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Postado em 14-02-2010
Arquivado em (Artigos, Ivan, Multimídia) por vitor em 14-02-2010 21:38

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AS VÍTIMAS DO CAIPORA

Ivan de Carvalho

Estava próxima a eclosão do movimento político-militar que depôs o presidente João Goulart quando Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara e candidato da UDN à sucessão de Jango, a quem fazia cerrada oposição, veio a Salvador para uma reunião de governadores promovida pelo seu colega baiano Lomanto Júnior. As eleições seriam em 1965, mas ele já estava em plena campanha antecipada, pois na época não existiam para isso as limitações temporais da atual legislação eleitoral.

Para a “esquerda”, Lacerda era o “monstro da lagoa”, o líder “devastadoramente capaz”, como o qualificara a CIA em um dos seus relatórios para o governo americano, classificação que só recentemente chegou ao conhecimento público. A “esquerda” estudantil, principalmente a universitária, eriçou-se toda com a presença dele em Salvador e resolveu caçá-lo para vaiá-lo. Buscou-o no hotel, no palácio, em todos os lugares em que os cérebros de seus líderes puderam imaginar que ele estaria. Nada.

À noite, Lacerda estava dando uma entrevista – com formato de quase monólogo – na TV Itapoan, a única então existente na Bahia. E aproveitou para ironizar os que o perseguiam pela cidade e contra-atacar, como diria a CIA, devastadoramente. Era recente o assassinato do presidente americano John Kennedy, que comovera o mundo. “Filhos do fanatismo, filhos de Lee Oswald, filhos do assassino do presidente Kennedy”, repetiu ele bem mais que uma dezena de vezes ao longo da entrevista-pronunciamento. E então completou o esculacho: “Procuraram-me em todos os lugares, só não foram onde eu estava – no Mercado Modelo”.

Há poucas semanas, um grupo de destacados militantes petistas foi flagrado pelo jornalista Levy Vasconcelos (Tempo Presente) planejando uma vaia para o cantor e compositor Caetano Veloso, nos “circuitos nobres” do carnaval. Dentro de um certo contexto em que dizia que votará em Marina Silva porque “não é analfabeta”, Caetano (des)qualificara o presidente Lula: ele “é cafona falando, grosseiro” e, implicitamente, analfabeto. Lula replicou: “Nada mais burro do que isso”. É verdade que, ante a notícia sobre o planejamento das vaias, o presidente estadual do PT, Jonas Paulo, enviou correspondência ao jornalista, afirmando que o PT não procederia da forma noticiada. Mas é também verdade que depois disso a história da vaia persistiu e chegou a ser estimulada publicamente, ainda que não pela direção do PT.

Bem, Caetano – de quem se chegou a falar que, ao contrário do que faz todos os anos, não viria a este carnaval para evitar eventuais vaias petistas – assistiu na madrugada de sábado, como assinalou o Bahia em Pauta, o desfile da banda Psirico, recebeu homenagem de Moraes Moreira, outro ícone do carnaval baiano, e muitos aplausos. Vaia, nem umazinha por honra da militância petista. Mas como, se ele não pediu desculpas e nem pediu perdão?…

Perguntar não ofende: a “militância petista” sacou que a vaia seria contraproducente ou repetiu-se o que aconteceu com Carlos Lacerda, ao caçarem o artista em todos os lugares, exceto no lugar mais lógico para encontrá-lo – o camarote de Gil? Será que a “militância” petista foi também, como a “esquerda” dos anos 60, vítima do caipora?

(Ivan de Carvalho é jornalista.Texto especial para Bahia em Pauta)

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