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Postado em 29-03-2010
Arquivado em (Artigos, Claudio) por vitor em 29-03-2010 18:09

Thiago sobre Armando: “amigo completo”

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE:
(Thiago de Mello recitou “Cotovia” para Armando Nogueira)
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CLAUDIO LEAL

Terrível ofício, o de despedir-se dos amigos. O poeta Thiago de Mello foi acordado na manhã desta segunda pela morte do jornalista Armando Nogueira, seu “amigo principal” durante seis décadas. “Começamos a fazer jornalismo no mesmo dia, em 1952, e nunca mais nos separamos”, conta o escritor amazonense, enquanto chora no aeroporto de Manaus, à espera de um avião para o Rio de Janeiro.

Nas travessias aéreas, Armando e Thiago disputavam uma guerrilha de marchinhas e canções. Quem sabia mais jardineiras, auroras e chiquitas bacanas? Havia ainda os diálogos entrecortados por citações de Machado de Assis. De memória.

– Primeiro, andei de barco. Depois, andei de carro, para pegar o avião e ouvir a fala macia do meu amigo. Estive com ele há dez dias, falei no ouvido dele. Agora, vou pegar o mesmo voo. Só que dessa vez não vou ouvir mais a fala suave do meu amigo. Vou vê-lo dormindo pela última vez.

Armando Nogueira morreu a um dia do aniversário de Thiago de Mello, que completa 84 anos neste 30 de março. Nunca publicou um livro sem submetê-lo, antes, ao cúmplice de poesia. “Ele não era o melhor amigo, não. Era o amigo principal, era o amigo completo”, proclama o vago mago, como o definiu Pablo Neruda. “Me acordava para ler uma crônica”.
Há onze dias, no hospital Copa D’Or, o poeta de Barreirinha recitou o poema “Cotovia”, de Manuel Bandeira, no ouvido de Armando:
“- Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?”
“Ele reconheceu minha voz e abriu o olho esquerdo”, descreve Thiago de Mello, perto de desligar o telefone: “Adeus, companheiro!”.
E adeus, Armando Nogueira.
***
Por que não terminar de ler o poema de Manuel Bandeira, na despedida do cronista de “Na grande área”?
“Cotovia”
– Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?
– Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe…
Voltei, te trouxe a alegria.
– Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.
– Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia…
– E esqueceste Pernambuco,
Distraída?
– Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.
– Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!
– Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
– Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.
(Manuel Bandeira)

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