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Postado em 05-05-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 05-05-2010 11:50

UFBA:hora de escolhas

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Em meio ao intenso rufar de tambores retóricos do debate para a escolha do novo reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) – em alguns casos camufla a defesa de propostas e principios ou esconde a transparência essencial em disputas do tipo – Bahia em Pauta entra em campo na busca de alguma luz esclarecedora.

Com esse objetivo reproduz o artigo do professor Caio Castilho, do Instituto de Física, publicado na página de Opinião de A Tarde. Castilho é um dos mais lúcidos pesquisadores da UFBA – e também um dos mais polêmicos do ambiente científico nacional. Vale a pena – e BP recomenda – ler com atenção o que ele escreve. Confira.

(Vitor Hugo Soares, editor )

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ENSINO SUPERIOR

Caio Castilho

Algum tempo atrás, ilustre pesquisador da Universidade Federal da Bahia (Ufba) afirmava: “A atividade de pesquisa na Ufba é uma questão de foro íntimo”. Uma frase estranha. Afinal, a pesquisa não é atividade essencial de uma universidade? Seria uma atividade não institucionalizada? Quando se apresentam candidatos à Reitoria, é essencial refletir sobre a situação da atividade de pesquisa na Ufba e o que podem esperar a sociedade e os pesquisadores dos candidatos à nova gestão.

A Ufba aprovou novo regimento interno, que adota práticas ameaçadoras à atividade de pesquisa. Exemplo é o significativo aumento na carga didática para docentes de cursos de pós-graduação, com atividade regular de pesquisa, formação de mestres e doutores e iniciação científica de alunos de graduação. A carga mínima ora fixada mais que ameaça, significa sentença de morte. E esta não é a única.

Antes da aprovação do novo regimento já houvera mudanças na estrutura da universidade que causaram e continuam causando danos a ativos e internacionalmente reconhecidos órgãos de pesquisa. São os casos do Centro de Recursos Humanos, Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Mulher, Centro de Pesquisa em Geofísica e Geologia, Centro de Estudos Interdisciplinares em Energia e Ambiente, entre outros. Estes centros/núcleos perderam, ou poderão perder, boa parte dos meios administrativos e técnicos mínimos necessários à sua atuação.

Outra ameaça vem de recente determinação do Conselho Universitário, relativa à captação de recursos de pesquisa, que prevê o nihil obstat de um órgão colegiado no qual uma maioria eventual pode impedir a realização de pesquisas, ainda que aprovadas por comitês específicos, constituídos de pesquisadores com mérito formal e nacionalmente reconhecido, ou mesmo por agências de financiamento vinculadas aos governos estadual e federal. É universal o reconhecimento de que o exercício da “liberdade acadêmica” fica ameaçado se sujeito à mordaça de maiorias, particularmente quando elas se constituem no seio de órgãos de natureza essencialmente política.

O progresso científico, a criação, a invenção e o produzir do novo requerem o oxigênio da liberdade de pesquisa, de indivíduos e grupos, independentemente de serem apoiados por maiorias ou minorias, restringida apenas por parâmetros éticos instituídos. Sabe-se da influência que dirigentes exercem sobre órgãos colegiados que presidem. Muitos deles não exercem atividade regular de pesquisa, nem atuam em cursos de pós-graduação. As atividades de pesquisador e de dirigente, mesmo não excludentes, não são sinônimas.

Outra ameaça diz respeito aos pesquisadores bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq. Esta agência concede bolsas a docentes que realizem pesquisa e que, avaliados periodicamente por seus pares, apresentem indicadores de excelência na formação de recursos humanos, bem como resultados relevantes na pesquisa básica, aplicada e/ou inovação. Em várias unidades da Ufba, esses pesquisadores, além de não receber qualquer reconhecimento pela contribuição agregada à instituição, são perseguidos e estigmatizados.

Uma boa universidade pratica bom ensino e interage com a sociedade que a financia. Mas só inova quem faz pesquisa. Inovação aqui num sentido amplo: o de produzir o novo, inventar, descobrir, conceber, reinventar, estabelecer modelos visando compreender o que ainda não se entende, enfim, pesquisar.

Entre as melhores universidades do mundo, aquelas que mais se notabilizam são as que apresentam excelência na pesquisa que realizam. E, porque pesquisam bem, ensinam bem e se relacionam proficuamente com a sociedade.

No momento em que a Ufba escolhe novo reitor, é, pois, relevante que os candidatos ultrapassem o vago compromisso de “defender uma universidade pública, democrática e de qualidade”, e assumam propostas objetivas, concretas, claras e de natureza prática, que contemplem a atividade de pesquisa. Só a adoção de ações institucionais que favoreçam a atitude investigativa evitará que a pesquisa na Ufba continue a ser “uma questão de foro íntimo”.

*Caio Castilho Professor do Instituto de Física da Ufba
caio@ufba.br

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