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Posted on 12-03-2010
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 12-03-2010

O traço crítico de Glauco

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Claudio Leal

Quando morrem, os humoristas não merecem ir para o céu. Assassinado junto com o filho, Raoni, na madrugada desta sexta-feira, em Osasco (SP), o cartunista Glauco Villas Boas inviabilizou seu passaporte para o lugar-comum dos vertebrados: era impertinente, livre, subversivo e de oposição. Olhando bem, nesta República poucos justificam os quatro carimbos. Não confundir um humorista com os piadistas e os imitadores anedóticos. Estes são aceitos em qualquer festa. Os humoristas, em seus confrontos de Oscar Wilde, Dorothy Parker ou Millôr Fernandes, não gozam descanso terreno ou eterno.

Sem coincidência, Glauco se hospedou por nove meses no lendário apartamento de Henfil na rua Itacolomi, em São Paulo, nos anos 70. Esse encontro de fradins e geraldões insinuava um ritual de passagem do humor do “Pasquim” para o da geração de craques como Laerte, Angeli e Glauco. Não havia admiração pacífica. A agilidade do traço de Henfil, quase “caligráfico” – como destacava Jaguar -, e a liberdade no uso do espaço do cartum contagiaram “Los 3 Amigos”. “Estou falando com Deus, pensava, quando conheci o Henfil. Os Fradinhos, aquele traço todo solto, o uso do palavrão – o trabalho dele era um avanço muito grande”, declarou numa entrevista.

Mas o que o distanciava do mestre era justamente o que determinaria a personalidade artística de Glauco: o impulso dessacralizador da política. A partir de 1977, iniciou sua colaboração com a “Folha de São Paulo”, no momento em que o humor vivia o conflito entre a militância e a contestação da esquerda. Ele reduzia a República a seus elementos mais infantis, para revelar o nonsense de engravatados e congêneres. Fernando Henrique Cardoso, papada e tremedeiras de intelectual da primeira infância. Lula, charuto híbrido de sindicalista e líder plenipotenciário. Os gestos infantis são, óbvio, fundadores do ser humano. E Glauco descascava as pompas dos políticos brasileiros até deixá-los montados num cavalinho. Não parece o Arruda num carrossel?

Suas charges (“cartuns editoriais!” – bradaria o humorista Osmani Simanca), na página de Opinião da “Folha”, vibravam nesse Olimpo dos palpiteiros do jornalismo (sempre revestidos de uma gravidade que não se ajusta à nossa esquina). A surpresa da caricatura nascia do movimento, dos nervos. Geraldinho e Geraldão, Dona Marta, Zé do Apocalipse e Doy Jorge se metem em tumultos vários, alguns deles animalescos – em diálogo e traço. Glauco banqueteou-se com o budismo, Carlos Castañeda, Osho e o Santo Daime. Agora vemos que tinha uma clarividência corrosiva. No desassossego com a notícia de sua morte, a última tirinha da Dona Marta desconcerta por enquadrar a violência:

“- Chefinho tenso… Vou fazer uma massaginha…

– Experimenta! (Clic! Revólver apontado)

– Experimento, fica bem quietinho! (Fuzil na nuca).”

Glauco morreu aos 53 anos, em sua casa. Quatro tiros no (nosso) peito. Os deuses dos grandes humoristas costumam falhar. E ouvimos Geraldão, no quadrinho final: Mãe, que merda!

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Posted on 12-03-2010
Filed Under (Multimídia) by vitor on 12-03-2010


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“Canção do Novo Mundo”, de Beto Guedes, na voz de Milton Nascimento, é a música para começar o dia no Bahia em Pauta. Vai em memória do cartunista Glauco, assassinado por assaltantes que também mataram seu filho Raoni, na madrugada desta sexta-feira, em Osasco (SP).

Mais um rei morto por um canalha em menos de um segundo. Até quando?

(Vitor Hugo Soares)

Em seu artigo desta sexta-feira na Tribuna da Bahia o colunista político Ivan de Carvalho comenta o pedido de licença do PV apresentado pelo baiano ministro da Cultura, Juca Ferreira, para assim ficar mais à vontade dentro do governo Lula e poder apoiar a ministra Dilma Rousseff (PT) em lugar da candidata de seu partido à presidencia da República, Marina Silva, a quem Juca dirigiu duras críticas, com sobras também para o deputado Luis Bassuma, candidato Verde a governador da Bahia. Esta posição de Juca Ferreira contraria a decisão da direção nacional do PV e da Coordenação da campanha de Marina Silva, assinala Ivan, no texto que Bahia em Pauta reproduz.
(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA

SEM DANO À CULTURA

Ivan da Carvalho

Como ministro da Cultura, o baiano Juca Ferreira foi um bom vereador em Salvador.

