abr
11
Postado em 11-04-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 11-04-2010 22:26

Morro do Bumba, Niteroi: “então vem a chuva”

=============================================
CRÔNICA/TEMPO

OCEANOS E LÁGRIMAS

(UMA ORAÇÃO PRA QUEM NÃO SABE REZAR)

Diogo Tavares

Água é vida. É dela que vieram todos os seres vivos, começando com aqueles seres mononucleares de nossas aulas de biologia. É ela que representa mais de 70% do corpo humano. É por ela que o sertanejo reza olhando pra lavoura. Não, não se trata de água este texto. Nem de agricultura. Ou de seca. Se trata de vida e da perda dela. Há muito tempo escrevi um poema baseado num fato real, numa notícia de jornal, em que uma criança nordestina de cinco anos, diante de algo que nunca tinha visto na vida, pergunta:

“Mainha, o céu tá furado?”

Sim, era chuva. A chuva que lava calçadas e leva esperança ao sertão também revela os piores traços de nossa injustiça social.

Por mais surreal que pareça, vamos viajar no tempo e ver uma montanha de lixo, um lugar insalubre e utilizado como solução pelo imediatismo dos gestores públicos. Não, não um aterro sanitário como algumas emissoras de TV noticiaram, mas um imenso lixão, com detritos de toda espécie disputados por badameiros e urubus. E então este mesmo lixão é deixado de lado e esquecido, sendo ocupado depois por barracos, casebres e construções. Gente sem terra pra chamar de sua, transformando em chão a montanha de detritos. Depois, gente que comprou pelo que podia pagar um canto pra morar. E o chorume que brotava, e o mau cheiro que exalava, tudo compensava o preço a pagar por ter o mínimo nesse mundo de tanta gente sem nada.

Então vem a chuva e a água não negocia, não faz barganha, não poupa ninguém em seu caminho morro abaixo. Revira a terra, revela o podre, derruba aquilo que se construiu sobre a omissão, a ganância e a exploração do homem pelo homem. Transforma a morada transitória em morada final e segue alimentando oceanos e lágrimas.

Sim, porque oceanos e lágrimas são feitos praticamente da mesma matéria. Como são feitas das mesmas matérias nossas mazelas – e essa matéria não é água. Interditam-se casas, mudam-se famílias, fazem-se promessas que um dia ficarão submersas na lembrança como lixões que viram loteamentos. Mortos e vivos descansarão, em completo desrespeito à natureza e à vida. Os segundos levarão mais tempo do que os primeiros para saber que nós, seres humanos, também somos todos feitos da mesma matéria.

Diogo Tavares é jornalista e escritor

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos