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Postado em 13-02-2010
Arquivado em (Artigos, Gilson) por vitor em 13-02-2010 16:40

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CRÔNICA / CARNAVAIS

Boêmio azul turquesa

Gilson Nogueira

Sorveteria Primavera, verão, quatro horas da tarde, a brisa sempre mansa e sinuosa entra pelas mangas da mortalha. Feito espiã do sexo chega às chamadas partes íntimas do malandro e suaviza o calor. Parece picolé do céu escorrendo na pele ouriçada com o beijo da francesa linda – e anônima- no folião moreno de sol do Porto da Barra envergando a mortalha do Broco do Jacu, o maior e melhor bloco do planeta, até que Deus apareça para fundar outro igual. Sigo desfilando na avenida saudade. E lembro que brincar o Carnaval de Salvador tinha algo de estágio no paraíso.

Sorveteria Primavera, quatro e meia da tarde. A francesa já beija outro baiano e, logo em seguida, some no beco, como se quisesse confirmar que amor de Carnaval desaparece na fumaça, de acordo com a música que deveria haver escutado em algum lugar antes de aterrissar ali. O Relógio de São Pedro imita um vigia do tempo, mas, está parado, inerte na sua importância e magnífico enquanto ícone do passado glorioso da primeira capital do Brasil. Seus ponteiros dormem, um em cima do outro, sugerindo o acasalamento da sua falta de manutenção que atravessa os anos com a idéia de que meio-dia de domingo é uma boa hora de se fazer amor. O tesão do beijo da conterrânea de Brigitte Bardot segue firme, fazendo mais um adão de todas as evas do Carnaval da Bahia querer mais e mais…

O beijo daquela lourinha sapeca fez o tempo parar. E um silêncio regado a uísque com cerveja tomar conta do boêmio azul turquesa que acabara de misturar línguas em confraternização universal de amor à vida, como aluno da escola da dialética do prazer. “Adeus, francesinha cheirosa, remetendo ao perfume de Paco Rabane e ás flores de Besançon!”, soluçou, baixinho, mergulhando em uma dose de uisque escocês que Buldogue levava enfiado no short.

O couro come de cor e salteado nas barracas de mesas e tamboretes de madeira, onde a turma deixa cair a alegria picárdica de uma geração cheia de charme, astúcia, talento, beleza e picardia. Os metais e couros da “orquestra” atacam sucessos do grande compositor Waltinho Queiroz, fundador do bloco, cidadão que honra a cultura nativa, guardião da música baiana, defensor dos pobres e oprimidos, São Jorge da gandaia honesta.

E uma tristeza, de repente, abraça o folião exausto de tanto sonhar. O Carnaval não deveria ser o mesmo, nos anos que viriam, pensou ele, solitário, próximo ao Mosteiro de São Bento, misturando samba e reza, entendendo que o progresso, inevitável, infelizmente, iria impor modismos, envelhecendo o que se fazia, ali, sem medo de ser assaltado, de ser agredido, na felicidade geral.O Bloco do Jacu, do maioral Waltinho, que foi obrigado a rasgar sua fantasia, assimo como fiz, também, é, apenas, um retrato na parede. A culpa é sua, progresso.

( Gilson Nogueira é jornalista )

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Comentários

Regina on 14 Fevereiro, 2010 at 15:51 #

HÁ JACU!!! O broco mais maneiro da avenida soteropolitana, de todos os tempos. Precisamos fazer uma reunião do pessoal, vamos avisar por todos os meios e marcar um dia de carnaval no mesmo lugar de sempre e na mesma hora. Seria massa!!! A mortalha azul turquesa agente refaz…
Quem já não viveu, um, dois, muitos, amores de carnaval? Quem não se lembra daquele beijo roubado, do encontro na avenida, da disparada que o coração levava sem jeito de parar?Eram horas e dias de completo devaneio, loucura no ritmo de frevos, marchas, sambas ou até mesmo no seu próprio ritmo criado pela emoção e euforia. Quantas historias não rolaram durante estes dias mágicos e que iriam se alimentar de ilusão durante os 360 dias restantes do ano até o próximo carnaval? Eu já tive a glória de viver momentos assim e confesso que nunca os aquecerei, pois, enquanto houver carnaval, haverá a esperança de que tudo pode ser possível, ainda que seja por um breve momento a colombina e o pierrot se encontrarão…

http://www.youtube.com/watch?v=1g8otZURvW0

Regina Soares


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