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Postado em 06-03-2010
Arquivado em (Artigos, Multimídia, Rosane) por vitor em 06-03-2010 22:48


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De volta ao Carnegie Hall

Rosane Santana

A morte de Jonny Alf, aos 80 anos, na última semana, levou-me de volta aos Estados Unidos, país onde a bossa nova ocupa lugar de destaque nas programações diárias de rádios locais, com execuções de várias composições que marcaram o movimento e onde artistas como Tom Jobim e João Gilberto ocupam lugar de honra no concorrido mercado de jazz. Mais do que isso, são absolutamente populares, de tal forma que, até hoje, é quase impossível para um músico brasileiro ingressar no mercado americano com outra batida que não seja bossanovista.

Isso acontece, por exemplo, com nomes como Milton Nascimento e Caetano Veloso, que tive a oportunidade de ouvir algumas vezes na prestigiosa National Public Radio (NPR), enquanto passeava à noite pelas ruas de Boston, no verão, sentindo a brisa que vinha do Charles River – o rio que corta a cidade. Emoção indescritível. A exceção é Roberto Carlos, cantor com influências gilbertianas, que pode ser encontrado, com certa facilidade, em lojas de discos, por causa do grande contingente de imigrantes hispânicos, entre os quais é bastante popular. É muito conhecido também entre intelectuais americanosna Universidade de Harvard.

Lembro Caetano, em um dos seus momentos mais proféticos: “Será que apenas os hermetismos pascoais, e os tons, os mil tons e seus sons e seus dons geniais, nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais…?” (Podres Poderes, 1984) Verdadeiramente, a Bossa Nova é onde o Brasil é Primeiro Mundo. Em 22 de junho de 2008, cobri para Terra Magazine, em primeira mão para o Brasil, a antológica estréia do show 50 Anos da Bossa Nova, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, quando João Gilberto foi ovacionado por uma platéia de americanos (atenção, não era o Brazilian Day!).

Vi socialities americanas, como a ambientalista novaiorquina Allegra Levanne ,esperar, durante quase duas horas, a saída do cantor daquela casa de espetáculos, para conseguir um autógrafo do artista no CD Getz/Gilberto que tinha nas mãos- clássico da bossa nova que vendeu mais de um milhão de cópias em meados dos sixties. Antes, já havia assistido músicos cantarem bossa nova ,”nos bares da vida, em troca de pão”, e a execução de Garota de Ipanema pela Orquestra Sinfônica de Boston, quando chorei.

Americanos costumam prestigiar seus ídolos. Gigantes do jazz como Miles Davis e Stan Gets, entre outros, não saem de cartaz, como se fossem artistas vivos e continuassem a produzir. Frank Sinatra, Beatles, Jimi Hendrix, Jean Joplin, Elvis Presley, entre outros que deixei de citar, também não saem da moda. Suas músicas são executadas diariamente à exaustão, em rádios americanas. Seus discos são encontrados em qualquer loja especializada.

Agora pergunto: o que faz um músico da grandeza de Johnny Alf, no Brasil, ser lembrado apenas em sua morte? O que faz um movimento como a bossa nova ser praticamente esquecido, a não ser entre platéias mais requintadas e amantes do estilo? O nosso subdesenvolvimento, respondo, embora possa parecer arrogante na resposta. Canções como “Eu e a Brisa” e “Ilusão à toa”, são obras-primas, que poderiam constar em qualquer antologia da música universal. Esta última, nas interpretações de Johnny Alf e Fafá, ela absolutamente surpreendente, embora com em tom a la Nelson Gonçalves, e no dueto de Elis e Gal, são puro êxtase.

À propósito, quando deixava o Carnegie Hall, em Nova Iorque, na noite de 22 de junho de 2008, após a estréia internacional do show comemorativo dos 50 anos da Bossa Nova, João Gilberto interrompeu bruscamente uma entrevista, quando um repórter da TV Record perguntou se a Bossa Nova poderia ser considerada MPB, depois de 50 anos.
Retratos do Brasil.

Rosane Santana é jornalista, mestre em Hisdtória pela UFBA, acaba de retornar de Boston, onde passou tr~es anos estudando em Harvarda.Está em São Paulo.

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