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Postado em 24-03-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 24-03-2010 22:47

D. Timóteo no mosteiro de São Bento-Salvador/Arquivo

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CENTENÁRIO DE DOM TIMÓTEO


Diogo Tavares*

Há pelo menos dois tipos de mistério diante dos homens comuns: o que angustia, como um crime insolúvel, a necessidade de uma saída crucial ou a busca de uma invenção salvadora, e o mistério que fascina, como o espanto diante da obra de arte e transição na fé. Este nos permite contemplação, reflexão e em alguns casos crescimento. Em paz. Neste ano em que completaria um século de nascimento, Dom Timóteo Amoroso Anastácio, o saudoso abade do Mosteiro de São Bento, continua a ser um “mistério do bem” e, portanto, não deixar essa data passar em branco nada mais é do uma homenagem que podemos prestar à nossa própria condição humana.

Símbolo poético e declarado de sua fé, o Cometa de Halley apareceu naquele mesmo ano de 1910 em que o jovem Luiz Antônio Amoroso Anastácio nasceu, em 12 de julho, na cidade mineira de Barbacena. Foi uma vida intensa, que incluiu um diploma de direito, o trabalho com o primo Alceu Amoroso Lima, conhecido escritor católico com o pseudônimo de Tristão de Athayde, o casamento com Jenny Hungria, a morte da jovem mulher, aos 20 anos, por tuberculose, e o ingresso na vida religiosa junto com o irmão médico, Vicente, e outros 20 jovens recém formados. O fato seria destacado por Tristão de Athayde no artigo De doutores a Monges, em 1941.

Então já não era Luiz Antonio, mas Timóteo, nome que adotou ao entrar para a ordem beneditina. O trabalho com dom Helder Câmara foi fundamental para a formação crítica do religioso que, em 1965, após impressionar os monges baianos durante palestras, foi eleito abade do Mosteiro de São Bento de Salvador.

É aqui que a cronologia dos fatos passa a fazer com que a biografia de dom Timóteo se confunda com a história da Bahia. Chegando a Salvador em plenos anos de chumbo, coube a dom Timóteo exercer o frágil diálogo entre a sociedade civil e o governo outorgado e seu aparato de repressão, utilizando para isso sua “autoridade” religiosa e conclamando seus interlocutores à razão diante dos princípios cristãos. Emblemático disso foi o cerco ao Mosteiro de São Bento, em 1968, quando dom Timóteo abrigou dezenas de estudantes que tinham sido encurralados pela Polícia Militar na Avenida Sete durante a repressão a uma manifestação. O saldo de 11 pessoas feridas por armas de fogo e as marcas de tiros nos muros do mosteiro retratariam bem a violenta repressão utilizada. Sem medo de correr gabinetes e redações de jornais, com astúcia e coragem, coube ao abade garantir a liberdade e a integridade dos jovens.

Mas o diálogo pregado por dom Timóteo não se limitava à política. Entusiasta do Concílio Vaticano II, que estabeleceu o princípio da aculturação da liturgia, o abade do São Bento celebrou em Salvador a Missa do Morro, levando para a igreja ritmos e instrumentos de origem africana. Chocou os conservadores, aproximou o clero dos jovens e dos progressistas e abriu espaço para o diálogo com a religião afro-brasileira.

Há muito mais coisas pra se escrever sobre dom Timóteo e eu vou recorrer ao próprio abade, em entrevista que me concedeu em 1988. “Dom Timóteo é um mito. E eu, hoje, na minha adiantada idade, olho essas coisas como uma certa grata ironia e digo o seguinte: eu não faço nada pra desfazer o mito. Porque os homens precisam de mitos e mitos são ideais. Como eu não estou muito mais acessível à vaidade, tomo essas homenagens, esse reconhecimento, como um estímulo e um incentivo pra mim. Quer dizer: do Timóteo que é para o Timóteo que deve ser”.

Apesar da modéstia, que pode ser interpretada também como opção pelo humano em detrimento do divino, o fato é que dom Timóteo não conseguiu nos deixar simplesmente, como um homem comum, no início de agosto de 1994. Ele sobreviveu, sim, como mito. Aquele tipo de mito que precisamos preservar, nesse nosso mundo cada vez mais pautado por ídolos instantâneos de reality shows, para que justiça, liberdade, verdade e esperança não se tornem apenas palavras sem conteúdo, para que haja bons exemplos, para, enfim, que não morra de uma vez nos homens o sentido pleno da palavra humanidade.

*Diogo Tavares é jornalista e autor do livro O Milagre de Dom Amoroso – ou como D. Timóteo, abade do Mosteiro de S. Bento venceu as legiões hereges.

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Comentários

Diogo on 25 Março, 2010 at 2:15 #

Que bela surpresa, Vítor. Que bela foto! Você talvez não pense nisso, mas nesse nosso jornalismo com passado marcante, presente difícil e futuro incerto ter um exemplo de jornalista do bem, como você, é imprescindível. Irmão, um grande abraço.


Olivia on 26 Março, 2010 at 10:57 #

Pois é Diogo, como dizia outro bravo e competente jornalista que nós tivemos a honra e o privilégio de trabalhar, José Wilson – de saudossísima memória, “somos poucos, mas imprescindíveis”, que o bom e sério jornalismo continue. Belo artigo, sem memória não construimos o presente. Viva Dom Timóteo, sempre.


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