mar
13

É a chance de Lula desfazer um pouco do malfeito que praticou em relação à repressão política e aos direitos humanos em Cuba, diz o jornalista político Ivan de Carvalho no artigo que assina neste sábado, na Tribuna da Bahia. Saiba porque lendo o texto que Bahia em Pauta reproduz.

(VHS)

===================================================
Jornalista Farinas, em Cuba:”E a Fenaj?”

Uma chance para Lula

Ivan de Carvalho

O jornalista dissidente cubano Guillermo Fariñas, em greve desde o dia 24 de fevereiro está em observação na UTI do Hospital Provincial Arnaldo Milián “e sua situação nos preocupa, embora os médicos não tenham confirmado a complicação renal”, disse ontem à tarde sua porta-voz, Licet Zamora, acrescentando que “ele não urina desde que ingressou (na quinta-feira) na UTI do hospital”. A informação no hospital é de que o estado de Fariñas é “grave, mas estável”.

Fariñas, que não está preso, deixou de se alimentar por solidariedade, pela libertação de 27 prisioneiros de consciência (presos políticos). Sua greve de fome foi iniciada logo após a morte, em consequência de greve de fome de 85 dias, do preso político Orlando Zapata Tamayo, de 42 anos, que cumpria pena de 29 anos de prisão. O comportamento do governo cubano no episódio e sua política em relação aos dissidentes do regime comunista provocaram protestos em quase todo o mundo. O mais amplo foi do Parlamento Europeu, que por mais de 500 votos contra apenas 20 condenou, na quinta-feira, a ditadura castrista.

A mesma atitude não teve o presidente do Brasil, Lula da Silva. Nem a diplomacia brasileira. Por um acaso desses que não acontecem por acaso, mas pelo que Carl Jung chamou de sincronicidade – e que sempre têm algum propósito, mesmo que não o idenfiquemos de imediato – Lula estava fazendo sua quarta visita a Cuba desde que assumiu o governo. Claro que ele lamentou a morte de Zapata, mas isso foi só o sinal para o início de uma saraivada de bobagens, impropriedades e coisas alopradas.

Desaconselhou greves de fome, pois já fizera uma quando sindicalista, não gostara e desistira (faltou-lhe, talvez, a fibra de Zapata ou sobrou-lhe a esperteza que este não tinha), disse que não podia fazer emitir conceitos sobre as leis cubanas, mas condenou as greves de fome “a pretexto” de defesa de direitos humanos (!!!) e equiparou os presos de conciência de Cuba com os bandidos presos por crime comum nas penitenciárias brasileiras, nominadamente, as paulistas.

Enfim, contrariando o grande e saudoso mestre do Direito Orlando Gomes, que costumava usar em suas aulas a expressão “obrou bem”, Lula foi na direção inversa e obrou mal. E essa obra foi tão ruim que ele e o governo têm se esforçado na vã tentativa de atrapalhar o entendimento das pessoas a respeito. Mas já está evidente que, nessa obra, quanto mais se mexe, mais fede, como já observei em artigo anterior.

Ora, o jornalista Guillermo Farinas (jornalista em Cuba deve ser uma profissão martirizante ou vergonhosa, a depender do caráter do profissional) já realizou mais de 20 greves de fome, esteve preso três vezes e sofreu na quinta-feira um choque hipoglicêmico semelhante ao que já sofrera em 3 de março. É a chance de Lula desfazer um pouco do malfeito que praticou em relação à repressão política e aos direitos humanos em Cuba.

Pois Guillermo Fariñas qualificou Lula de “cúmplice da tirania dos Castro”. Que tal, como Jesus recomendou, Lula amar o inimigo e abraçar sua causa justa, passando a defender a libertação dos presos políticos pelos quais Fariñas está se sacrificando?

Ah, e a Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj? Não tem nada a dizer?

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 13 Março, 2010 at 12:59 #

Lula um aprendiz equivocado.

Pobre Lula I, “o antes nunca visto”, mesmo quando elege um ídolo, mesmo que com presumível desconforto, já que nutre um amor desmedido pela própria imagem, o faz de forma distraída.

Durante anos, Fidel foi cultuado no Patropi, o que sugere essa atração exercida sobre o outrora líder sindical. Acrescente-se o fascínio pela vitaliciedade no poder, o que transformou Fidel no “modelito” oportuno.

Já que ama , porque não o imita na capacidade de enrolar incautos?

Fidel é perito em discorrer longamente sobre o nada, para espanrtar quaisquer reticências contra seu reinado.

Ao contrário de Lula, não o faz com improvisos curtos, e sim com discursos de longa duração, em que a platéia adormecida compra o que não entendeu como verdade santa.

Qualquer semelhança com as alentadas laudas produzidas pelos nosso tribunais, em suas raras e sempre morosas decisões, não parece ser mera coincidência. Ao deparar-se com um mínimo de 100 laudas, recheadas de citações diversas, e sempre contraditórias, a pobre parte chega ao final, denominado “decisium’, já confortada com qualquer resultado, o que explica essa reverência acentuada até mesmo pelos cépticos jornalistas de plantão, afora os devotados focas e editores especializados.

Assim sobrevive Fidel, e seu imitador Chávez, o que parece não ter compreendido esse Lula tão afoito e fiel ao seu guru.

Perfeita assim a conclusão do autor do artigo: “Mas já está evidente que, nessa obra, quanto mais se mexe, mais fede, como já observei em artigo anterior.”

Em obra cujo objeto principal é enrolar e confundir a platéia o que vale é dissertar longamente, com inúmeras e eruditas citações, mesmo que descabidas, e jamais repeti-las, sob pena de restar nu, e em posição de total desconforto.

– Amém! Diriam os Excelsos Pretores.

Ao mais:

Tal qual na fábula, os dissidentes cubanos podem gritar sobre Lula:

– “o rei está nu!”


luiz alfredo motta fontana on 13 Março, 2010 at 13:42 #

errata

“decisium” = “decisum”

pelos nosso tribunais = pelos nossos tribunais


Jader Martins on 13 Março, 2010 at 17:08 #

Outra opinião:
Os fariseus e a dignidade

O que sabem os leitores dos diários brasileiros sobre Cuba? O que sabem os telespectadores brasileiros sobre Cuba? O que sabem os ouvintes de rádio brasileiros sobre Cuba? O que saberia o povo brasileiro sobre Cuba, se dependesse da mídia brasileira?

O que mais os jornalistas da imprensa mercantil adoram é concordar com seus patrões. Podem exorbitar na linguagem, para badalar os que pagam seu salários. Sabem que atacar ao PT é o que mais agrada a seus patrões, porque é quem mais os perturba e os afeta. Vale até dar espaco para qualquer mercenário publicar calúnias contra o Lula, para, depois jogá-lo de volta na lata do lixo.

No circo dessa imprensa recentemente realizado em São Paulo, os relatos dizem que os donos das empresas – Frias, Marinhos – tinham intervenções mais discretas, – ninguem duvida das suas posiçõoes de ultra-direita -, mas seus empregados se exibiam competindo sobre quem fazia a declaração mais extremista, mais retumbante, sabendo que seriam recolhidas pela mídia, mas sobretudo buscando sorrisinho no rosto dos patrões e, quem sabe, uns zerinhos a mais no contracheque no fim do mês.

Quem foi informado pela imprensa que há quase 50 anos Cuba já terminou com o analfabetismo, que mais recentemente, com a participação direta dos seus educadores, o analfabetismo foi erradicado na Venezuela, na Bolívia e no Equador? Que empresa jornalística noiticiou? Quais mandaram repórteres para saber como países pobres ou menos desenvolvidos conseguiram o que mais desenvolvidos como os EUA ou mesmo o Brasil, a Argentina, o México, náo conseguiram?

Mandaram repórteres saber como funciona naquela ilha do Caribe, pouco desenvolvida economicamente, o sistema educacional e de saúde universal e gratuito para todos? Se perguntaram sobre a comparação feita por Michael Moore no seu filme “Sicko” sobre os sistemas de saúde – em particular o brutalmente mercantilizado dos EUA e o público e gratuito de Cuba?

Essas empresas privadas da mídia fizeram reportagens sobre a Escola Latinoamericana de Medicina que, em Cuba, já formou mais de cinco gerações de médicos de todos os países da América Latina e inclusive dos EUA, gratuitamente, na melhor medicina social do mundo? Foi despertada a curiosidade de algum jornalista, econômico, educativo ou não, sobre o fato de que Cuba, passando por grandes dificuldades econômicas – como suas empresas não deixam de noticiar – não fechou nenhuma vaga nem nas suas escolas tradicionais, nem na Escola Latinoamericana de Medicina, nem fechou nenhum leito em hospitais?

Se dependesse dessas empresas, se trataria de um regime “decrépito”, governado por dois irmãos há mais de 50 anos, um verdadeiro “goulag tropical”, uma ilha transformada em prisão.

Alguém tentou explicar como é possivel conviver esse tipo de sociedade igualitária com a base naval de Guantánamo? Se noticiam regularmente as barbaridades que ocorrem lá, onde presos sob simples suspeita, são interrogados e torturados – conforme tantas testemunhas que a imprensa se nega em publicar – em condições fora de qualquer jurisdição internacional?

Noticiam que, como disse Raul Castro, sim, se tortura naquela ilha, se prende, se julga e se condena da forma mais arbitrária possível, detidos em masmorras, como animais, mas isso se passa sob responsabilidade norteamericana, desse mesmo governo que protesta por uma greve de fome de uma pessoa que – apesar da ignorância de cronistas da família Frias – não é um preso, mas está livre, na sua casa?

