maio
07

Dom José Rodrigues: lembrado no Salitre

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ARTIGO DA SEMANA

RELIGIÃO E PALANQUES

Vitor Hugo Soares

Em março deste ano, quando o bafafá da disputa sucessória começava a ganhar pressão, o presidente Luis Inácio Lula da Silva segurou pelo braço sua candidata, a ainda ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e sem dar bola aparentemente para a justiça eleitoral, vôou com ela e comitiva para a Bahia. Cortou o caminho do litoral e pousou no aeroporto da pernambucana Petrolina. Em seguida, atravessou a ponte e logo estava na baiana cidade de Juazeiro, também na beira do Rio São Francisco, local escolhido a dedo para a lição de “como fazer política”, que ele queria ministrar a Dilma e aos coordenadores de sua campanha .
No município administrado por um prefeito comunista do PC do B, ladeado pelo governador Jaques Wagner e os ministros Geddel Vieira Lima e Franklin Martins, o presidente pressionou o botão que acionava as bombas de irrigação do projeto Salitre. Em seguida, dedicou as palavras mais candentes e afetuosas de seu discurso a uma figura religiosa marcante na região, mas ausente na cerimônia: o bispo diocesano aposentado Dom José Rodrigues, chamada do “o Bispo dos Excluídos”.
Diante de uma espantada Dilma, o presidente recordou o velho amigo e aliado de peso – apesar da aparente fragilidade física do bispo destacado no âmbito da chamada “igreja progressista” no Nordeste. Seguidor de palavras e exemplo do arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder Câmara, para Dom Rodrigues até figuras com voz forte na igreja da Bahia e no Vaticano, como os cardeais Avelar Brandão Vilela e Lucas Moreira Neves, tiravam o gorro cardinalício.

Voltando ao leito do rio: No comício, a título de inauguração de obra do PAC que se seguiu, Lula registrou a luta do bispo, que não mereceu nenhum destaque nos noticiários do dia seguinte, quase todo tomado pelos esforços do presidente (e da ministra Dilma) para apartar a briga feroz entre o governador Wagner (PT) com o ex-ministro Geddel, com abalos evidentes para a campanha presidencial governista no Estado.
“Todos sabem o desejo que Dom José tinha do projeto Salitre. Ele organizou 72 mil pessoas desalojadas. Diria que foi quase um herói”, disse Lula sob aplausos de centenas de lavradores, vários deles representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que o bispo ajudou a criar na época da construção da Barragem do Sobradinho, cujas águas do lago artificial, 20 vezes maior que a Baia de Guanabara, submergiu quatro cidades baianas .

De olho no ato político-eleitoral no Salitre, na beira do rio de sua aldeia e na cidade em que passou alguns de seus melhores momentos na adolescência, este jornalista recua no tempo, em busca de pistas e explicações para entender os caminhos intrincados e confusos desta campanha presidencial, esquentada bem antes do toque de bola inicial da Copa do Mundo na África do Sul. Ou o sentido da “lição política” de Lula à sua candidata e seguidores, como um pregador bíblico nas margens do Velho Chico.

