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Postado em 11-02-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 11-02-2010 10:19

DEU EM TERRA MAGAZINE

De sua janela aberta para a Baia de Todos os Santos o músico Paquito observa as múltiplas faces de Salvador, e escreve com a argúcia e competência de sempre sobre delícias e mazelas da cidade da Bahia, para a revista digital Terra Magazine ( http://terramagazine.terra.com.br ).

Nesta quinta-feira, ele que não morre de amores pelo carnaval soteropolitano, fala de belezas da festa que surpreendem mesmo que não gosta dela.Mas critica em TM o lado mais feio da folia: a miséria de “cordeiros” dos blocos no Carnaval.

O músico condena, principalmente, a posição do produtor Nelson Motta sobre a função de cordeiros no Carnaval de Salvador. “Se há grande concorrência para a função de cordeiro, a causa deve ser mesmo a miséria e exclusão social” . Um texto de leitura essencial para quem vai cair na folia baiana.Ou não.

Até mesmo para a ministra Dilma Rousseff (PT) e o governador José Serra (PSDB), que devem desembarcar na cidade -, concorrentes na disputa na sucessão de Lula – a partir de sábado, em campanha nos camarotes e blocos da cidade (fala-se até no Ilê).

Confira.

(Vitor Hugo Soares)

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Retrofolia:cada ano melhor, diz Paquito

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ARTIGO

CARNAVAL, DESENGANOS…

Paquito

De Salvador (BA

Não sou fã do carnaval de Salvador e disso não faço segredo. Já escrevi nesta coluna sobre a angústia que antecede a festa para os moradores do circuito – eu, incluído – que não curtem a folia, o estupor, e tem de simplesmente se mudar de suas casas durante o período. No entanto, reconheço a legitimidade do evento, mesmo sabendo o quanto houve de demagogia no decreto do então governador Antonio Carlos Magalhães que esticou, de três para cinco dias, a chamada maior festa de rua do mundo, que dura agora uma semana.

No entanto, frequentei eventos pré-carnavalescos, de leve, como o Ensaio do Cortejo Afro, sob o comando de Alberto Pita, que me convenceu a ir, e me fez ficar surpreso diante de coisas que parecem só acontecer na Bahia. Quem imaginaria que, numa segunda-feira, que é quando acontecem os ensaios, apareceria, em pleno palco, Clifton Davis, autor de Never can say goodbye, gravada por Michael Jackson, para uma palhinha junto a J. Velloso, cantando a própria canção acompanhado pelos tambores do cortejo? Nem sei se é um elogio, vindo de um anti-carnavalesco, mas o fato é que gostei de estar lá, muito bem recebido por Pita.

O segundo evento de que participei – e cada ano sai melhor – foi a Retrofolia dos Retrofoguetes, que também já comentei nesta coluna, e não fui apenas espectador, mas cantei clássicos da lambada. E lamentei muito não ter acordado a tempo pra ver Gerônimo domingo de manhã no TCA, gravando seu DVD. Cheguei atrasado, bamba de sono, e não pude entrar.

Toda essa conversa é, na verdade, um preâmbulo, para tratar de outra conversa, não de mesa de bar, mas de livraria de shopping, onde encontrei Osvaldo Braminha – com quem travo conversas divertidas e discordâncias cordiais – que me disse coisas que eu não sabia sobre o carnaval soteropolitano. Por exemplo, o número de pessoas que brinca não é de um nem dois milhões, mas cerca de 500 mil, segundo pesquisa da Secretaria de Cultura do Estado, o que não deixa de ser expressivo, de todo modo. O mais espantoso, no entanto, é que parece que o governo do Estado mais perde dinheiro do que ganha durante a semana de Momo.

Bem, alguém deve estar ganhando alguma coisa, senão não se poria tantos blocos e aquele um sem-número de trios elétricos engarrafando a cidade. Não é só pelos belos olhos da vetusta Soteropólis, nobre e opulenta cidade, madrasta dos naturais e dos estrangeiros madre, diria o poeta.

Alguém deve estar ganhando e não são os cordeiros, no cerne da discussão por conta de um Estatuto do Carnaval, baixado pela prefeitura, que pretende dar a estes que, literalmente, seguram os blocos, melhores condições de trabalho. Quero adiantar que não fui eleitor do atual prefeito, e acho que a cidade caiu numa esparrela danada ao reelegê-lo.