Perguntam-se por que a maior potência imperial do mundo, derrotada por essa pequena ilha, ainda hoje tem um pedaco do seu territorio? Escandalizam-se, dizendo que se “passou dos limites”, quando constatam que isso se dá há mais de um século, sob os olhos complacentes da “comunidade internacional”, modelo de “civilização”, agentes do colonialismo, da escravidão, da pirataria, do imperialismo, das duas grandes guerras mundiais, do fascismo?

Comparam a “indignação” atual dos jornais dos seus patrões com o que disseram ou calaram sobre Abu-Graieb? Sobre os “falsos positivos” (sabem do que se trata?) na Colômbia? Sobre a invasao e os massacres no Panamá, por tropas norteamericanas, que sequestraram e levaram para ser julgado em Miami seu ex-aliado e então presidente eleito do país, Noriega, cujos 30 anos foram completamente desconhecidos pela imprensa? Falam do muro que os EUA construíram na fronteira com o México, onde morre todos os anos mais gente do que em todo tempo de existência do muro de Berlim? A ocupação brutal da Palestina, o cerco que ainda segue a Gaza, é tema de seus espacos jornalisticos ou melhor calar para que os cada vez menos leitores, telespectadores e ouvintes possam se recordar do que realmente é barbarie, mas que cometida pela “civilizada” Israel – que ademais conta com empresas que anunciam regularmente nos orgãos dessas empresas – deve ser escondida? Que protestos fizeram os empregados da empresa que emprestou seus carros para que atuassem os servicos repressivos da ditadura, disfarçaados de jornalistas, para sequestrar, torturar, fuzilar e fazer opositores desaparecerem? Disseram que isso “passou de todos os limites” ou ficaram calados, para não perder seus empregos?

Mas morreu um preso em Cuba. Que horror! Que oportunidade para bajular os seus patrões, mostrando indignação contra um país de esquerda! Que bom poder reafirmar diante deles que se se foi algum dia de esquerda, foi um resfriado, pego por más convivências, em lugares que não frequentam mais; já estão curados, vacinados, nunca mais pegarão esse vírus. (Um empregado da família Frias, casado com uma tucana, orgulha-se de ter ido a todos os Foruns Econômicos de Davos e a nenhum Fórum Social Mundial.
Ali pôde conhecer ricaços e entrevistá-los, antes que estivessem envoldidos em escândalos, quebrassem ou fossem para a prisão. Cada um tem seu gosto, mas não dá para posar como “progressista”, escolhendo Davos a Porto Alegre.)

Não conhecem Cuba, promovem a mentira do silêncio, para poder difamar Cuba. Não dizem o que era na época da ditadura de Batista e em que se transformou hoje. Não dizem que os problemas que têm a ilha é porque não quer fazer o que fez o darling dessa midia, FHC, impondo duro ajuste fiscal para equilibrar as finanças públicas, privatizando, favorecendo o grande capital, financeirizando a economia e o Estado. Cuba busca manter os direitos universais a toda sua população, para o que trata de desenvolver um modelo econômico que não faça com que o povo pague as dificuldades da economia. Mentem silenciando sobre o fato de que, em Cuba, não há ninguem abandonado nas ruas, de que todos podem contar com o apoio do Estado cubano, um Estado que nunca se rendeu ao FMI.

Cuba é a sociedade mais igualitária do mundo, a mais solidária, um país soberano, assediado pelo mais longo bloqueio que a história conheceu, de quase 50 anos, pela maior potência econômica e militar da história. Cuba é vítima privilegiada da imprensa saudosa do Bush, porque se é possivel uma sociedade igualitária, solidária, mesmo que pobre, que maior acusação pode haver contra a sociedade do egoísmo, do consumismo, da mercantilizacao, em que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra?

Como disse Celso Amorim, o Ministro de Relações Exteriores do Brasil: os que querem contribuir a resolver a situação de Cuba tem uma fórmula muito simples – terminem com o bloqueio contra a ilha. Terminem com Guantanamo como base de terrorismo internacional, terminem com o bloqueio informativo, dêem aos cubanos o mesmo direito que dão diariamente aos opositores ao regime – o do expor o que pensam. Relatem as verdades de Cuba no lugar das mentiras, do silêncio e da covardia.

Diante de situações como essa, a razão e a atualidade de José Martí:

“Há de haver no mundo certa quantidade de decoro,
como há de haver certa quantidade de luz.
Quando há muitos homens sem decoro, há sempre outros
que têm em si o decoro de muitos homens.
Estes são os que se rebelam com força terrível
contra os que roubam aos povos sua liberdade,
que é roubar-lhes seu decoro.
Nesses homens vão milhares de homens,
vai um povo inteiro,
vai a dignidade humana…

Postado por Emir Sader às 05:03


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos