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Postado em 13-03-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 13-03-2010 00:14

Bachelet: honras e aprovação

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ARTIGO DA SEMANA

BACHELET: ESTATURA DE UMA ESTADISTA

Vitor Hugo Soares

De passagem por Buenos Aires, em 1986 (acho que o mês era abril), vi no antigo e bem cuidado teatro da Avenida 9 de Julio, bem próximo ao Obelisco das grandes celebrações portenhas, uma apresentação histórica dos rapazes do grupo chileno Quilapayún. A exemplo de milhares em seu país, eles cumpriam a diáspora do exílio sem lugar certo no mundo, arrostando – como Michelle Bachellet e família – a condição de perseguidos implacavelmente pelo regime de Pinochet.

Jamais esqueci aquela noite e lembro dela enquanto pela CNN em espanhol acompanho o novo abalo de 7,2 de intensidade na escala Richter, que faz o chão de Santiago tremer enquanto pessoas correm em desespero pelas ruas em busca de abrigo seguro.

A imagem retorna para o imenso salão no início dos atos de posse de Sebastian Piñera, que treme dos lustres ao solo e amedronta chefes de estado, autoridades e convidados presentes à cerimônia. Nesse momento a presidente sai, atravessa o salão com passos firmes e destemidos. Sorri e todos ficam em pé no salão. Aplausos explodem para Bachelet, que caminha para passar a faixa presidencial ao vencedor da recente eleição presidencial, seu adversário político.

A memória retrocede a Buenos Aires outra vez: como esquecer as reações emocionadas e sempre calorosas do público que lotava todos os espaços do majestoso treatro e deram àquele espetáculo musical um caráter simbólico e único de resistência e generosa solidariedade. Imortalizado no disco vinil “Quilapauyun en Argentina”, que um querido amigo baiano remasterizou em CD que guardo até hoje em lugar especial de minha discoteca.

Naquele tempo o Brasil vivia de costas para seus vizinhos do continente, enquanto o líder metalúrgico do ABC, Luiz Inácio da Silva, o Lula, brigava: preso uma vez, não só fez greve de fome, mas pregava a prática como bandeira de luta contra os amordaçamentos da ditadura. Hoje proclama arrependimento, mas o fato é que apesar do isolamento continental de então, seu grito teve mais eco que o do pobre operário cubano Orlando Zapata Tamayo, que morreu à mingua em Havana, depois de mais de 80 dias sem se alimentar. Sem merecer uma palavra de misericórdia do companheiro Lula, muito ao contrário.

Tanto quanto a música de maior sucesso dos rapazes do Quilalapayún: “El Pueblo, unido, jamás será vencido”, embora minha canção preferida do grupo sempre tenha sido “Mi Pátria”. Um canto potente de exaltação ao Chile vulcânico, telúrico, com seus desertos escaldantes, lagos deslumbrantes, montanhas nevadas. Além de um povo educado, generoso e hospitaleiro que só vendo para acreditar.

Acho que me perdi um pouco nas trilhas dos lugares de minhas paixões na América Latina. O que desejava mesmo, desde o começo, era falar da socialista Michelle Bachelet e de sua despedida do governo do Chile, embora não da política chilena, onde acredito sua presença será cada vez mais intensa e decisiva. Afinal, apesar do terremoto, ela deixa o governo com mais de 80% de aprovação popular, segundo a pesquisa mais recente.

Com a palavra Bachelet, na entrevista fora de agenda, publicada no jornal independente La Tercera, enquanto sob aplausos intensos ela pisava o tapete vermelho que a conduzia para fora dos muros do Palácio la Moneda: “Estou muito emocionada com este carinho e por estes aplausos (…) Há quatro anos entrei pela porta que está às costas de vocês e vinha rodeada de meninos, pequenos cidadãos que entravam pela primeira vez no La Moneda ”.

“Agora vou sair pela porta grande, vou sair triste pela dor de nossa gente, mas também vou sair com a fronte erguida, satisfeita pelo que conseguimos fazer, tranquila porque colocamos todo nosso maior empenho em fazer as coisas bem feitas. E contente também porque esta Moneda nunca mais será a casa dos presidentes, mas a casa dos presidentes e das presidentas do Chile e isso também nos faz um país melhor”.

Diante dos gritos que pediam para que seja candidata em 2014, a Presidenta explicou: “Hoje é nosso último dia, isso é o que importa, e não façamos política de ficção”. Mais palmas.

Em seu famoso Decálogo do Estadista, o saudoso deputado Ulysses Guimarães não traça explicitamente o perfil de nenhuma mulher. Mas é certo que Bachelet se encaixa com perfeição em vários mandamentos – Vocação, Talento, Caráter, Paciência – e principalmente no primeiro: Coragem.

Diz Ulysses: “O pusilânime nunca será estadista: Churchill afirmou que das virtudes, a coragem é a primeira. Porque sem ela, todas as demais, a fé, a caridade, o patriotismo desaparecem na hora do perigo. Há momentos em que o homem público (a mulher também) precisa decidir. Sem Coragem não o fará”.

Até mais ver, corajosa Bachelet. Espero que em Santiago ou em Concepción restaurada.
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Despedida da sacada de La Moneda

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Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 13 Março, 2010 at 10:09 #

Belíssimo e emocionante artigo, meu irmão! Parabéns! Nesta semana em que se comemorou o dia internacional das mulheres, você presta aqui uma grandiosa homenagem a esta não menos grandiosa mulher que é a Presidenta Bachelet, mas que, também, atinge a todas nos, mulheres, as quais, cada uma da sua maneira, estão tentando construir um mundo melhor, mais dígno e justo para todos. Quanto aos insensíveis e de curta memória, deixa pra lá…


rosane santana on 14 Março, 2010 at 10:55 #

Bravo, Vitor! So agora li. Ontem foi dia de encontros e farras em Sampa.


Carlos Volney on 15 Março, 2010 at 15:09 #

Bravíssimo Vitor Hugo, tinha de ser você novamente a exaltar essa “figura” ímpar da política latino-americana. Bachelet destrói o argumento cínico – “necessidade de assegurar a governabilidade” – que nos é apresentado pelos que só se preocupam em se preservar no poder e vivem a sofismar.


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