abr
17
Postado em 17-04-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 17-04-2010 00:05

Serra:passageiro da chuva em Salvador…

…e Bronson no cinema

================================================================

ARTIGO DA SEMANA

COMÍCIO RELÂMPAGO X MASTURBAÇÃO SOCIOLÓGICA

Vitor Hugo Soares

Quando desembarcou em Salvador esta semana, debaixo do maior aguaceiro, o pré-candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, parecia aquele personagem representado por Charles Bronson em “Passager de La Pluie” (Passageiro da Chuva), “cult” dos anos 70, dirigido pelo francês René Clement, cujo lançamento nacional vi no antigo Cine Condor, no Rio de Janeiro, de passagem pela cidade.

Enigmático ao desembarcar no aeroporto, que pouco depois teria seus acessos bloqueados pelas águas que transbordaram dos rios Ipitanga e Joanes, o político paulista, a exemplo de Bronson ao descer do ônibus na cidadezinha do filme, deixava evidente: tinha algo relevante em seus planos políticos a experimentar ou a desvendar na Bahia naquela tarde e noite, apesar do dilúvio.

Havia anotado um dia antes em Terra Magazine: Serra, mesmo insistindo na jura de ainda não estar em campanha para ocupar o lugar de Lula no Palácio do Planalto, voaria para o Nordeste, começando pela capital baiana, para inaugurar a estratégia que deve marcar sua campanha nos próximos meses.

Estimulado pelos seus principais conselheiros – com marqueteiro no meio, evidentemente – Serra resolveu que precisava sair do ninho em São Paulo e fazer a viagem rapidamente – apesar dos perigos contidos nas previsões meteorológicas para a região. Antes mesmo de pousar em Minas, no começo da semana que vem, para, ao lado do governador Aécio Neves, dar o que até então o alto comando tucano anunciava como “a grande largada”.

Eureka! O que se viu na última quarta-feira em Salvador foi o ressurgimento (com modelo renovado e mais apropriado ao tempo e a hora da política do País), dos antigos “comícios relâmpagos” dos anos de ditadura, utilizados então pelo chamado Movimento Estudantil (ME), União Nacional dos Estudantes à frente. Em síntese: deslocamentos rápidos para pontos estratégicos, com a finalidade de surpreender os adversários, a conversa restrita ao essencial, pouco discurso e o máximo de ação possível.

No caso em pauta, talvez só o nordestino Lula, em seus melhores tempos de juras de amores baianos, poderia ter feito igual, ou melhor. À ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT, ainda parece faltar chão e iniciativa própria quando não tem o padrinho e mais vigoroso defensor de sua candidatura por perto.

No vácuo, como o durão Bronson em “Passageiro da Chuva”, Serra, ex-presidente da UNE, pegou o avião em São Paulo desafiando as previsões de temporais para a Bahia, convencido de que, como na época dos “comícios relâmpagos”, não havia tempo a perder com divagações ou “masturbação sociológica”, antiga prática partidária e administrativa que enlouquecia tucanos mais velozes como o falecido ex-ministro das Comunicações de FHC, Sergio Mota, o Serjão.

A agenda baiana e nordestina foi escolhida a dedo e às pressas, como exigia a nova estratégia a ser testada. Primeiro uma visita às Obras Sociais de Irmã Dulce, a quase santa freira, morta em 1992, que criou e deixou o mais importante trabalho de assistência e caridade em Salvador. Em seguida, uma passada pelo Mercado Modelo, para as fotografias e filmagens em um dos mais populares cartões-postais locais, ao lado de capoeiristas, artesãos e figuras típicas do lugar. Além, é claro, de políticos da terra, como o ex-governador Paulo Souto (DEM), que tenta retornar ao Palácio de Ondina; ex-prefeito tucano Antonio Imbassahy, ex-governador Nilo Coelho e o deputado Jutahy Magalhães, um de seus principais escudeiros no Estado há tempos.

