Dom Geraldo: “Vergonha!”

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Ao falar com exclusividade nesta segunda-feiraNESTA SEGUNDA-FEIRA para a revista digital Terra Magazine sobre a Campanha da Fraternidade 2010, cujo tema “Dinheiro e Vida ” já começa a suscitar fortes polêmicas em vários setores de opinião pública, dentro e fora das cinco igrejas que participam do maior movimento religioso no campo social na América Latina , o arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Cardeal Dom Geraldo Majella olha e muitas direções

.: “A corrupção no Distrito Federal é uma vergonha internacional”, diz o bispo da Bahia, nascido em Minas Gerais, na conversda com o repórter Claudio Leal. A CF deste ano, segundo Terra Magazine na apresentação da entrevista, nasce com um tema que promete ir além das críticas econômicas e iluminar os subterrâneos das eleições: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Com esse lema, a Igreja Católica brasileira oferece a primeira resposta articulada à crise financeira e às novas funções das meias na política nacional.

Bahia em Pauta reproduz a entrevista de Dom Geraldo a Terra Magazine ( http://terramagazine@terra.com.br )

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CLAUDIO LEAL

A Campanha da Fraternidade 2010, lançada na Quaresma por cinco igrejas (católica, anglicana, luterana, presbiteriana e ortodoxa), nasce com um tema que promete ir além das críticas econômicas e iluminar os subterrâneos das eleições: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Com esse lema, a Igreja Católica brasileira oferece a primeira resposta articulada à crise financeira e às novas funções das meias na política nacional.

– Há sempre aqueles que põem o dinheiro dentro das meias, dentro de outras partes do corpo para levar o dinheiro da corrupção – atesta o Cardeal Arcebispo-primaz do Brasil, Dom Geraldo Majella Agnelo, 76 anos, em entrevista a Terra Magazine.

Nomeado arcebispo metropolitano de Salvador em 1999, o religioso mineiro tem sido um dos principais porta-vozes da Campanha da Fraternidade. Dom Geraldo reconhece avanços no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas ataca a política econômica e afirma que o presidente precisa completar o seu legado.

– Não há dúvida de que há vários avanços do presidente Lula. Mas ele precisa completar a sua obra. Porque, segundo o meu modo de pensar, é garantir empregos, não só pra ganhar sem fazer nada, mas garantir empregos onde cada um vai ter aquilo e vai se sustentar.

O cardeal não vê motivos para a Igreja fazer uma “autocrítica” de suas relações com o poder econômico. Entretanto, não deixa de registrar o espanto com a desenvoltura do governador José Roberto Arruda e seus aliados no Distrito Federal:

– Realmente, isso é uma vergonha nacional e internacional.

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A ENTREVISTA DO PRIMAZ DO BRASIL A TERRA MAGAZZNE

Terra Magazine – O lema da Campanha da Fraternidade 2010 é “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. O que motivou a escolha do tema e a quem ela é dirigida?
Dom Geraldo Majella – Ela é dirigida a todos aqueles que põem toda a sua confiança só no dinheiro, como é o que se evidencia, internacionalmente, ao poder do dinheiro. Dá-se toda atenção ao dinheiro, à economia, e menos à dignidade do próprio homem. Esse é o motivo, de ver como a economia muda facilmente os horizontes das pessoas, dos países. Ficam todos submissos, até os Estados, à economia. O que está em jogo é não perder dinheiro, mas não se fala nada das pessoas que perdem o dinheiro, os empregos. Tudo isso é uma situação que deixa sempre em suspenso a atividade humana dos assalariados, dos que dependem do dinheiro, dos que não fazem do dinheiro só um jogo de bolsa, de juros. É isso. É uma falta de consideração com as pessoas, que não valem nada diante do dinheiro.

Com a crise financeira mundial, houve uma alteração drástica da mentalidade do consumismo?
Esta crise não trouxe novidade. Claro que ela veio aumentar ainda mais e reafirmar a força do sistema econômico mundial, que está acima dos próprios países.

Como o senhor avalia as imagens de corrupção no governo do Distrito Federal? Os envolvidos conseguiram servir a Deus e ao dinheiro com eficiência?
É uma prova… (risos) A corrupção faz com que se faça qualquer negócio por dinheiro. Que se comprem consciências, que se vendam consciências… Enfim, a corrupção não é só daquele que procura corromper, mas daquele que aceita também a corrupção. Realmente, isso é uma vergonha nacional e internacional. Em toda parte do mundo existem essas provas de corrupção. Não sei onde a corrupção é mais alta, se é no Brasil ou se existe em outros países onde a situação é tão grave quanto a do Brasil.

