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Postado em 22-02-2010
Arquivado em (Artigos, Claudio, Multimídia) por vitor em 22-02-2010 12:59

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OPINIÃO/ JUSTIÇA E CULTURA

O Lado BB do Ministério Público: como arrasar a Mudança do Garcia

Claudio Leal

Fez bem o promotor do Ministério Público, Heron José Santana Gordilho, em esclarecer a proibição de jegues e outros animais cavalgáveis na tradicional Mudança do Garcia, do carnaval de Salvador. Enfrentar o debate é um mérito de cavalheiro. No artigo “Consideração moral dos animais”, publicado em A Tarde (18/02), o promotor respondeu às críticas do antropólogo Roberto Albergaria, ainda que tenha preferido omitir o nome do interlocutor. Exato: uma técnica dos maus polemistas.

Como sabe o Cavalo Branco de Napoleão, o MP, a OAB e mais dois ou três ongueiros pressionaram os organizadores da Mudança a não usar animais no desfile da segunda-feira momesca. Ninguém sabe se o veto se estenderá aos Encourados de Pedrão, no cívico Dois de Julho, e à carruagem da Rainha Elizabeth II. Quem adivinhar o próximo desdobramento da chicotada contra a história da Mudança, ganha um exemplar do “Febeapá”, de Stanislaw Ponte Preta.

Porém o cabriolé não deve andar rápido. Voltemos ao artigo do dr. Heron José. Numa linguagem elevada, ele afirma que “a cultura da ignorância não consegue perceber que houve consenso entre os interessados”. Depreende-se da candura dessa frase o conforto das lideranças de um bairro popular diante do cerco de engravatados e ambientalistas xiitas. O consenso, nesse ambiente de argumentos surreais, lembra “a ordem superior” do samba “Despejo na favela”, de Adoniran Barbosa. A alternativa do favelado era sair “pra não ouvir o ronco do trator”.

Num Estado em que não houvesse a “cultura da ignorância”, o MP não se atreveria a esvaziar uma manifestação cultural quase secular sem receber questionamentos formais da Secretaria da Cultura (onde está Marcio Meirelles?), do Conselho Estadual de Cultura, do Instituto Geográfico e Histórico, da Câmara Municipal e de organizações da sociedade civil.

O primeiro efeito se apresentou no desfile de 2010. Houve uma redução absurda das belas carroças e jegues, tradicionalmente com cartazes de protestos. E os remanescentes não fugiram à regra de conduta dos anos anteriores. Afinal, qual era o problema? Para 2011, promete-se a proibição total. Duas ONGs sem relevância pública conseguirão arrasar um patrimônio de Salvador. Restará o vaivém de bandeiras sindicais vazias. Os medidores de decibéis de jegue podem identificar outras falsidades: inelutavelmente, haveria maus-tratos contra animais na Mudança do Garcia; por óbvio, os carnavalescos se comprazem com torturas a cavalos e jumentos.

Prevaleceu o Lado B.B. (Brigitte Bardot) do Ministério Público. Enquanto alguns promotores se esforçam para evitar a ocupação selvagem das áreas verdes da Avenida Paralela, há os que preferem seguir os ensinamentos da ronronante atriz francesa: “Eu dei minha beleza e minha juventude aos homens. Agora dou minha sabedoria e minha experiência aos animais”. Ouvem-se dois relinchos no presépio.

Qual a diferença entre legislar e impor mandamentos supostamente ambientalistas a lideranças populares indefesas? O promotor de Justiça, com a retórica do marxismo, decreta que “a inclusão dos animais em nossa esfera de dignidade moral é um processo histórico irreversível”. Além de ser um contrassenso axiológico, contraria ainda qualquer rabiscado livro de filosofia e o próprio acúmulo mental do Oriente e do Ocidente. “Dignidade moral” possuem os cordeiros dos blocos carnavalescos, outra vez submetidos a intocáveis subcondições de trabalho.

