fev
24
Postado em 24-02-2010
Arquivado em (Artigos, Gilson, Multimídia) por vitor em 24-02-2010 22:51


=================================================

CRÕNICA / BAHIAS

FAZENDO FÉ

Gilson Nogueira

No mês passado, voltando da Colina Sagrada, no dia da Lavagem do Bonfim, vi dois siris jogando bola. É brincadeira. Eram, na verdade, dois rapazes fazendo de conta que sabiam jogar capoeira! O local, parte baixa do Elevador Lacerda. Observei, também, um terceiro entrando na parada para evitar que a idéia deles acabasse em briga. Foi fácil apartar o grandalhão que pisava forte no chão, depois de recolher a perna comprida, ameaçando uma “benção” enganadora no seu “oponente”. De capoeirista o grandalhão não tinha nada. Ele queria aparecer, imaginei, enquanto bebia água de coco gelada para amenizar o calor de verão.

Faltava-lhe, sobretudo, a espinha mole, um dos atributos que identificam quem entende do riscado que o saudoso Mestre Pastinha ensinou a milhares de baianos na capital do berimbau. O respeito a si e ao próximo são um dos mandamentos que ficaram gravados na memória dos que juraram obediência aos conselhos que ele, O Pai da Capoeira Angola, lhes deu e que, por essas e outras, podem – e devem – ser respeitados – e aplaudidos- como verdadeiros discípulos do saudoso Manoel dos Reis Machado, o inesquecível Pastinha, ex-marinheiro, que os tinha como verdadeiros filhos, continuadores de seus ensinamentos iluminados.

Aos que pensavam aprender capoeira, na sua academia, localizada em um velho casarão do Pelourinho, hoje restaurante-escola, do Senac, o velho Pastinha alertava: Não era com ele que iriam obter diploma para baixar o cacete em deus e o mundo. Capoeira não era isso. Para o Papa da Capoeira Angola, no Brasil, tratava-se, sobretudo, de arte, prática sagrada, religião

E o som da pisada do sujeito alto e forte no asfalto, naquela quase porrada, intensifica-se, na cabeça, lembrando o dos coturnos atrás de estudantes nos idos das nuvens de chumbo, em Salvador. Ela tinha ginga de mágico barato, calculei. Ou melhor, de enganador do povo, desses que parecem, mas, não são. Brasília está cheio deles, denorex da política.

A caminho de casa, ocorreram-me lembranças da cidade de Salvador que o tempo não apagou, como acontece com músicas que o incansável pesquisador da MPB Perfilino Neto faz desfilar no seu programa, na Rádio Educadora da Bahia, Memórias do Rádio, a partir das dez horas da noite. Um das recordações, o Carnaval de Ontem, que me faz chorar ” pedacinhos coloridos de saudade”. O que acabou de ser visto, nas ruas da província , é, simplesmente, como a capoeira do grandalhão que maltratava a cultura baiana, uma mentira. Esta, eletrizada. Não tinha confetis. Nem serpentinas. Só as que Waltinho Queiroz testemunhou sendo atiradas nos ombros de uma foliã desiludida e que, ao final da festa, deu-se por recompensada com o cupido de papel.

Desejoso em citar o que o mestre Gildo Alfinete escreveu, como dedicatória, no livro Pastinha, da Coleção Gente da Bahia, da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, redigido pelos jornalistas José de Jesus Barreto e Otto Freitas, afirmo: é urgente intensificar-se o rigor da fiscalização dos mestres e órgãos competentes (?) para o jogo de “capoeiristas de araque” que visam , apenas, parece, pelos relatos ouvidos, de gente de fora e daqui, arrecadar, muitas vezes com agressividade, dinheiro de turistas incautos, praticando um esporte fora dos padrões ensinados nas academias.

Ah, Gildo Alfinete, um dos seguidores da Religião Angola, fiel escudeiro da obra do eterno Pastinha, anotou, no belo livro: “ As águas do mar são fortes e o vento tem seu poder / quem anda com Deus nada pode acontecer / Na Bahia tem petróleo, tem cacau e tem dendê, tem Capoeira Angola para eu me defender / Você joga pelo alto, eu jogo pelo chão, na roda da Capoeira todos nós somos irmãos.” Por último, emocionou-me, um pouco mais: “

“Você é um amigo irmão, você é gente da gente, acredite, faça fé. Mestre Gildo Alfinete.” É bondade sua, parceiro. Saravá!

Gilson Nogueira é jornalista
=====================================================

Be Sociable, Share!

Comentários

Cida Torneros on 25 Fevereiro, 2010 at 10:22 #

Oi Gilson
seus textos me informam e me emocionam, sempre. obrigada. a propósito, estarei em Salvador na Semana Santa, gostaria de rever velhos amigos e abraçar os novos como vc. se estiver na terrinha, nos comunicamos, ok? e se eu puder assistir a uma boa “capoeira”, me informe onde tem, da boa que eu não posso perder!
beijos amigos e bem cariocas!
Cida


joubert on 3 setembro, 2010 at 16:39 #

Oi, sou de Porto Alegre!!

entra em contato comigo se for possivel… obrigadooo!!


Paulo Gonçalves on 14 setembro, 2014 at 17:02 #

Como é bom relembrar das suas celebres frases construídas no íntimo da dua alma.


Gilson Nogueira on 14 setembro, 2014 at 19:24 #

Saravá, grande Paulinho, que prazer imenso estar, aqui, agora,no revolucionário BP, falando com você, mestre conquistense, dos vivamente belos, na arte de fazer amigos, com seu coração do tamanho do Mercado Modelo!!! Nossas almas cantam, ao som do berimbau. Grato, pela lembrança.Apareça! Um abração


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos