa, e sim uma “instituição”, que nem sempre tem vontade própria.

“Tenho que me relacionar bem com Piñera, no Chile, da mesma forma como fiz com Bachelet, sem a possibilidade de não gostar de um presidente porque ele é de direita”, afirmou ele. “No exercício do poder, sou um cidadão internacional, multi-ideológico”.

O entrevistador comparou Lula a Sancho Pança, personagem do clássico Dom Quixote, citando uma passagem do livro em que o fiel amigo do protagonista diz que, de qualquer maneira que o vestirem ao assumir o governo, continuará a ser ele mesmo. “Lula é Lula, seja qual for sua roupa, de macacão de metalúrgico ou de terno”, afirmou Cebrián.

maio
09


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‘Las manos de mi madre” (As mãos de minha mãe), com a saudosa argentina Mercedes Sosa, a música do dia no Bahia em Pauta (sugira a sua) , vai paras todas as mulheres-mães neste domingo especial.

Mulher-mãe, como assinala Cida Torneros na bela crônica publicada hoje no BP, “é toda mulher, mesmo sem ter tido filhos, tem sempre crianças que cruzam seu caminho e pedem colo. Um bebê pode ser até um homem de 40 anos, quando ele deita e pede chamego, freudianamente querendo colo de mãe,  já crescido e criado, precisando crescer depois de crescido”…

Uma canção para Jandiras, Celinas, Alices, Marcias, Reginas, Bigas, Marianas, Graças, Patrícias, Carminhas , Grazzis, Cidas, Danis, Olívias, Margaridas, Mercedes…

(Postado por Vitor Hugo Soares )

maio
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Posted on 09-05-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 09-05-2010


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CRÔNICA/MÃES

Mulheres-mães

Aparecida Torneros

Dia de mulheres-mães. Será que todas, mães biológicas ou não, já nascem com o gen especial da tal maternidade?

Sempre achei que tem mãe de verdade, de brincadeira, de mentira, de coração, de hora do recreio, de cama de hospital, de carteira da escola, de fila do cinema, de beira de estrada, de cama vazia, de peito aberto, de peito farto, de peito seco, de sonho incompleto, de sonho desfeito, de sonho realizado, de sorte na vida, de perda e superação, de saudade e história, tem até mãe de guerra sem paz e de praça de maio, ou melhor, tem avó, tem mãe duas, três vezes, se precisar, tem mãe multiplicada, multifacetada, aquela capaz de aparecer na imaginação do menino abandonado na rua, ou na mente da criança que vive no abrigo mas que nunca esqueceu do seu cheiro antigo.

Mãe tem enredo e tem memória, no coração de qualquer um, e tem muita mãe na porta do presídio para levar comidinha gostosa na visita de domingo. Não importa o erro de um filho ou filha, o que fica é o instinto de proteção, esse vale uma vida inteira, e mãe de sangue ou de criação, de barriga ou de afinidade, carrega a bravura de defender a cria, tem mãe que morre se pondo na frente da bala dirigida ao rebento. Algumas se lançam no mundo pra ganhar dinheiro, sustentar, dar o pão e a casa, prover a família, nem sobra tempo pra elas mesmas. Mas tem as que nem conseguem viver o sacrifício e doam seus bebês, com a certeza de que serão melhor cuidados por outras mães e pais. Essas, naturalmente sofrem a vida toda, nos instantes de auto-resignação e se consolam com a lembrança de algum pequeno instante em que suas crianças estiveram nos seus braços ou sugando seus seios.

Vida bandida, vida perdida, vida dura e traiçoeira, quando afasta mães e filhos, por necessidade, por maldade, por guerra, por viagem, por doença, por morte, por tanto senão, e tanta razão que nem tem porquê.

Mulher-mãe é toda mulher, mesmo sem ter tido filhos, tem sempre crianças que cruzam seu caminho e pedem colo. Um bebê pode ser até um homem de 40 anos, quando ele deita e pede chamego, freudianamente querendo colo de mãe, já crescido e criado, precisando crescer depois de crescido…

Histórias de mães são todas sentimentais, quase sempre. Mas tem as de finais felizes e bons resultados de criação dedicada, assim como há os relatos de superação pra tantas asperezas do mundo cruel, e lá se vê a figurinha de alguma delas, as tais mães postiças ou reais, as que tem palavras doces nas horinhas certas, e que emitem conselhos ásperos nas vezes necessárias. Elas esbanjam carinho e força, e escondem fraqueza e medo, dentro da geladeira, no fundo das suas cozinhas, ou na beira dos tanques, ou debaixo dos chuveiros, lá estão as taizinhas, se permitindo chorar, nunca na frente dos filhotes que precisam amadurecer, apesar de tudo.

Mães são mulheres especiais, aliás, as mulheres é que se fazem mães em ocasiões especiais. Mães que são médicas e adotam pacientes em leitos de hospitais, num pacto sigiloso. Mães que são garotas de programa e embalam marmanjos chorões em segredos que ficarão guardados pro resto da vida. Mães que são professoras confessoras que ouvem os conflitos de alunos sem rumo. Mães que são policiais encarregadas de corrigir detentas, mães que são psicólogas, jornalistas, costureiras, manicures, cabeleireiras, taxistas, e no seu ofício diário, têm sempre uma palavra amiga, um ouvido atento, um jeito maternal de acolher súplicas e lamúrias ou dividir alegrias e contentamentos.

Mulheres se confundem enquanto mães ou criaturas predestinadas a abraçar carinhosamente qualquer um de nós. Seus olhares são tão especiais e suas presenças tão ansiadas. Mãe é mãe, claro, ela sobrevive intensa e internamente em cada fêmea de qualquer idade, em cada cultura, ao seu modo, com peculiar desempenho e eterna doação de vida.

Cida Torneros, jornalista , escritora, mãe e colaboradora e amiga de primeira hora do Bahia em Pauta , mora no Rio de Janeiro onde edita o Blog da Mulher Necessária.

Cida Torneros

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