Finalmente, o “comício relâmpago” de maior repercussão política. A entrevista de mais de meia hora na Rádio Metrópole ao experiente âncora radiofônico e ex-prefeito, Mario Kertész, no programa de maior audiência e repercussão da capital. Tempo que Serra não jogou fora e preencheu com respostas sobre sua trajetória de vida e antigas ligações políticas com a Bahia, desde o histórico Congresso Internacional dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido, meses antes do golpe de 64, e depois a fundação da Ação Popular, criada na Bahia. “Muito do que aprendi de política devo ao movimento estudantil e à Bahia”, disse Serra, à moda de Lula em campanhas passadas.

E ainda acenou para o socialista Ciro Gomes (PSB), um de seus mais duros críticos: “Ciro tem pinimba comigo, mas é mão única. Eu não tenho nada que me oponha a Ciro”

Depois, ainda debaixo de chuva, pegou o avião em Salvador e viajou para mais um “comício relâmpago”. Desta vez no Ceará dos Gomes.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor.soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 17 Abril, 2010 at 6:51 #

Uma conversa mineira (tateando no escuro) de um paulista (esse blogueiro de vagas horas) com um baiano (O grande VHS)

Admiro tua precisão, é cirúrgica, e não abre mão do lirismo.

A percepção do “comício relâmpado”, tal qual o ME, quando a palavra movimento era realidade, distante léguas da adesão de hoje, é perfeita, no que diz respeito ao proceder.

Porém, e aqui cabe reflexão, se a adoção desse tipo de manifestação, derivava da estratégia de confundir a repressão, deixando os brucutus atarantados, hoje a motivação é diversa, sendo o alvo da desorientação a formação de convicção política, e sobretudo a explicitação de idéias.

Quem é Serra?

Qual a sua proposta, ou plano, ou tímida idéia de rumos no governo?

É um fenômeno esse político, fala pouco, quase nada, entoa sempre um cantochão de desaprovação do que existe, mas sequer insinua o que deveria ser.

Diz a lenda, e aqui falha a crônica política, que ao tomar conhecimento de que Itamar nomearia FHC, tendo solicitado a volta imediata já que se encontrava em viagem na condição de titular da pasta de Relações Exteriores, Serra teria enlouquecido e passado horas ligando para Eduardo Jorge, o eterno secretário de FHC, bradando repetidamente: – ele (FHC) não pode aceitar” O que traduziria um grito surdo e abafado: – “esse lugar é meu”. Jamais saberemos, ao continuar o silêncio da crônica se a lenda é um exagêro, ou algo próximo da realidade.

Serra, sempre foi apresentado como detentor de idéias sublimes e pertinentes no campo econômico e administrativo, o problema é que as desconhecemos. sendo correto afirmar, que o traço, mais conhecido, resume-se ao seu olhar de “comi e não gostei”.

Resta reconhecer o profissionalismo dos que o assessoram, afinal, encontraram a forma de exibir com brilhantismo a tábua rasa de conceitos e planos do candidato.

Lembrando que a adversária nada mais é do que uma dedicada servidora de Lula, perdida em desastrosas tentativas de vestir roupa, e modos, de candidata, tarefa quase impossível para quem sempre ostentou uniforme de sargento opressor, é fácil notar que nesta eleição não existe lugar para aquele fenômeno simples e necessário aos que anseiam pelo poder máximo da nação, ou seja a tão esquecida “empatia popular”.

Nunca é demais repetir:

– “2010, o ano em que a urna enjoou”

Ao que o gaiato de plantão acrescenta:

– “Por sorte é eletrônica e passa rápido”.


Chico Bruno on 17 Abril, 2010 at 13:12 #

“Depois, ainda debaixo de chuva, pegou o avião em Salvador e viajou para mais um “comício relâmpago”. Desta vez no Ceará dos Gomes.” Meu amigo VHS, o Serra não foi para o Ceará, voltou para SP e no dia seguinte foi para Maceió, onde almoçou com Téo no Caboclo Faminto.


vitor on 17 Abril, 2010 at 17:40 #

Chico

Você está certo. Obrigado pela informação. Estratégia de comício relampago é assim mesmo. O cara diz que vai para um lugar e baixa em outro. Assumo o equívoco da informação final. Grande abraço.


Chico Bruno on 18 Abril, 2010 at 13:50 #

Precisando é só tocar o búzio. Estou com vc. e não abro.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos