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Postado em 01-05-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 01-05-2010 11:29

Aves em perigo na costa americana/ El Mundo

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CRÔNICA/TANTO ÓLEO

MAR EM LUTO

Diogo Tavares

Todo desastre ecológico é terrível e geralmente não é útil tecer comentário sobre o quanto um acidente pode ser pior do que outro. Mas em alguns casos não dá pra evitar. Entre as calamidades causadas pelo homem, aquelas que envolvem a indústria de petróleo têm gerado maiores e mais permanentes danos do que outras. E não é necessário computar nesta relação as guerras modernas no Oriente Médio, motivadas em grande parte pela disputa estratégica pelo controle das maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo. Basta analisar os desastres diretos, como o que atingiu o Alasca há alguns anos e o que atinge agora a costa atlântica sul dos Estados Unidos, após a explosão de uma plataforma no Golfo do México, expoentes máximos de casos similares banalizados no mundo todo.

Nas últimas horas as notícias são terríveis, com a mancha de óleo maior do que a Jamaica atingindo uma enorme área de pântanos, de reservas biológicas e de exploração pesqueira. Um país, o maior viciado em petróleo do mundo, em estado de emergência justamente por causa do ouro negro. Isto é a única parte boa da notícia, pois o oceano é muito grande, mas para os americanos o país deles é ainda maior.

Não gosto e acho ultrapassado o discurso anti-imperialista, do tipo “yankee go home”, mas são bons os ventos que estão levando todo aquele petróleo para a costa norte-americana e não para o meio do Atlântico. Digo isso com certa triste convicção de quem já deparou com grande quantidade de lixo não orgânico, como garrafas pet e pedaços de rede de pesca, velejando a meio caminho de Fernando de Noronha, bem longe da plataforma continental. Sim, a poluição no oceano não tem dono e não haveria metade do empenho da maior potência do mundo em deter o desastre ecológico se ele não fosse em casa. Da mesma forma que, responsáveis pela maior quantidade de gases do efeito estufa no mundo, os Estados Unidos ainda relutam em assinar acordos de controle de emissão.

Por isso há a outra questão que surge, mais sutil, mas igualmente importante e provavelmente mais profunda e duradoura. Esta tragédia deve colocar em discussão, a partir dos próprios Estados Unidos, se este modelo de desenvolvimento calcado em fontes de energia não renováveis, na exploração irresponsável das reservas naturais, na visão unilateral de mundo e na concentração de riqueza e poder pode continuar.

Buscando um otimismo lá no fundo, tenho a esperança de que este desastre e todo o custo econômico atrelado a ele possam colocar a questão da segurança ambiental e da sustentabilidade em outro patamar. Inclusive aqui no Brasil, onde vazamentos de petróleo são recorrentes e já causaram graves danos principalmente nas baías da Guanabara e de Todos os Santos. Não basta discutir com quanto da riqueza do pré-sal cada estado brasileiro vai ficar. É preciso assegurar que o preço a pagar, neste caso por todos nós e pelos nossos filhos, não será alto demais.

Diogo Tavares é jornalista e escritor

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Comentários

Rudolfo on 12 Abril, 2012 at 15:31 #

Estou utilizando este texto, a cada semestre, para debate em minhas aulas sobre desenvolvimento sustentável.


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