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Postado em 05-03-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 05-03-2010 14:33

Bira Castro: ataque a Ubaldo em defesa da ponte

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DEU EM TERRA MAGAZINE

Guilherme Lopes
Especial de Salvador (BA)

Alvo de críticas do romancista baiano João Ubaldo Ribeiro, o projeto da megaponte Salvador-Itaparica tem causado, nas últimas semanas, discussões acaloradas entre urbanistas, arquitetos, membros do governo baiano (entre eles o próprio governador, o petista Jaques Wagner) e intelectuais brasileiros.

Ontem, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (FAU-UFBA) protagonizou mais um capítulo da contenda entre defensores e opositores da obra ao promover o debate “Ponte de Itaparica – Alternativa para qual desenvolvimento?”.

Na mesa estavam o Superintendente de Planejamento Estratégico da Secretaria do Planejamento da Bahia (Seplan), Paulo Henrique de Almeida, o historiador ligado ao Partido dos Trabalhadores e diretor da Fundação Pedro Calmon, Ubiratan Castro de Araújo, o professor da FAU-UFBA Paulo Ormindo de Azevedo e o arquiteto Carl von Hauenschild. Na platéia, público suficiente para ocupar todas as cadeiras e corredores e ainda deixar alguns estudantes do lado de fora, à espera de lugares vagos.

Paulo Henrique de Almeida abriu o debate. Amparado em slides projetados em um telão, com fotos de pontes grandiosas construídas na última década (a lisboeta Vasco da Gama em seus 17km), o governista afirmou que, com a opção por expandir o litoral norte baiano ocorrida na década passada, “a Cidade Baixa, o subúrbio ferroviário e as ilhas ficaram completamente abandonados”, o que criou problemas para a integração da região à economia baiana e, consequentemente, à geração de renda.

Segundo Almeida, a ponte, usada como alternativa de ligação entre Salvador e o interior do estado, facilitaria também a integração de Itaparica à região metropolitana da capital. Esse é justamente um dos pontos mais criticados pelos opositores do projeto, que defendem a preservação das belezas naturais e históricas da Ilha.

Almeida sustentou que o Ferryboat, sistema de transporte marítimo Salvador-Itaparica, não tem como dar conta do tráfego da capital para o sul do Estado, principalmente por sua “sazonalidade”. “O ferry, quando foi implantado, em 1972, não foi pensado para funcionar como vetor de transporte de massa. E o aumento da frota não é uma saída porque o sistema opera com sazonalidade. Durante a baixa estação, as emb arcações ficam ociosas”, apontou.

“Ponte matará polos econômicos”

Contrário à construção da ponte, o professor Paulo Ormindo apontou o que para ele é o maior problema do projeto: aumentar a centralidade da capital baiana. Ormindo acredita que a ponte bilionária vai concentrar as atividades econômicas da Bahia em Salvador, “matando os polos que começam a surgir no interior, como a pequena industrialização de Santo Antônio de Jesus” (cidade ao sul, a 100km da capital via ferryboat).

Segundo ele, outro aspecto negativo seria a centralização dos serviços públicos na capital. “Semelhante ao que ocorre hoje: a população da região metropolitana vem a Salvador para ter acesso à saúde e outros serviços. A capital irá bancar os serviços públicos para toda a região, que não têm serviços suficientes, sendo que Salvador também não tem como sustentar serviço para sua população atualmente”, afirmou.

Também contrário à ponte, o arquiteto Carl von Hauenschild questionou a necessidade de expansão da RMS no sentido sul. “Nós criaremos um funil ao obrigar todo o transporte sentido sul que sair da cidade a passar pela ponte, quando há espaço à vontade para Salva dor crescer nos municípios da Região Metropolitana”, afirmou. Segundo dados do IBGE de 2009, dos 3,86 milhões de habitantes da RMS, 3 milhões moram em Salvador (77% do total), que só tem 707 km² dos 4.375 de toda a região (16% do território).