Não posso, no entanto, deixar de comentar a reação de Nelson Motta ao estatuto, entrevistado na revista Muito, que vem encartada no jornal A Tarde : “Primeiro, ninguém está ali obrigado. Sou a favor que tenham as mínimas garantias de trabalho, porque é um trabalho como qualquer outro.” Diante do primeiro argumento, caem por terra todos os movimentos sociais e tentativas históricas de trabalhadores que tentaram melhores condições de realizar o seu ofício com dignidade. Sensibilidade social é isso aí… Quanto a ser um trabalho como qualquer outro, aconselho, se já não basta o que se vê nas ruas bem claramente, que se assista ao documentário Cordeiros, de Ana Rosa Marques e Amaranta César, de 2008.

Se há – e olha que pode haver mesmo – grande concorrência para a função de cordeiro, a causa deve ser mesmo a miséria e exclusão social que faz da Bahia um dos estados mais pobres do Brasil. Nada de novo, diz um samba de Paulinho da Viola, discreto, baixinho, mas eloqüente.

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Comentários

Mariana Soares on 11 Fevereiro, 2010 at 10:52 #

É isso aí, Paquito, sensibilidade não é para qualquer um, não! Belísimo artigo! Vamos mandar Nelson Mota de volta para Nova York, pois do Brasil, da Bahia, do seu povo, ele já mostrou que não entende nada…Sensibilidade??? Parece que nem passou por perto dele…Vamos botar, sim, o nosso bloco na rua, mas, é claro, brincar sem que para isso cordeiros ou qualquer outra pessoa tenha que ser sacrificado ou humilhado.


Lilian on 11 Fevereiro, 2010 at 12:08 #

Artigo bem coerente. Gosto muito de nosso carnaval, mas sempre avaliei com críticas a existência das cordas (cordeiros).


luiz alfredo motta fontana on 11 Fevereiro, 2010 at 12:21 #

Nesse samba sem enredo…eu me perco.

“O mais espantoso, no entanto, é que parece que o governo do Estado mais perde dinheiro do que ganha durante a semana de Momo.”

E por qual razão deveria o Estado ganhar?

Por definição, carnaval é, ou deveria ser, festa popular.

Dá-se nas ruas, portanto logradouro público, só é notado, e notável quando a dita “massa” comparece.

A partir desse ponto me perco, não encontro nem régua, muito menos compasso.

Se é do povo, porque o abadá?

Se é na rua, porque a cobrança?

Se é festa, porque a obrigatoriedade disso e daquilo?

Se é carnaval…….onde anda o reinado de Momo?

Se é Bahia… qual a razão de ser Global?

Se… talvez, em quarta e cinzas, eu comece a entender!


Olivia on 11 Fevereiro, 2010 at 12:42 #

Pois é Paquito, essa coisa de cordeiro também me machuca, e o que é pior, eles só recebem a grana do trabalho depois da folia. Quanto a Nelson Motta, sua entrevista no domingo foi um desastre, muita baboseira e pretensão meu. Gerônimo é outro injustiçado, dono de um trabalho brilhante rala bastante para “botar seu bloco na rua”, mas continua lutando e resistindo. Evoé!


Regina on 11 Fevereiro, 2010 at 17:07 #

A escritora, advogada, dramaturga e administradora do Theatro XVIII http://www.theatroxviii.com.br, localizado no Pelourinho, Aninha Franco, uma legítima cidadã “pelourinhense”, que acompanhou com atenção todas as etapas pelas quais passou o local, sempre interferindo em seu destino, escreveu uma peca sobre os “cordeiros” em 2005, “Esse Glauber”, que representava um dialogo entre dois desses homens e mulheres que tem essa função no Carnaval da Bahia.

Na história, o carnaval acabou e o tema do ano na cidade foi “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, em homenagem ao cineasta Glauber Rocha. Todo Mundo (RitaAssemany) e Qualquer Um (Diogo Lopes Filho), aguardam o pagamento pelos dias trabalhados separando dois mundos: o do interior dos blocos e o da multidão excluída. O texto é de Aninha Franco, a direção de Marcio Meirelles (então amigos de outros carnavais) e a trilha sonora original de Jarbas Bittencourt.

Os depoimentos colhidos e que fazem parte do dialogo são impactantes. O que os faz segurar aquela corda por cerca de oito horas, expostos a todo tipo de violência e discriminação, com direito a apenas um pacote de biscoito recheado e duas garrafinhas de água por dia? Dinheiro, claro. O valor em questão assusta ainda mais. “Me prometeram uma diária de R$10, mas na hora só pagaram R$8. Acho um absurdo, mas vou reclamar com quem? Tenho três filhos pequenos pra criar, precisava do dinheiro”, diz a jovem cordeira, sem querer se identificar, revelando que já apanhou muito e já bateu também quando “o bicho pega na avenida”.


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