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Postado em 27-02-2010
Arquivado em (Artigos, Multimídia, Vitor) por vitor em 27-02-2010 00:18

Velório de Orlando Zapata Tamayo

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Raul Castro e Lula em Havana

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A nostalgia comovente de Célia Cruz

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ARTIGO DA SEMANA

NOSTALGIA DE HAVANA

Vitor Hugo Soares

Das caixas de som do computador explode a voz potente e marcante da cantora cubana Célia Cruz. No vídeo do YouTube ela interpreta pela enésima vez com a mesma força e o mesmo sentimento de sempre – pouco antes da partida definitiva – a dor de seu interminável exílio e da saudade que a distância de Havana lhe provoca. Algumas vezes, antes de morrer, ela disse ser esta uma das preferidas de seu repertório imenso e repleto de muitas das mais belas canções da América Latina: “Nostalgia Habanera”.

Traduzo para o leitor os versos que escuto em castelhano da letra do fabuloso bolero: “Sinto a nostalgia de voltar a ti, mas o destino manda que não pode ser/ Minha Havana, minha terra querida, quando eu poderei voltar a ver-te?… Eu não sei se voltarão aqueles tempos/ de quando eu procurava a tua lua no céu do Malecón?”.

Para Célia Cruz – ela deixou Cuba quando o regime do comandante Fidel Castro começou a entrar pelos primeiros desvios -, aqueles dias com os quais ela sonhava no bolero inolvidável não voltaram. Nem ela retornou a sua Havana querida, sequer a passeio. Morreu em Nova Jérsei, exilada nos Estados Unidos, aos 78 anos de idade e de muito sucesso no mundo inteiro, incluindo o Brasil, que visitou muitas vezes.

Para outro dissidente, Orlando Zapata Tamayo – “negro cubano, bom filho, operário, pobre, e valente cidadão a vida inteira”, como destacou esta semana sua mãe Reina Tamayo repetidas vezes com dor e orgulho – o destino parece ter sido mais cruel. Tamayo, de pouco mais de 40 anos, que preferiu ficar e gritar o seu protesto entre Olguin e Havana, também perdeu para sempre a lua do Malecón: o recanto poético e de histórica beleza na capital cubana pelo pôr-do-sol e pelas noites enluaradas.

Depois de cumprir 7 anos de cárcere dos 30 a que havia sido condenado por crime político de “desobediência civil” – com seguidas denúncias de maus tratos a ele e a mais de uma centena de “prisioneiros de consciência” – Zapata Tamayo morreu na última terça-feira, depois de 85 dias de uma greve de fome.

Após denúncias de grupos de defesa dos direito humanos, incluido a Anistia Internacional- AI, o preso foi levado às pressas para um hospital de Havana e colocado em tubos de soro contra a sua vontade. Mas já era tarde demais.

Célia Cruz pára de cantar e saio da frente do computador para passar água nos olhos vermelhos, provavelmente por causa de algum desses ciscos irritantes que nessas horas insistem em incomodar. De volta sigo no vício de todo blogueiro: navego por Havana e pelo mundo, via Internet, para observar reações diante do que acontece nestes dias mais nostálgicos que nunca em Cuba.

O país governador pelos irmãos Castro, como escuto em algumas entrevistas de rádio e TV mundo afora, ou nas páginas dos jornais nas edições online, que começam a noticiar a morte do preso político. Principalmente nos veículos de Madri, Paris, Londres, Nova Iorque e Lisboa.

Por aqui, como de hábito, notícias como esta, principalmente sua contextualização e repercussões sempre demoram mais a chegar, sabe-se lá porque cargas d’água. Mesmo quando o fato acontece no mesmo dia em que desembarca em Havana em “viagem de amizade e solidariedade ao governo e ao povo de Cuba”, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de comitiva repleta de jornalistas de diferentes órgãos de comunicação, incluindo os oficiais.

Nos jornais do dia seguinte lá está a imagem dos sorrisos do presidente Lula em visita ao não menos sorridente comandante Fidel Castro, aparentemente vendendo saúde, depois da grave doença que o afastou do comando direto do País, transferido ao irmão Raúl. No encontro com Fidel, nenhuma palavra para publicação sobre a morte de Orlando Tamayo.