Hauenschild criticou a “falta de plano de desenvolvimento para a Baía de Todos-os-Santos”. Ele acusou a idealização a ponte de ser uma obra pontual, “desconectada” de uma “idéia maior” de desenvolvimento da região. Como exemplo, o arquiteto citou o desenvolvimento da infraestrutura portuária no Estado. “Desde o final dos anos 80 chamamos a atenção de que a Bahia não tem um plano de desenvolvimento portuário. E agora vamos de novo deixar as ações para desenvolvedores privados, sem o governo pensar”, atacou.

Historiador governista mira João Ubaldo

O único a comentar a opinião de João Ubaldo Ribeiro durante o debate foi Ubiratan Castro, que tem sido considerado um intelectual “porta-voz” do governo de Jaques Wagner. Defensor da ponte por considerar que a obra poderá facilitar o acesso da população da ilha e do oeste do Recôncavo aos serviços da capital, o historiador não poupou críticas ao conterrâneo, mesmo sem citar seu nome. “(A partir dos anos 70) a região de Itaparica, que já teve uma pujante economia, ficou reduzida a local de veraneio, com nativos indigentes procurando um servicinho na casa do Barão que vai veranear, ou do escritor que vai se lembrar de sua infância. Eu acho que o escritor tem direito a lembrar de sua infância, mas não tem direito a mobilizar uma população na miséria e na pobreza para que lhe sirva de inspiração para fazer romances”, disparou.

Esse tem sido o tom de outros contra-ataques dos petistas. Rusgas à parte, o historiador considera que a Bahia tem condições de fazer uma ponte, preservando o patrimônio histórico e artístico existente na cidade colonial, pois “na Bahia tem Iphan e Ipac”. Os dois órgãos vem recebendo críticas de urbanistas e intelectuais por liberarem obras polêmicas em Salvador.

A ponte

Com um orçamento previsto inicialmente em R$ 2 bi, a ponte entre Salvador e Itaparica atravessaria a Baía de Todos-os-Santos e seria parte de um novo sistema viário a ser implantado na região oeste do Recôncavo.

Além do escritor João Ubaldo – nascido na Rua do Canal, número um, em Itaparica -, vários intelectuais brasileiros já se posicionaram contra a imposição da obra sem debates com os baianos – os signatários, Luis Fernando Verissimo, Chico Buarque, Cacá Diegues, Milton Hatoum, Ricardo Cravo Albin, Emanoel Araújo, Monique Gardenberg, Sonia Coutinho, Jomard Muniz de Britto, Hélio Pólvora, Edson Nery da Fonseca, Sebastião Nery, Walter Queiroz Júnior, Jerusa Pires Ferreira, Hélio Contreiras, Aninha Franco, Fernando da Rocha Peres e Ruy Espinheira Filho. Todos eles assinaram o manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”, em resposta ao artigo “Adeus, Itaparica”, um libelo de João Ubaldo contra a destruição do paraíso ecológico.

No último mês de janeiro, o governo da Bahia abriu um Procedimento de Manifestação de Interesse para a construção da ponte e do novo sistema viário. Duas empreiteiras, a Odebrecht e a OAS já declararam interesse em realizar a obra, e devem entregar os estudos iniciais até o dia 14 de março. Caso seja efetivado o interesse do estado, a Seplan prevê novos estudos e abertura de licitação no ano que vem. A OAS manifestou ainda o desejo de construir condomínios fechados na parte central de Itaparica, em zona rodeada por mata atlântica.

Atualmente, a Ilha conta com uma população de 58 mil habitantes que, apesar de em sua maioria considerar o lugar tranquilo, se deparam nos últimos meses com um aumento dos casos de violência, especialmente os ligados ao tráfico de drogas oriundo de Salvador. Outro problema recorrente da ilha é o acesso por ferryboat ou “lanchas” (barcos de madeira que a cada meia hora partem do centro de Salvador), notadamente insuficientes para atender a demanda de veranistas durante a alta estação.

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