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Postado em 08-02-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 08-02-2010 10:06

DEU NA FOLHA DE S. PAULO (DOMINGO, 6)

TENDÊNCIAS/DEBATES
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Barretão aponta patrulhas

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LUIZ CARLOS BARRETO

A VOLTA DAS PATRULHAS IDEOLÓGICAS

Em vez de falar da obra, os críticos escolheram contestar o direito que todo cineasta tem de fazer um filme sobre o assunto que bem entender.

ABERTURA DO Festival de Brasília, 17/11/09, primeira exibição pública de “Lula, o Filho do Brasil”. Enquanto o filme se desenrolava na tela, já estava em curso o massacre político promovido por um exército de escribas, comentaristas políticos, colunistas sociais improvisados, ex-militantes políticos de aluguel, cientistas políticos de plantão convocados a se manifestar apenas do ponto de vista especulativo sobre seu potencial político-eleitoral, afirmando que a eleição presidencial de 2010 seria decidida a partir da força emocional do filme.
Além da ingenuidade infantil dessa tese (ou de sua má-fé?), o que eles questionavam era o nosso direito de fazer um filme sobre o assunto que escolhemos. Pode-se fazer filmes sobre Bush, Berlusconi ou Mitterrand pelo mundo afora, como tem acontecido. Pode-se fazer filmes sobre Getúlio, Juscelino, Tancredo, Jânio ou o empresário Boilesen. Mas sobre Luiz Inácio da Silva, não.

Há os que viram (mais de 800 mil pessoas), os que não viram ainda e os que viram, mas não quiseram ver o filme como um filme com todos os seus méritos e valores cinematográficos, como testemunharam e assinaram embaixo Ziraldo (“Uma história bem contada e bem filmada. Impossível não se comover”), Zuenir Ventura (“O filme mexe com a emoção e vai inundar os cinemas de lágrimas”) e Cacá Diegues (“A história de vida que esse filme conta com muita emoção nos ajuda a compreender melhor o valor da democracia, do direito de todos à liberdade e oportunidade”).

Falar dos méritos e eventuais deficiências desse filme de Fábio Barreto era uma obrigação dos críticos, e é claro que todo mundo tem direito de externar sua opinião, de gostar ou não gostar do filme que viu.

Mas, de tudo que li, poucos tiveram a honestidade intelectual e profissional de criticar o filme como uma obra cinematográfica, escolhendo contestar o direito que qualquer cineasta tem de fazer um filme sobre o assunto que bem entender. A maioria dos que escreveram sobre “Lula, o Filho do Brasil” preferiu este último caminho elitista, censor e autoritário.

Esse processo revela o espírito “patrulheiro” que ainda resta no Brasil como sequela do período autoritário da ditadura militar, quando Cacá Diegues denunciou as patrulhas ideológicas. O espanto é que, em pleno regime democrático que o Brasil vive e respira, haja lugar para esses procedimentos e expedientes antidemocráticos.

A democracia não é o regime que deve silenciar aqueles com os quais não concordamos, eliminá-los ou evitar que eles se manifestem. Na democracia, quando não estamos de acordo com alguma ideia que nos incomoda, produzimos a nossa para que haja um confronto livre entre as duas e a população possa escolher a sua alternativa. Mas os nossos detratores preferiram contestar nosso direito de realizar o filme, manifestando seu desejo antidemocrático de que esse filme jamais fosse feito ou exibido.

Toda a engenharia financeira foi montada às claras e de forma transparente. Desde a partida, decidimos não utilizar nenhuma forma de renúncia fiscal nem buscar o aporte de empresas estatais. Mesmo assim, levantaram-se dúvidas e insinuações de que estávamos utilizando recursos incentivados, acusações que serviam e serviram para provocar antipatia ética pelo filme, pondo em segundo plano suas qualidades cinematográficas.

Agora estamos reformulando algumas estratégias do lançamento comercial, que está iniciando sua sexta semana e já acumula mais de 800 mil espectadores, e sabemos que ainda resta muito chão pela frente, seja no sistema convencional de exibição em salas, seja no sistema alternativo de exibição, que vai levar o filme a uma grande parte de 90% dos municípios do Brasil que não têm cinema.

É lá no Brasil profundo, a preços populares e condizentes com o poder aquisitivo dessas populações, que iremos atingir o público alvo do filme: os Silvas deste país, que precisam e querem conhecer o exemplo de força, persistência e superação de Dona Lindu e seus oito filhos, exemplo que vai correr o mundo em telas de cinema, TV aberta, cabo, DVD e internet.

Nesse sentido, já temos estreias marcadas na Argentina, no Chile, no Uruguai e no Paraguai ainda neste primeiro semestre de 2010, e na Colômbia, no Peru, na Venezuela, no Equador, na Bolívia e no México no segundo semestre de 2010.

Qualquer mudança nessa trajetória do nosso pau de arara cinematográfico, informaremos, na certeza de que não vamos influir nas eleições de nenhum outro país. Queremos apenas ter o direito de contar e ver acompanhada pelo público uma história que julgamos relevante para a consolidação da autoestima de nosso povo, para a consolidação de nossa democracia e para o progresso do cinema brasileiro como um todo.

LUIZ CARLOS BARRETO, 81, é produtor cinematográfico. Produziu, entre outros filmes, “Lula, o Filho do Brasil”, “Dona Flor e seus Dois Maridos” e “O que É Isso, Companheiro?”.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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Comentários

Lucas Jerzy Portela on 8 Fevereiro, 2010 at 12:28 #

Vitor Hugo

talvez voce queira ler, e reproduzir aqui, minhas opinioes sobre a Ponte para Itaparica e os ataques que sofre.

eu sou contra a Ponte – mas mais contra ainda os ataques que Joao Ubaldo et cateva fazem, demonizando e impedindo o debate.

aqui o texto: http://tiny.cc/Iu2L1

fique a vontade para republicar aqui e alhures, desde que coloque o link. Obrigado

a mesma mensagem eu mandei pra Bob Fernandes e para Oldack Miranda (do Bahia de Fato).


Roberto on 8 Fevereiro, 2010 at 13:18 #

Um filme para entorpecer a gentalha, sem dúvida.

Eu, que sou da “zelite”, prefiro ficar em casa e votar na direita nas próximas eleições.


ana on 8 Fevereiro, 2010 at 13:30 #

Caro Lucas,

Li seu texto e me pareceu uma defesa um tano confusa do governo Wagner antes de qualquer coisa. Seria legal você esclarecer qual é sua profissão, o que faz, onde trabalha. Suponho que você defenderia uma ponte ligando a Bahia ao Benin se a secretaria da Cultura assim o desejasse.


luiz alfredo motta fontana on 8 Fevereiro, 2010 at 14:27 #

“Projeto segundo Lucas”

No caminho de Lucas havia uma ponte

Na cabeça de Lucas um projeto

Na Baía de Todos os Santos, lugar não havia

E assim Lucas encontrou Wagner, isolados os dois, do lado de lá da ponte que não existia


Ivan de Carvalho on 9 Fevereiro, 2010 at 19:18 #

Gente,
Escrevi um artigo relacionado ao filme “Lula, o Filho do Brasil” e não fiz qualquer crítica ao conteúdo ou direito do produtor Luiz Carlos Barreto de produzir seja lá o que for. Eu quero ver é ele contestar o uso do poder do presidente da República para, por decreto, estimular a exibição do filme sobre ele mesmo (e eventualmente, claro, de outros filmes) na rede privada de exibição de filmes, somente em 2010, ano de eleições. Sobre este ato autoritário do Filho do Brasil foi que escrevi artigo que o Bahia em Pauta publicou no mesmo dia (08/02) em que publicou o artigo doprodutor do filme. Quanto ao conteúdo e qualidade do filme, não posso escrever, pois não vi nem pretendo ver. Deixo para os críticos de cinema e quaisquer outros cidadãos que queiram exercer seu direito de opinar sobre o assunto.


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