A campanha aborda também a economia. O senhor reconhece avanços sociais no governo Lula ou houve mais privilégios ao sistema financeiro?
Não há dúvida de que há vários avanços do presidente Lula. Mas ele precisa completar a sua obra. Porque, segundo o meu modo de pensar, é garantir empregos, não só pra ganhar sem fazer nada, mas garantir empregos onde cada um vai ter aquilo e vai se sustentar. Isso é importante. Vai ganhar o seu salário com o suor do seu rosto.

De alguma forma, a campanha incorpora a crítica ao comportamento das igrejas neopentecostais, que têm crescido no Brasil com uma postura agressiva em relação ao dinheiro dos fiéis?
Bom, tem-se visto que muitas vezes até se coloca para os fiéis uma promessa, como se Deus fosse um grande “quebra-galho” do mundo. Deus é providente, mas ele não é um quebra-galho para as pessoas. Faça isso e Deus vai te mostrar aquilo. Não. Ele quer que nós sejamos justos, verdadeiros no nosso proceder, não enganando ninguém, portanto não dizendo mentiras e também não sendo injustos para ninguém.

Como foi feita a articulação para a Campanha da Fraternidade ser ecumênica?
Já é a terceira vez que se faz a campanha ecumêmica. A cada cinco anos, mais ou menos, se faz uma campanha ecumênica. Já é um passo, um modo de agir que já está consagrado. Eu só desejo que realmente possa servir para o entendimento das várias denominações cristãs, porque é no diálogo, nas mãos para fazer o bem, que nós podemos crescer como irmãos.

No bojo dessa campanha, a Igreja Católica não precisa também fazer autocríticas na sua relação com o poder econômico?
Não… Não vejo. Qual autocrítica nós poderíamos fazer?

Na sua Arquidiocese, a de Salvador, sempre houve a expectativa de que a Igreja se desculpasse pela venda da primeira Sé do Brasil a um companhia de bonde (Linhas Circular de Carris da Bahia), que a destruiu, em 1933 (leia a história aqui). Nunca houve um pedido formal de desculpas ao povo baiano e isso tem relação…
Isso é anterior até ao meu nascimento, né? (risos) Já encontrei o caminho percorrido. Naquele tempo ainda não se tinha um cuidado tão grande com as coisas, com os bens culturais. Então, para favorecer a passagem do bonde, a história que vem até hoje é que o governo decretou derrubar a Sé para favorecer o bonde, que, afinal de contas, nem ficou muito tempo naquele lugar.

Recentemente, houve também a venda do histórico Palácio Arquiepiscopal para ser construído um condomínio de luxo (N.R.: onde reside a cantora Ivete Sangalo), no bairro do Campo Grande.
Não, aquele lá, aquele prédio nem era um prédio feito para ser residência. Um prédio que era um escritório e foi adaptado para residência. Ficou de 1933 até 1999. Não tinha esse valor histórico…

Foi uma especulação imobiliária.
Bom! Isso aí é uma questão de administração dos bens. Aquele prédio, quando eu vim para Salvador, foi declarado não-próprio para habitação. Tive que mudar, na véspera de chegar a Salvador para tomar posse da Diocese. Foi dito que eu não iria mais para aquele prédio, porque foi declarado não apto, perigoso para habitação. O cupim estava comendo. Eu tive até cartões de visita com aquele endereço. Fiz aquilo de propósito, já tinha tudo preparado para ficar lá. Tive que ir pro Mosteiro de São Bento, mas o bispo não vai poder morar lá. Fiquei uma semana, depois fui para uma casa que foi emprestada pelo consulado alemão, fiquei 45 dias… Depois para uma casa alugada, até que nós fizemos a casa definitiva, onde eu moro hoje.

Voltando à corrupção, o governo afirma que o País avançou no combate a essas práticas, há mais controle dos gastos públicos. O que o senhor diz?
Deus queira! Deus queira que haja mais controle. É isso que a gente deseja. Por mais que se faça, há sempre aqueles que põem o dinheiro dentro das meias, dentro de outras partes do corpo para levar o dinheiro da corrupção.

Terra Magazine ( http://terramagazine@terra.com.br )

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Comentários

Stefano on 22 Fevereiro, 2010 at 23:10 #

ohh… quem é a igreja pra censurar a corrupção??? Por acaso a igreja é honesta?


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