Chefiava a sucursal da revista VEJA na Bahia e Sergipe e fui escalado para cobrir a última etapa da campanha do candidasto do PT à presidência da República, no primeiro turno das eleições de 1989. Aquela em que Lula superou a votação de Brizola que avançava, e foi disputar com Fernando Collor de Mello o turno decisivo, no qual foi derrotado.
Era o tempo em que o presidenciável petista não se preocupava com trajes e maneiras de se apresentar nas conversas e nos palanques. No périplo final da campanha, em Vitória da Conquista, depois de comer muita poeira na estrada, Lula apareceu no palanque vestido de jeans e camiseta, barbudo, cara de poucos amigos. O “visual despojado”, como registrou a Folha certa vez, ajudava a solidificar o preconceito de vastas camadas da população contra o líder operário.
Mas a “queimação”- na expressão dos petistas da época – não funcionava para os fiéis seguidores das “comunidades eclesiais de base”, da Igreja Católica, espalhadas por dioceses nordestinas, que atuavam pró-Lula a todo vapor e sem descanso. Em Conquista, no extremo-sul baiano, lá estavam eles, às centenas, quase meia noite, misturando cânticos religiosos com grito de “É Lula, É Lula”.
Na Juazeiro do bispo Dom José Rodrigues um dos episódios mais marcantes e reveladores:
Todas as camisas e camisetas do candidato petista estavam suadas, rasgadas ou imprestáveis para uso no comício final, marcado para Paulo Afonso, por mais “despojado” que fosse o candidato. E a solução emergencial veio do guarda roupa do franzino bispo, na forma de uma camisa de tricoline de mangas curtas, que mal cabia dentro seu novo e parrudo usuário. E assim Lula desembarcou em Paulo Afonso para seu último comício no primeiro turno daquela histórica campanha.
Lula bateu Brizola por pouco no primeiro turno, mas foi abatido por Collor na decisão. Agora, 2010 é outra história. Mas a mistura da questão religiosa com a campanha presidencial já permeia os palanques dos três principais concorrentes: da evangélica declarada e de primeira hora, Marina Silva (PV); do tucano José Serra, criado e formado nas sacristias e lutas da Juventude Universitária Católica (JUC), onde foi atraído para os quadros da Ação Popular (AP), que orientou seus primeiros passos da política. “Que todos estejam na paz do Senhor”, pregou o candidato do PSDB em recente ato evangélico em Santa Catarina.
Dilma Rousseff , nascida de família católica, diz acreditar em “uma força superior”, mas fez confissão de fé católica, recentemente, diante de pergunta mais direta de um repórter. Só não se sabe se aprendeu a “lição” pretendida por Lula, em março passado, ao levá-la às barrancas do São Francisco, na diocese de Dom José Rodrigues, que já não está mais por lá.
A conferir
Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

maio
07


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Comentário sobre o vídeo de Vinícius e Toquinho, postado no You Tube por uma ouvinte uruguaia : “Que cancion mas bonita y que pena que el poeta VINICIUS DE MORAES no este mas entre nosotros, un grande VAGABUNDO POETA CANTOR Y EXELENTE SER HUMANO,,,CARIÑOS Y GRACIAS POR VINICIUS A MIS HERMANOS BRASILEROS”.

Os brasileiros, gregos e baianos também agradecem por Vinícius e essa música para terminar a noite de sexta-feira e varar a madrugada. É do poetinha de todos nós.

(VHS)


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POLÍTICA E HISTÓRIA

Eleições, Getulismo e Lulismo

De São Paulo

Rosane Soares Santana*

Com mais de 133 milhões de eleitores – terceiro maior eleitorado do mundo, atrás da India e dos Estados Unidos – o Brasil vai às urnas, em outubro deste ano, para eleger um presidente da República, um vice-presidente, 513 deputados federais, dois terços dos 81 senadores, 27 governadores, 27 vice-governadores e 1058 deputados estaduais. Quase 200 anos depois das primeiras eleições gerais no país, quando foram eleitos os deputados às Cortes de Lisboa, que introduziram o constitucionalismo na monarquia portuguesa, em 1821, muita coisa mudou. O voto é digital, o palanque é eletrônico, o marketing eleitoral tem peso considerável e o voto feminino é majoritário. Mas, em pleno século 21, o Brasil ainda guarda fortes reminiscências de sua história colonial. A baixa participação política é uma delas.

O fenômeno explica o desconhecimento dos candidatos e partidos pelo eleitor, a supremacia do Estado e do Poder Executivo sobre os demais poderes, o autoritarismo de nossa tradição política, a falta de interesse pelas eleições proporcionais (legislativas) e a desinformação sobre as atribuições do Poder Legislativo – convertido em simples mediador de favores e interesses corporativos- enfraquecendo a importância da representação popular no regime democrático. A baixa participação política faz crescer o temor de que a não obrigatoriedade do voto, como desejam alguns dos defensores da reforma eleitoral, possa levar a níveis de abstenção indesejáveis.

Numa democracia o voto é muito importante. Mas, o voto não é tudo. No auge das reformas liberais que introduziram o constitucionalismo e as eleições legislativas no Brasil, nos anos 20 do século 19, o ato de votar era visto como uma panacéia, uma das reformas fundamentais para civilizar o Império, após 300 anos de colonização, ainda que a escravidão tenha permanecido como uma instituição nacional intocável e escravos e mulheres fossem proibidos de votar.