Porque, como integrante de proa do Partido Verde, não se mostra agora um bom ministro da Cultura.

O que deve fazer um bom ministro da Cultura? Além de exercer correta e diligentemente as funções de seu cargo – não me considero habilitado para julgar se ele faz isso ou não – deve dar o bom exemplo em todas as suas atitudes, principalmente as públicas, assim colaborando com a cultura, no caso, política, do país.

E o que faz Juca Ferreira? Sendo do PV “desde criancinha”, discorda da candidatura de seu partido a presidente da República, que lançou a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva para a sucessão de Lula, e anuncia seu apoio à candidata de Lula e do PT a presidente, Dilma Rousseff.

Tendo seu berço político na Bahia, tentou quebrar lanças (não conseguiu) para que o PV baiano apoiasse a candidatura do governador Jaques Wagner, do PT, à reeleição, defendendo que o PV não tivesse em nosso estado um candidato próprio a governador. Esta posição de Juca Ferreira contraria a decisão da direção nacional do PV e da Coordenação da campanha de Marina Silva, que fixaram a estratégia político-eleitoral de os verdes terem candidato a governador em todos os estados, menos no Acre, que é o estado representado por Marina Silva no Senado.

Por convicções pessoais ou por motivações políticas ou até, muito mais provavelmente, por ambas as coisas, rebelou-se contra a maioria do PV da Bahia, a direção nacional e o coordenador-geral da campanha de Marina Silva, Alfredo Sarkis, por tomarem e até formalizarem a decisão de lançar para governador da Bahia a candidatura do deputado federal Luiz Bassuma, expulso do PT (o que o levou a ingressar no PV) por sua oposição à liberação do aborto e sua atividade como presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Vida – Contra o Aborto.

Juca Ferreira tem afirmado publicamente que alguém assim é “conservador”, donde se poderia concluir que a liberação para a matança de criancinhas, seres humanos inocentes e indefesos ainda no ventre de suas mães, é “progressista”, uma evolução cultural à qual exige o incentivo de um ministro da Cultura. Além de que o PT, partido de Dilma Rousseff, segundo decisão tomada em seu terceiro Congresso, formalizou decisão a favor da descriminalização do aborto, decisão esta com que justificou a expulsão de Bassuma.

Estando agora na oposição e com candidatura a presidente concorrendo com a candidatura apoiada pelo governo, o PV pediu ao ministro Juca Ferreira e outros eventuais verdes que saiam de seus cargos de confiança no governo federal. O ministro resolveu ficar e comunicou ao PV sua licença ou suspensão deste partido pelo período de um ano. E anunciou o apoio a Dilma.

Fico extremamente surpreso que o PV não haja, pelo menos até agora, liberado o ministro de vez, cancelando-lhe a filiação, para que possa entrar no PT (ou outro partido do aglomerado governista), onde estará mais à vontade para apoiar Dilma Rousseff e o governador Jaques Wagner sem causar nenhum dano à cultura política nacional, tão necessitada de bons exemplos e coerência.

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Posted on 12-03-2010
Filed Under (Newsletter) by vitor on 12-03-2010

Glauco: vítima da estupidez

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O cartunista Glauco Villas Boas, de 53 anos, morreu na madrugada de hoje após ser baleado durante uma suposta tentativa de assalto na Estrada Alpina, no bairro Jardim Santa Fé, em Osasco, na Grande São Paulo, segundo informações preliminares da Polícia Militar (PM). De acordo com o Hospital Albert Sabin, o cartunista deu entrada no pronto-socorro por volta da 0h30 e morreu cerca de meia hora depois. O filho dele, Raoni, de 25 anos, também foi atingido pelos disparos e morreu a caminho do hospital.

O crime aconteceu por volta de meia-noite. O caso foi registrado no 10º Distrito Policial de Osasco e os corpos do cartunista e do filho já foram encaminhados para o Instituo Médico Legal (IML) da cidade. Ninguém foi preso.

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