Mas fatos com tal gravidade cobram responsabilidades e explicações de governantes, principalmente nas circunstâncias dolorosamente trágicas da morte de Tamayo, e de sua forte repercussão mundial. Ainda mais quando está de visita a Havana um personagem simbólico das lutas e dos governos democráticos do continente – o presidente Lula. Ele formalmente lamenta a morte do preso, embora afirme não entender como ainda hoje alguém “se deixa morrer em uma greve de fome”, tipo de protesto que condena agora por já ter feito antes: “Por experiência própria”, como ressalta na entrevista mostrada de Cuba no Jornal Nacional, na TV Globo.

As imagens da americana CNN, no entanto, são mais contundentes. Mostram Raúl Castro em seu discurso gritado e nervoso – marcados pelos rictos de violência no rosto, e arrogância ameaçadora nos gestos mal contidos – tentando explicar a Lula ao seu lado e ao mundo inteiro, “que em Cuba ninguém morre por maus tratos”. A imagem do presidente do Brasil, na CNN, também é impressionante, por outro motivo: Visivelmente constrangido, Lula parece indeciso: não sabe se ri ou se chora diante do discurso patético do amigo e colega Raúl”.

Volto à voz de Celia Cruz, em “Nostalgia Habanera”: “Havana, quanto desejo voltar e ver tuas praias/ Havana, e voltar a ver tuas ruas a sorrir/ Havana, apesar da distância não te esqueço/ Havana, por ti sinto a nostalgia de voltar”. E o soluço saudoso, melancólico e emblemático do final: “Havana!”.

O cisco no olho volta a incomodar e desligo o computador.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Ivan de Carvalho on 27 Fevereiro, 2010 at 1:41 #

Parabéns pelo artigo, Vitor. Você disse tudo que cabia dizer a quem ama a liberdade e defende os direitos fundamentais do ser humano. Isto sobreviverá.
O lixo da História ficará para trás um dia.
Ivan


luiz alfredo motta fontana on 27 Fevereiro, 2010 at 8:42 #

Um cisco poético

Caro VHS, textos como este só podem fluir quando o autor tem no olhar um misto de dor e poesia.

O significado vai além do relato dos fatos, rompe a inércia que habitualmente nos abriga quando defrontamos com a tragédia repetida, ousa dividir o marejar, e transforma o mero atp de ler em compreensão da utopia.

Guiimarães Rosa, sentenciou: – “viver é perigoso”. Que o digam as marcas de desencanto, afinal como ecoa a canção: “Eu não sei se voltarão aqueles tempos/ de quando eu procurava a tua lua no céu do Malecón?”


Olivia on 27 Fevereiro, 2010 at 9:00 #

Definitivamente, só a música salva! Belíssimo e comovente artigo. Ponto final.


janio on 27 Fevereiro, 2010 at 9:50 #

Vitor, querido, é por isso que eu te chamo de mestre.


Mariana Soares on 27 Fevereiro, 2010 at 13:15 #

Beleza pura, meu irmão, o seu artigo de hoje! Não só a música, mas a sensibilidade para sentir as dores do mundo e delas fazer uma bandeira de combate e um caminho de luta, sempre acompanhada de uma over dose de amor, é o que, sem dúvida, pode nos salvar de todo o horror que nos cerca. Parabéns!


Graça Tonhá on 27 Fevereiro, 2010 at 23:08 #

Vitor: Parabéns por mais um belo e oportuno artigo. Grande abraço


Rubens Neuton on 27 Fevereiro, 2010 at 23:15 #

Vitor,
Não dá para assistir sem indignação, sobretudo a nossa geraçâo, aos “desvios” do regime cubano e o pior, ao aval comprometedor de ex-defensores da liberdade e dos direitos humanos. Seja aonde for, a violação desses valores tem que ser contestada e repudiada.
Parabéns pela sensatez, coerência e sensibilidade do seu artigo.


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