“Nós não temos outra arma, senão o nosso voto: isto é, com que defenderemos nossos direitos, nossos foros pelos nossos representantes”. A fala do bacharel Basílio Ferreira Goulart, “compromissário (eleitor de segundo grau) da freguesia da Candelária do Rio de Janeiro, ao descrever as eleições realizadas em abril de 1821”, citada pela historiadora Lucia M. Bastos P. Neves, no artigo “Estado e Política na Independência”, da coleçao “O Brasil Imperial”-Vol.1,p.120, ilustra bem o clima das primeiras eleições gerais no país.

Quase dois séculos depois, entretanto, essa crença já não é a mesma e permanece o clima de apatia no eleitorado, detectado, desde o Império, por nomes destacados como o tribuno mineiro Teófilo Ottoni, que atribuia o fato, então, aos três séculos de colonização e a falta de preparo educacional e político do povo. Nesses quase 200 anos, as eleições proporcionais, para a Câmara dos Deputados, foram interrompidas durante o Estado Novo (1937-1945). No período entre 1964 e 1984, o regime militar suspendeu as eleições presidenciais diretas, havendo ainda governadores, prefeitos e senadores biônicos, isto é, nomeados pelo poder central.

Ao longo dos anos, denúncias continuadas de desvio de recursos públicos, corrupção, troca de favores e familismo nos poderes executivo e legislativo, de difícil controle, num país de dimensões continentais, grandes desigualdades sociais e baixa escolaridade, têm contribuído para a descrença generalizada dos eleitores no voto como instrumento de transformação. Nas duas últimas decadas, foram melhorados os mecanismos estatais de vigilância para coibir práticas de corrupção e a participação popular levou à deposição de um presidente da República. A globalização acelerada pela revolução tecnológica, com seus avançados satélites e micro câmeras, poderosos bigbrothers georgianos, também tem contribuído para dimimuir os deslizes, muito embora o Poder Judiciário, lento e ineficaz, na maioria das vezes – uma das principais heranças lusitanas- favoreça a impunidade.

O voto proporcionou muitas mudanças na história recente do país, como a estabilidade econônica, com o Plano Real, no rastro do qual avançamos nas conquistas sociais.Apesar dos avanços,entretanto, a maioria da população ainda sobrevive em péssimas condições, sem assistência médica, educacional, segurança pública e padrões sanitários satisfatórios, comparados aos países mais desenvolvidos e até vizinhos latino-americanos como a Argentina e o Chile.

No livro “Cidadania no Brasil – o longo caminho”, o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho explica que a precedência dos direitos sociais sobre os direitos civis e políticos, no Brasil, ao contrário do que ocorreu na Europa e nos Estados Unidos onde os direitos civis chegaram na frente, levou à hipertrofia do Estado e do Poder Executivo. O fenômeno favoreceu comportamentos políticos autoritários com o surgimento de líderes messiânicos como Getúlio Vargas, no passado, que governou o Brasil por 15 anos ininterruptos (1930-1945) e, por que nao dizer, no presente, Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2010), dos quais a população espera quase tudo, abdicando de uma participação política mais ativa.

Continuar votando é a solução. Lembra o historiador que a consolidação do processo democrático nos países europeus demorou séculos. E, convenhamos, cerca de 200 anos, com algumas interrupções, é pouco para alterar permanências num processo histórico de longa duração. Outra vez, Jose Murilo:

“E possível que, apesar da desvantagem da inversão da ordem dos direitos, o exercício continuado da democracia política, embora imperfeita, permita aos poucos ampliar o gozo dos direitos civis, o que, por sua vez, poderia reforçar os direitos políticos, criando um círculo virtuoso no qual a cultura política também se modificaria”.

Vamos às urnas.

Rosane Soares Santana é jornalista e mestre em História pela UFBA. Estuda o Poder Legislativo, elites políticas e eleições no Brasil. É da coordenação da cobertura das eleições 2010 do portal Terra.

maio
07

O editor do Bahia em Pauta recebeu – e reproduz – a seguinte mensagem do jornalista, professoar da Facom-UFBA , Washington de Souza Filho, amigo deste site blog e uma das vítimas mais recentes da violência criminosa em Salvador:

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Caros,

boas novas: voltei do hospital… os pontos da cirurgia do pé esquerdo foram retirados e o ferimento não tem qualquer problema de cicarização..

o médico disse que fico mais uma semana com a imobilização, para depois iniciar a fisioterapia…

os outros ferimentos estão cicatrizados, inclusive sem curativo, desde o início da semana.

na segunda-feira reinicio as atividades da faculdade, ainda com muletas, sem poder tocar o pé esquerdo no chão..

certo mesmo é que no dia 19, estarei outra vez no barradão – é o dia da partida de volta, contra o atlético de goiás…vamos para a final

abs

obrigado, mais uma vez, a todos pela solidariede, atenção e carinho.

p.s: por favor, peço que retransmitam aos amigos, que, inadvertidamente, não inclui.

