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Postado em 27-03-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 27-03-2010 00:16

Tupinambas:”mais juizo que cacauicultores”

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ARTIGO DA SEMANA

NO VESPEIRO BAIANO

Vitor Hugo Soares

Com a ministra Dilma Rousseff a tiracolo, o presidente da República desembarcou em Ilhéus nesta sexta-feira. Coração da região cacaueira, onde Luiz Inácio Lula da Silva pisa pela primeira vez em seu segundo mandato, apesar da Bahia ser um dos solos mais frequentemente visitados por ele, que não se cansa de repetir a crença espírita de que um dia em outro tempo viveu por aqui, o que o faz enxergar o lugar (por sentimento humano ou estratégia de político) como talismã eleitoral, mesmo nas vezes em que foi derrotado em pleitos nacionais.

Ontem, Lula sofreu picadas como raras vezes ao andar pelo vespeiro baiano em que transformou-se a disputa sucessória presidencial atrelada ao embate sem trégua pelo Palácio de Ondina, onde Jaques Wagner deseja permanecer mais quatro anos. O problema é que o esquentado ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), o ex-governador Paulo Souto (DEM), nascido, bem votado e com largo trânsito na zona do cacau, e até o deputado verde e ex-petista, Luiz Bassuma, também estão de olho no “palácio das cigarras”, como dizia o cronista Raimundo Reis, e cavam buracos para afundar o governador.

No caso do ministro Geddel, só uma preocupação: bombardear Wagner sem derrubar os dois palanques de Dilma Rousseff no Estado. Situação que deixa Lula visivelmente constrangido, como o próprio presidente confessou há duas semanas, ao visitar Juazeiro, na região do Vale do São Francisco. Constrangimentos repetidos ontem na inauguração do Gasene, em Itabuna, e nos atos administrativos, mas principalmente políticos e eleitorais na vizinha Ilhéus, a terra de Gabriela e dos antigos e poderosos coronéis do cacau do sul do Estado.

Na véspera, em Brasília, o pleno do Superior Tribunal Eleitoral condenou Lula a pagar multa de R$ 5 mil por fazer campanha fora de hora, ou passando por cima de normas legais, se preferirem. Ainda assim, nada capaz de de assustar o condutor da marcha de Dilma à sua sucessão. No comício de quinta-feira em Osasco – inauguração de obras do PAC -, o presidente até brincou com a decisão e sugeriu que quem deve pagar a multa por sua infração: “vou mandar a conta da multa para vocês”, disse Lula, enquanto a plateia gritava ao fundo o nome de sua candidata.

Assim, Lula e a ministra desembarcaram com ar cansado mas aparentemente tranquilos no sul da Bahia na manhã de ontem, acenando com novas bandeiras. Não as flâmulas rubras do PT das companheiras metalúrgicas do ABC, mas as do Gasene (Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste), abertura das licitações para construção da ferrovia Leste-Oeste, e novos afagos da “mãe Dilma” em relação ao PAC do Cacau, de inegável apelo político e eleitoral na região visitada.

Afinal, alimenta sonhos e fantasias de reabilitação da economia da lavoura cacaueira devastada nas últimas duas décadas pela praga “vassoura de bruxa” e pela terceira geração de “empresários da cacauicultura” (às vezes pior do que praga que atinge e seca a plantação, segundo historiadores locais), viciados nas tetas dos empréstimos dos bancos públicos (e privados também), e no perdão paternalista das dívidas por sucessivos governos estadual e federal.

Além das vespas representadas pelos políticos com os quais terá de lidar nessa passagem em região conflagrada, Lula e Dilma atravessam zonas cercadas de boatos de que terão de enfrentar desta vez uma série de protestos, “puxados por fazendeiros de cacau, índios tupinambás e policiais civis e militares”.

Na verdade, os empresários do cacau brigam por mais uma mamata do governo federal: querem a anulação de uma dívida superior a R$ 400 milhões, relativa às duas primeiras etapas do Plano de Recuperação da Lavoura, implementado na década passada. Segundo alegam os cacauicultores, a própria Ceplac, órgão federal de apoio à lavoura, reconheceu erros nas recomendações repassadas aos produtores para conter a praga da Vassoura-de-Bruxa.

Quanto ao protesto dos indios, foi necessário a comitiva presidencial ter cautela apenas com algumas bordunas. Os índios de verdade foram praticamente todos dizimados na região do Descobrimento e no sul baiano, em luta desigual e marcada pela omissão dos governos, da polícia e dos políticos, pelos próprios pioneiros da cacauicultura e seus jagunços, como está nos livros de Jorge Amado ou nos filmes de Glauber Rocha.

Apedrejado na região que visitou pouco antes de morrer, o falecido cacique Juruna, do gravador, desabafou em desalento diante do que viu por lá: “Aqui não tem mais índios, só tem caboclos”.

E ferroadas de vespas. Muitas vespas!

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Maria Soares on 27 Março, 2010 at 11:23 #

Vitor – Concordei em parte com o seu artigo, mas, no quesito”empresários do cacau brigam por mais uma mamata do governo federal: querem a anulação de uma dívida superior a R$ 400 milhões” discordo plenamente, foi a CEPLAC sim um orgão do governo que foi fazendo planos mirabolantes com promessas de cura para a vassoura e os fazendeiros pegavam o dinheiro e o resultado não acontecia. mas a dívida ficava correndo altos juros e correções. Falo com a certeza de quem conviveu com isso. o meu avô era um desses agricultores e até hoje a divida existe e o cacau sumiu. Quero tb falar para vc que ele não era relapso com as suas terras ele cuidava muito bem fazia o que a CEPLAC mandava copiosamente, antes da vassoura ele ganhou até um prêmio como agricultor do ano e veio aqui em Brasília receber este prêmio.
Uma coisa vc deve concordar sem o cacau a Mata Atlantica vai embora.


Ivan de Carvalho on 27 Março, 2010 at 14:33 #

Vitor, meu caro,

Não vou comentar a parte política, muito menos a repetição, agora em Itabuna, da vaia que, dizem, o ex-secretário de Agricultura do governador Wagner, Geraldo Simões, organizou para o ministro Geddel em Ilhéus, presentes Lula e Wagner. Agora, a vaia foi ampliada para abranger, além do ministro, o senador César Borges e o prefeito de Itabuna. Duvido que haja no sul da Bahia maldade suficiente para outra vez responsabilizarem Geraldo Simões pela Vaia-II, presentes também Lula e Wagner, que devem ter ficado, cada qual por seus motivos e nas suas respectivas amplitudes, PTs da vida. Atribuir a armação novamente a Geraldo Simões é, eu desconfio, embora não possa garantir, assim como praticar Goebbels, repetindo uma mentira “mil vezes” até que seja aceita como verdade. E Simões iria fazer isso exatamente na terra dele, Itabuna? Seria burrice demais ou coragem em demasia.

Mas não é sobre isto que desejo comentar. E sim a respeito do déja vu de Lula na região cacaueira, que você lembra no seu inspirado artigo.
Só para assinalar que não é “espírita” a comovente, para os eleitores da região, crença de Lula de que em outra ocasião (reencarnação) já viveu no sul baiano.
A crença da reencarnação tem base muito mais ampla. Quase universal, perdão, quase planetária.
Além dos espíritas kardecistas e dos adeptos de linhas religiosas de raiz na África negra, acreditam na reencarnação crêem na reencarnação, atualmente, os budistas, os hinduistas (bramanistas), os xintoistas (Japão), os adeptos da Teosofia e uma parte dos cristãos, na qual me incluo.
Em tempo: Osama bin Laden não acredita. Ainda bem.


Adeir Boida de Andrade on 27 Março, 2010 at 19:46 #

Produtor de cacau não quer “mamata”. Quer respeito.

A lavoura cacaueira baiana foi vítima de um crime hediondo. O ato de terrorismo biológico que introduziu a doença Vassoura-de-bruxa, que se alastrou numa calamidade pública. Foram 300 mil desempregados e 3 milhões de flagelados. A maior vítima foi o Brasil que deixou de exportar e passou a importar 100 mil toneladas de cacau por ano.
Existem claras evidências, senão da autoria direta, da cumplicidade de funcionários públicos da Ceplac no cometimento do crime. Afora o dever de manutenção das barreiras sanitárias. Aliás, a doença não chegou aos cacauais de São Paulo, onde a Ceplac nunca esteve…
O ônus de combater a calamidade, dever de Estado, foi transferido para os produtores que tomaram os empréstimos, vinculados a aplicação de um pacote tecnológico que resultou inócuo. A região que produzia média de 600Kg de cacau/hectare antes da doença, depois da aplicação do pacote (e do brutal endividamento) produz hoje 150Kg/hectare. Em resumo, o produtor foi forçado ao erro, e, o pior, com dinheiro emprestado!
Em resumo: o endividamento pela Vassoura-de-bruxa pode até ser legal. Mas é IMORAL!
Os produtores estão lutando, não apenas pela ANULAÇÃO destas dívidas espúrias, mas por uma indenização por danos materiais e morais. Podem e devem fazer isto, de queixo erguido!
Quando o Governo abate animais contaminados com a febre aftosa ele indeniza o produtor, e isto nunca foi chamado de “mamata”. Barreiras sanitárias são dever do Estado.
Jorge Amado foi, sim, um grande ficcionista. Mas foi um péssimo historiador!


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