O MP só não argumenta em sânscrito quando recorre a Mahatma Gandhi para dar tom erudito ao acordo. “Gandhi, em sua política de não violência, afirmou certa feita que ‘a grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma com que ela trata os seus animais'”, diz o promotor. Entretanto, retirado da redoma da política, o líder indiano é um exemplo de reacionarismo e princípios anti-humanos, como atesta o escritor George Orwell num ensaio não-hagiográfico incluído na coletânea brasileira “Dentro da baleia”
(Cia. das Letras).

“Os ensinamentos de Gandhi”, expõe Orwell, “não estão de acordo com a crença de que o Homem é a medida de todas as coisas e de que nossa tarefa é tornar a vida digna de ser vivida neste mundo”. Defensor do voto de bramahcharya, o pacifista tentou eliminar o desejo sexual de seu cotidiano (após experiências na área). Prossegue o autor de “A revolução dos bichos”: “A autobiografia deixa vago se Gandhi se comportou de forma desatenciosa com a esposa e os filhos, mas de qualquer maneira deixa claro que em três ocasiões ele se dispôs a permitir que a esposa ou um filho morresse em vez de fornecer o alimento animal recomendado pelo médico”. Para Gandhi, o único jeito era dançar o “Rebolation”. Ainda é melhor dar dignidade moral aos cordeiros e capim aos muares da Mudança.

Claudio Leal é jornalista
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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 22 Fevereiro, 2010 at 14:54 #

O bravo Representante da Vingança Pública!

O DD. Representante do Ministério Publico, condição alçada via concurso, no mais das vezes, por ainda “quase imberbes” egressos das universidades, tem por hábito, conforme escudam suas ações, vestir-se de confortável fantasia denominada “interesses difusos da sociedade”.

E o que seria essa vestimenta? Qual o figurinista que a confecciona? De qual sociedade derivam esses difusos sinais?

Casos exemplares existem quando o MP depara-se com os chamados loteamentos irregulares. Dizendo atender os interesses dos pobres sonhadores que adquiriram terrenos nesta condição, simplesmente pleiteia ao MM. Juízo Competente, e quase sempre obtém, não a regularização dos ditos lotes, mas sim, a interrupção de quaisquer obras, transformando o que já não era sonho em efetivo pesadelo para os detentores dos interesses por ele, a seu bel prazer, tutelados. Nasce assim a interminável agonia de quem é condenado a viver sem nenhuma estrutura pública, como desamparado acampado, visto que, para conforto das autoridades afins, essas obras restam proíbidas.

Não é diversa essa arremetida contra a manifestação cultural tão peculiar e específica da “Mudança do Garcia”. Certamente, para quem, como o MP, detém tantas e incontáveis ações por fazer, dignas de prioridades gritantes, essa atitude assemelha ao capricho, tão próprio dos que ao negar, por via oblíqua, tornam-se partícipes de festas para as quais não foram convidados.

Fica a sugestão aos despidos de sua tradição, promovam o “Despejo do Garcia, no Sábado de Aleluia”, tendo como alegoria, o desfile singular dos animais, ladeados pelos condutores a pé, no mesmo trajeto da mudança, sendo que os condutores, e só eles carreguem cartazes de agradecimento ao extremado gesto do MP, bem como singelas cenouras a serem oferecidas aos tutelados animais, ao final do desfile, por certo classificado como cívico.

Que seja composta a “Marcha do MP em Defesa da Redenção do Garcia”.

Abraços!


Olivia on 22 Fevereiro, 2010 at 16:50 #

Agora não precisa dizer mais nada, só lamentar. Bravo Claudinho, sua pena faz muita falta ao jornalismo baiano.


Lucas Jerzy Portela on 23 Fevereiro, 2010 at 0:54 #

eis ai uma justa critica a SECULT por sua até agora omissão política no caso.

e reitero como cá já disse antes: ano que vem, última sexta antes do carnaval, pelas ruas do Jardim Baiano desfilará pela primeira vez meu bloco As Jumentas Do MP, e será entregue o Trofeu Tindola de Jegue ao Promotor Heron Santana.


Gaça Azevedo on 23 Fevereiro, 2010 at 22:54 #

Não posso deixar de felicitar Claudinho sempre tão objetivo no que deve ser dito.
Um abração


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