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Postado em 01-05-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 01-05-2010 00:04

Dilma em campanha na Agrishow

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ARTIGO DA SEMANA

CANDIDATOS E O FILME SUECO

Vitor Hugo Soares

Perdi a conta das vezes que vi e revi o filme sueco dos anos 80, “Minha Vida de Cachorro”, um de meus preferidos do cinema de todas as épocas. Guardo a cópia em DVD deste fascinante painel de vida e esperança em meio ao desvario quase total de um tempo. Dirigido por Lasse Hallstrom, a fita revela tudo através do garoto Ingemar e suas observações comparativas: lições agudas a partir de sua aldeia sobre o mundo e seus habitantes, da gente mais simples aos mais célebres e poderoso ao seu redor.

Sensibilidade, graça, equilíbrio e lúcida visão crítica, mesmo nos momentos mais loucos do enredo, estão presentes do começo ao fim. Mesmo quando tudo parece perdido, sem controle e sem saída nesta realização cinematográfica que virou cult com o passar do tempo. A cópia em DVD, digitalizada de antigo vídeo cassete, está sempre ao alcance das mãos e dos olhos, principalmente em tempos de campanhas eleitorais estranhas e polvilhadas de interesses nada recomendáveis, cheias de ruídos, blefes, falsas informações, imposturas de todo lado, como as que se tem visto ultimamente.

Isso e muito mais que tornam atualíssimo e digno de referência neste espaço, tanto o filme quanto o conselho repetido durante toda a fita pelo garoto Ingemar: “É preciso sempre comparar”.

Quase tudo torna o filme inesquecível. O rico conteúdo humano; o desempenho de atores e direção invulgares; o cenário magnífico de uma Suécia de sonhos cujos habitantes amam o samba do Brasil e torcem por seu futebol bem antes do presidente Lula chegar ao Palácio do Planalto.

Comove e surpreende ver o entusiasmo da fervorosa torcida de um povo com fama de “frio e pouco dado a emoções”, na noite gloriosa em que o lutador sueco Ingemar Johanson derrota o até então imbatível peso pesado americano Floyd Peterson.

Esta semana deu uma vontade danada de assistir “Minha Vida de Cachorro” outra vez. Isso em razão de alguns episódios, movimentos e imagens da campanha antecipada que anda a todo vapor em praticamente todas as regiões brasileiras, bem antes da Copa da África do Sul começar, mesmo que nenhum candidato o admita, nem seus condutores políticos e marqueteiros de plantão.

Sem falar em “azaradores” que não dormem como o baiano Duda Mendonça. Este não larga o calcanhar de seu conterrâneo João Santana, que não acha sossego para cuidar profissionalmente de seu trabalho e da imagem da petista Dilma, como Lula recomendou ao publicitário de sua campanha vitoriosa mais recente.

Esta foi uma semana rica em exemplos (nem sempre recomendáveis), a começar pela rasteira do alto comando do PSB aplicada no socialista cearense Ciro Gomes, para derrubar o deputado pelo Ceará em sua postulação para disputar o primeiro turno da eleição presidencial pela legenda de seu partido.

Outro: a pré-candidata petista Dilma Rousseff em seu blog recentemente criado, desfilando na histórica Passeata dos 100 Mil no Rio de Janeiro, com a face emprestada da atriz Norma Bengell. Ou mais recente, dirigindo um trator com chapéu de roceira na cabeça e vestindo terninho executivo na Agrishow, a superexposição de implementos agrícolas em Ribeirão Preto.

No Sudeste e no Norte o auê político-eleitoral causado pelo sorriso novinho em folha inaugurado pela senadora do Acre e postulante presidencial do Partido Verde, Marina Silva. Sorriso que ela exibirá este domingo na Bahia, quando estará em Salvador para impulsionar os candidatos da chapa Verde nas eleições majoritárias no Estado.

No Nordeste, o paulista José Serra visita a Bahia pela segunda vez em menos de 15 dias. Faz força para bater o recorde de Lula em campanhas passadas, sempre a repetir nos palanques a convicção espírita de que um dia, em outra encarnação, foi baiano.

No esforço para cortar caminho na terra onde as pesquisas mostram Dilma mais forte eleitoralmente, Serra não chega a tanto. Mas o paulista não cansa de repetir que foi na Bahia, na época do movimento estudantil contra a ditadura e da construção da Ação Popular (AP), ao lado de Duarte Pacheco Pereira, que aprendeu “a fazer política de verdade”. Desta vez, Serra apareceu bem à vontade ao lado do ex-governador Paulo Souto, postulante a voltar ao Palácio de Ondina na eleição deste ano.

Cercado por toda cúpula carlista do DEM no estado, o tucano visita a cidade de Feira de Santana, segundo maior colégio eleitoral do estado e antigo reduto da esquerda baiana, sob o comando de um dos maiores adversários de Antonio Carlos Magalhães e da ditadura militar durante décadas: o falecido ex-prefeito e ex-deputado Chico Pinto.

Enquanto enfrenta seu drama pessoal em “Minha Vida de Cachorro”, o garoto Ingemar observa tudo e filosofa sobre sua vida, as pessoas e as notícias do mundo à sua volta. Para minorar seu sofrimento, pensa em tragédias maiores que a sua, como a da freira que foi ajudar pessoas na Etiópia e lá foi morta a pauladas.

Ou da cadelinha Laika, que os russos haviam acabado de mandar para o espaço dentro do foguite “Sputnik”, e lá morreria de fome. Feita a reflexão, Ingemar conclui com a sua frase preferida: “É preciso comparar”.

Pois é, antes que seja tarde.

Vitor Hugo Soares é jornalistan – E-mail:

vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Olivia on 1 Maio, 2010 at 8:48 #

Muito bons, o artigo e o filme citado. Bela reflexão para este Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador.


luiz alfredo motta fontana on 1 Maio, 2010 at 9:25 #

É preciso comparar

Esse o esforço inútil do eleitor compulsório.

Vivemos na fantasia.

A campanha não começou, e nem mesmo os candidatos o são oficialmente. Mas… estão a pleno vapor em destremelhadas investidas.

Diferenças entre eles, caso existam, só as pertinentes ao campo estritamente pessoal, afinal nem tentam palpitar sobre plano de governo, muito menos sobre alternativas de políticas de governo, especialmente econômicas.

São tão vazios de propósitos que não necessitam nem mesmo rabiscar uma “Carta aos Brasileiros”, o sistema financeiro sabe que são incapazes de ousar.

Dilma ora cria doutorados, ora desfila em passeatas que nunca viu. Serra esconde o que pensa, caso pense, e insiste em apresentar-se como exímio administrador enquanto São Paulo, o Estado, padece. Marina louva ao Senhor e ao que melhor possam os outros dois possuirem, maneira singela e acanhada de dizer que manterá a política econômica tal qual existe desde FHC.

Dilma e Marina inauguram sorrisos Vips, pena que a campanha não seja de creme dental. Serra tenta entender a Bahia, o que parece impossível para quem desconhece afabilidade, e não possui sequer um cadinho de rítmo ou cadência.

Pobre eleitor, ao contrário do melhor amigo do homem, será obrigado a votar, sabendo de antemão que será, cedo ou tarde, punido com a pecha de não saber escolher.

Dilma, Serra, ou Marina…

Poderia ser pior?


Mariana Soares on 1 Maio, 2010 at 11:52 #

Também concordo com Olivia: filme e artigo belíssimos! E, para mim, o artgo mais belo ainda que o filme!Parabéns, mais uma vez, meu irmão, para a reflexão que a todos convoca, com tanta sensibilidade e lirismo, que até nos faz esquecer, por instantes, a aspereza de tudo que teremos que assistir e comparar até outubro ou novembro, para, enfim, fazermos a nossa escolha, uma das poucas que ainda é garantida a todos, sem discriminação.


danilo on 2 Maio, 2010 at 0:00 #

“Serra esconde o que pensa, caso pense, e insiste em apresentar-se como exímio administrador enquanto São Paulo, o Estado, padece.”

pois é, se o estado de São Paulo com aquela pujança toda [visitem o interior de SP e vejam as cidades], se o estado de São Paulo com aquela pujança está a padecer, como diz Luiz Alfredo, imagine como está o padecer a Bahia de Wagareza Cabelo de Q-Bôa e este nordestão amarrado no Bolsa Familia…


luyiz alfredo motta fontana on 2 Maio, 2010 at 6:18 #

Caro Danilo

São Paulo vem encolhendo a sua participação no PIB nacional, essa a marca dos sucessivos governos tucanos, desde Mário Covas. A participação que historicamente era superior a 40% parece estar agora em algo em torno de 31%

Aqui uma das tabelas do IBGE que refletem a situação.

VEJA A PARTICIPAÇÃO DOS ESTADOS NO PIB (%)
ESTADO 1995 2007
SP 37,3 33,9
RJ 11,2 11,2
MG 8,6 9,1
RS 7,1 6,6
PR 5,7 6,1
BA 3,7 4,1
SC 3,4 3,9
DF 4,4 3,8
GO 2,0 2,5
PE 2,3 2,3
ES 2,0 2,3
CE 1,9 1,9
PA 1,6 1,9
MT 1,0 1,6
AM 1,4 1,6
MA 0,9 1,2
MS 0,9 1,1
RN 0,7 0,9
PB 0,7 0,8
AL 0,7 0,7
SE 0,5 0,6
RO 0,4 0,6
PI 0,5 0,5
TO 0,3 0,4
AP 0,2 0,2
AC 0,2 0,2
RR 0,1 0,2

* Fonte: IBGE


danilo on 2 Maio, 2010 at 18:44 #

santa ingenuidade, menino prodígio. e vc acredita neste prognósticos do IBGE, é? lembre o exemplo da Grécia cujos índices [favoráveis] foram manipulados pelo governo. e mesmo assim, caso vc queira sustentar sua argumentação, vc não cai comparar uma cidade do interior paulista – IDH, sistema de saúde, estrutura hospitalar, educação, industrialização, prestação de serviços, nível de instrução da população, sistema de transportes, urbanização, rodovias e vias públicas, transporte coletivo, etc – e não vai comparar com Caruaru ou Alagoinhas, né???


luiz alfredo motta fontana on 3 Maio, 2010 at 5:03 #

Caro Danilo

Não pertine ao meu comentário nenhuma comparação entre IDHs, nem tentativa ingênua de ignorar diferenças entre regiões.

Apenas, ressalto que São Paulo, o estado, embora líder, vem acumulando perdas no percentual de participação no PIB. Essa tendência é inaugurada no governo Covas, e traduz a realidade até hoje.

Cabe até ressaltar, e louvar, que a Bahia caminha em sentido contrário.

Por outro lado, e agora atendendo sua preocupação com IDH, é inegável que educação, segurança, e até mesmo saúde, não podem ser apresentadas como tradução da tão propalada eficiência tucana, ao menos em São Paulo onde claudicam.

Abraços!


danilo on 3 Maio, 2010 at 9:54 #

não me refiro a Tucanos nem a Petistas nem a Carlistas nem a Q-Bôistas. mas se vc diz q SP tá nessa pindaíba toda, e q estados nordestinos tão “progredindo”, aí a bagaceira da realidade brasileira é pior do q imaginamos.


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