abr
24
Postado em 24-04-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 24-04-2010 00:01

Usinas da Chesf:como negar?

=================================================

ARTIGO DA SEMANA

RESPEITO À MEMÓRIA

Vitor Hugo Soares

Nas barrancas do São Francisco, rio da minha aldeia, no tempo pioneiro da construção da hidrelétrica da CHESF – que iluminaria o Nordeste depois de inaugurada pelo presidente Café Filho -, um detalhe em especial impressionava o garoto de então: as manifestações populares grandiosas das campanhas políticas na cidade transformada em formigueiro humano de operários, engenheiros e técnicos de toda parte, atraídos pela obra monumental que se erguia na vizinhança árida do quase deserto do Raso da Catarina.
Nunca esqueci o comentário de um “cassaco” (mistura romântica imortalizada dos cossacos da Rússia de então, com os heróicos carregadores de milhões de sacos de cimento consumidos na mega-construção no sertão da Bahia, imortalizados por Luiz Gonzaga). Depois de um discurso de palanque arrasador feito por Antonio Balbino, que disputava o governo do estado com o historiador Pedro Calmon, disse o atento operário ao meu lado no comício:: “Em tempo de eleição ninguém tem descanso, nem os mortos”.
Mais de meio século depois vejam este bafafá cercado de interesses estranhos – e pouco transparentes -, por todo lado, que envolvem o leilão para a construção bilionária da mega-hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Beatos e conselheiros dos novos tempos andam metidos na briga – um deles o diretor de Avatar e seus santos guerreiros do Greenpeace, em cruzada internacional contra a obra.
Briga feia, que cobra explicações mais nítidas tanto do governo e demais propagandistas da obra, como de seus opositores, alguns acenando as bandeiras justas da defesa do meio ambiente, dos índios, da floresta, e outros nem tão idealistas assim. Travada em tempo de pré-campanha eleitoral, tudo parece antecipar uma nova Guerra de Canudos no norte do País, como a que dizimou o belo monte de Canudos, no sertão da Bahia, nos primeiros anos da República.
Em termos de argumentos vale tudo. Até os mais equivocados ou que escamoteiam a verdade. Por exemplo, dizer e escrever como alguns têm feito, que falta tradição em construção de obras do porte de Belo Monte ao consórcio vencedor do polêmico leilão, encabeçado pela Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco – CHESF. Ora, em nome dos fatos e da história da engenharia brasileira, nunca é demais perguntar: “Quem tem mais tradição em obras assim no País que a CHESF?
Vale escutar o rei do baião Luiz Gonzaga, em seu canto de louvor a Paulo Afonso, para reavivar memórias fracas ou mal intencionadas. Também como tributo merecido, nesta hora confusa e interesseira do debate sobre Belo Monte, a tantos que se empenharam até a morte – e não foram poucos – na construção daquilo que para muitos não passava de utopia nordestina.
“Delmiro (Gouveia) deu a idéia. / Apolônio (Sales) aproveitou / Getúlio fez o decreto, e Dutra realizou / O presidente Café (Filho) a usina inaugurou/ E graça a esse esforço, de homens que têm valor/ Meu Paulo Afonso foi sonho que já se concretizou… Olhando pra Paulo Afonso eu louvo nosso engenheiro/ louvo nosso cassaco, caboclo bom brasileiro./ E vejo o Nordeste erguendo a bandeira de ordem e progresso à nação brasileira. / E vejo a usina feliz mensageira, vivendo da força da cachoeira/ Meu Brasil vai”.
Mais de 50 anos depois da epopéia da Chesf em Paulo Afonso, tudo pode parecer piegas e romântico agora, diante de Belo Monte e dos monumentais interesses que a mega-obra amazônica representa, inclusive os eleitorais. Mas na época, quase tudo foi heróico na grande aventura humana sob o ronco da cachoeira nas margens baianas do Rio São Francisco.
Digo isso como o jornalista Sebastião Nery na apresentação de “Rompendo o Cerco”, livro sobre a bravura dos falecidos Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Rômulo Almeida, naquele 13 de Maio de 1978, em Salvador, quando a ditadura soltou os cachorros para impedir a fala de Ulysses em ato público na data histórica: “Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá.”.
No caso da CHESF, serve também para lembrar as palavras de sabedoria e ser justo com aquele “cassaco” anônimo que estava ao meu lado no comício de Antonio Balbino, em Paulo Afonso.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@ terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 24 Abril, 2010 at 4:59 #

Caro VHS

Nada como Luiz Gonzaga, aqui o Baião “Paulo Afonso”(Zé Dantas-Luiz Gonzaga),na interpretação de Ivan Ferraz, com a participação de Luizinho Calixto e Arlindo dos 8 Baixos.

http://www.youtube.com/watch?v=-y1NLyt63Z8


Olivia on 24 Abril, 2010 at 8:34 #

Sempre gosto de repetir frase, das mais perfeitas, do nosso príncipe da MPB, Paulinho da Viola: ‘Quando penso no futuro, não esqueço do passado’. Para lembrar outro grande, Armando Oliveira. Ele gostava de usar a expressão, principalmente em períodos eleitorais/eleitoreiros: ‘Só óleo de peroba nesta turma, tá demais’, repetia. Belo e oportuníssimo artigo, Vitor. É sempre bom refrescar a memória desta gente e oferecer conhecimento aos mais jovens.


Janio on 24 Abril, 2010 at 9:53 #

Vitor, querido, toda vez que eu passo pelos paredões das barragens aqui em Paulo Afonso me pergunto como, na época, essa turma conseguiu fazer essas maravilhas da engenharia brasileira, principalmente a primeira delas, construída pelo visionário Delmiro Gouveia. Agora, no que diz respeito aos rios de dinheiro desviados (que sem nenhuma fiscalização da imprensa devem ter jorrado com mais força que as cachoeiras do Véu de Noiva e Croatá), aí é outro papo. Mais uma vez você acerta na mosca.


Marco Lino on 24 Abril, 2010 at 12:28 #

Parabéns, meu caro!
Muito bom!
Abs


SILVIA on 12 julho, 2016 at 18:33 #

não conheço paulo afonso mais fiquei maravilhada com este lugar lindo ainda irei conhecer parabens para quem mora neste lugar lindo


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos