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Postado em 28-03-2010
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 28-03-2010 12:50

Berlusconi: depois de votar hoje

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DEU NO “PUBLICO”, DE LISBOA
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“Faz sentido pedir à ONU que observe umas eleições regionais de um país da União Europeia? Sim, se esse país for a Itália, diz Roberto Saviano, escritor perseguido pela máfia. A ONU não respondeu à provocação, mas há mais italianos que concordam com o autor de ‘Gomorra’ e esta semana o apelo chegou ao Facebook:

“Nas próximas eleições somos todos observadores” é o manifesto que dezenas de milhares assinaram. Os italianos votam hoje e amanhã para eleger governadores e prefeitos em 13 das suas 20 regiões. Berlusconi já votou, em Milão, segundo informa a AGência europeia REUTERS

“Para um voto honesto seria preciso a ONU” é o título do texto que Saviano publicou no jornal La Repubblica (esquerda). “Quem pense que isto é um exagero, deve saber que o país está sob cerco. Na Calábria [ponta sul], em 50 conselheiros regionais, 35 foram processados ou condenados. E tudo acontece na mais absoluta impunidade. No silêncio. Que outro país admitiria isto?”, interroga-se.

A Saviano não faltam exemplos: senadores de direita eleitos com votos da Ndrangheta, a máfia da Calábria que é hoje a mais poderosa de Itália, mas também candidatos do Partido Democrata (PD, a principal força da oposição de centro-esquerda) envolvidos em casos de corrupção ou apoiados por capos conhecidos. “Quando a política é isto, a máfia já venceu.”

Não é só a máfia. É também Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro que ainda consegue fazer de cada eleição um plebiscito. Mesmo agora, desgastado e com a popularidade em baixa, o que no seu caso quer dizer 44 por cento, ainda invejável para muitos líderes europeus. Berlusconi sempre acreditou que não interessa se falam bem ou mal dele, o que importa é que ninguém o esqueça.

A campanha teve escândalos de corrupção, abuso de poder, polémicas sobre a liberdade de imprensa, mais uma lei para salvar Berlusconi de responder em tribunal, escutas telefónicas e gafes… Nada de novo desde que o Cavaliere entrou na política, em 1994. Também teve muito pouco debate e quase nenhuma discussão sobre a crise e o desemprego (a principal preocupação de 79 por cento dos italianos), com uma ajuda da Autoridade da Comunicação que, em nome da igualdade de tratamento, resolveu proibir toda a programação política.

Num país onde a política falhou, o que houve de novo foram iniciativas independentes, como o Popolo Viola, um movimento que se diz contra Berlusconi e contra a máfia, pela defesa da Constituição e da democracia, e que já juntou centenas de milhares nas ruas de dezenas de cidades.

Os analistas têm dúvidas sobre o impacto que o movimento “violeta” terá no resultado eleitoral. Alguns desconfiam que vai engordar a abstenção, outros sugerem que beneficiará a oposição – os seus membros são eleitores naturais do centro-esquerda. Mas estão desiludidos com os partidos.

AnnoZero na rua

Na quinta-feira, o Popolo Viola mudou a sua imagem no Facebook para um cartaz “RAI por uma noite”, uma maratona anti-Berlusconi, transmitida não na televisão pública, mas em televisões locais, por satélite e na Net. Também o jornalista Michele Santoro decidiu agir por conta própria. Levou para a rua o seu programa, um dos sobreviventes espaços críticos a Berlusconi, banido da campanha.

A emissão especial do AnnoZero dedicada à liberdade de expressão foi difundida a partir de Bolonha e retransmitida em telas gigantes colocados em 200 cidades, mas também por 40 televisões locais e em streaming por muitos sites. Na Net teve 200 mil espectadores, um recorde, segundo os jornais italianos. E na televisão obteve uma audiência de 13 por cento.

Num programa que começou com um filme onde Mussolini se dirige às massas, seguido de um discurso de Silvio Berlusconi, não houve papas na língua. Santoro lançou um apelo ao Presidente da República, Giorgio Napolitano: “Ainda não estamos no fascismo, mas algumas semelhanças podem ser fonte de inquietação.”

Santoro não é uma novidade; novo é ter conseguido chegar aos italianos fora dos canais habituais. Em 2002 foi afastado da RAI por Berlusconi o ter acusado de fazer um “uso criminoso” da televisão pública. Seguiu-se uma batalha judicial e só em 2006 teve de volta o seu programa. Desta vez conseguiu montar a noite de Bolonha anunciando-a no Facebook e noutras redes. Na rua estiveram 50 mil pessoas que pagaram 2,5 euros, ajudando a cobrir as despesas de produção.

Num país em que 80 por cento das pessoas se informa só através da televisão e decide aí o seu voto – e há um primeiro-ministro que influencia os três canais públicos e é dono de três privados – começou a ser mais difícil tirar os incómodos do ar.

Até 2013

Pode ser o princípio do fim do monopólio Berlusconi, mas falta muito para a Itália ter novos líderes e dificilmente o resultado será lido como uma derrota do primeiro-ministro.

O centro-esquerda já controla onze das 13 regiões que vão a votos. Há um mês, Berlusconi acreditava que a direita poderia conquistar cinco; hoje já só quer vencer em duas e ainda pode ganhar na Calábria e na Campânia, além de manter a Lombardia e o Veneto. Piemonte e Lázio, a região da capital onde a lista do Povo da Liberdade não foi aceita, são as corridas mais renhidas.

No país, pouco mudará independentemente dos resultados e o pior que pode acontecer a Berlusconi é ser forçado a remodelar o Governo, mais por causa dos aliados (ver caixa) do que devido aos votos da oposição.

É verdade que estas eleições vão medir o desgaste de Berlusconi. Mas até 2013 ninguém o vai tirar do poder. “O Governo tem maioria absoluta e vai terminar o mandato, a questão é que o primeiro-ministro de um qualquer governo democrático já se teria demitido por um décimo dos escândalos que envolvem Berlusconi”, diz Massimiliano Rossi, apoiante em Lisboa do Popolo Viola. “É por isso que a nossa é uma democracia doente.”

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