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OK, Washington! Melhoras sempre e até o Barradão ! Nêgooo!

(VHS)

maio
07

Churrascaria saqueada/Portal da Metrópole

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No artigo que assina nesta sexta-feira na Tribuna da Bahia o jornalista político Ivan de Carvalho menciona o assalto acontecido na noite de quarta-feira em uma churrascaria no bairro de Itaigara, pra produzir reflexão grave -sem perder o humor – sobre a escalada da violência em Salvador. Não se constrói segurança com varinha de condão, mas se constrói segurança. Ou, pelo menos, se reduz drasticamente o grau de insegurança, afirma Ivan no texto que Bahia em Pauta reproduz.
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OPINIÃO POLÍTICA

ESCALADA NA INSEGURANÇA

Ivan de Carvalho

Toda a Bahia já sabe, mas não quero deixar de mencionar. Na noite de quarta-feira, no bairro nobre de Itaigara, cinco assaltantes armados invadiram uma churrascaria onde 70 pessoas haviam se reunido para comer, beber e ver pela televisão um jogo de futebol entre o Vasco e o Vitória. Ficaram durante dez minutos recolhendo das pessoas e da casa comercial tudo o que julgaram de valor aceitável e ameaçando as pessoas, apontando-lhes as armas.
Sorte que ninguém esboçou reação e os assaltantes não pareciam drogados, de modo que ninguém foi morto ou ferido. Azar que antes de dar o fora eles resolveram levar a televisão e ninguém mais pôde ver o jogo. Imagino que, se não levassem a TV, haveria pessoas que sentariam calma e resignadamente em seus lugares para continuar curtindo o futebol – pessoas que sentiriam o assalto como um fato da rotina da cidade, desses que não devem perturbar a rotina das pessoas. Os assaltos a bares, restaurantes e similares se tornaram tão freqüentes – um alvo predileto é o Rio Vermelho – que se não for ainda assim, em breve a exceção será não haver assalto.
Talvez continuar vendo o jogo fosse mesmo o melhor a fazer, já que depois de alguém ir em casa buscar um celular (os bandidos tinham roubado todos) para as vítimas bloquearem seus cartões de crédito, as pessoas foram à delegacia – e lá não havia delegado, que tinha ido curtir a noite com a esposa em outros lugares.
O episódio ocorrido no bairro do Itaigara na noite de quarta-feira parece, no entanto, o salto da ação dos bandos criminosos para um novo estágio. Um pouco por causa do local, mas principalmente por causa do grande número de pessoas assaltadas de uma só vez. Era considerado pelos assaltantes inseguro para eles investirem contra lugares com muitas pessoas. O controle não é fácil nessas situações e fatos imprevistos podem ocorrer. Isso era o que pensavam os bandidos e, talvez, as autoridades. Sugiro que mudem seus paradigmas de raciocínio e avaliação quanto a isso. Público numeroso já é alvo válido.
Não se constrói segurança com uma varinha de condão, com mágica. Todo mundo sabe disto e o governador Jaques Wagner não se cansa de lembrar esse fato, sempre que confrontado, em entrevistas à imprensa, com o problema da insegurança pública, da criminalidade, da violência.
Não se constrói segurança com varinha de condão, mas se constrói segurança. Ou, pelo menos, se reduz drasticamente o grau de insegurança. Isso tem ocorrido em alguns lugares. Não vou fazer aqui uma relação deles, apenas lembro Nova York e acrescento que, no Brasil, conseguiram-se resultados expressivos em São Paulo.
Mas no Brasil esses resultados expressivos de redução da insegurança e da criminalidade não são a regra, mas a exceção. E isto justifica, ao meu ver, pelo menos, o anúncio do candidato do PSDB a presidente, o ex-governador paulista José Serra, de que se eleito vai criar um Ministério da Segurança Pública e – mais importante – empenhar a fundo a União no combate ao crime, não deixando o problema quase que exclusivamente sob a responsabilidade dos Estados. A segurança se imporá como prioritária, queira ou não o governante.

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