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Postado em 06-02-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 06-02-2010 00:05

Pinheiro: Valentia com Ubaldo, faltou contra JH

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ARTIGO DA SEMANA

DIAS DE FÚRIA E FOLIA

Vitor Hugo Soares

Vivemos dias de fanfarronadas travestidas de fúria, desavenças e desacatos: na política em ano eleitoral; no centro do poder de sonhos absolutistas em Brasília; nos governos estaduais em desalinho. Observo da Bahia quase tudo, sem entender quase nada do que dizem e do que pretendem , além dos efeitos retóricos, personagens como Ciro, Serra, Dilma, Lula, Aécio e até mesmo o governador Jaques Wagner e auxiliares, neste período em que Momo começa a imperar.

Dirão alguns que quase sempre foi assim, e o espanto é por deficiência de memória. Momo é tempo de bazófia, de brincadeira, gandaia, confusão. Em alguns lugares bem mais que em outros. No Brasil – e na Cidade da Bahia em especial -, é um tempo desconcertante, bem próximo das palavras usadas pela Enciclopédia Universalis (Paris, 1970) para definir lugares e personagens de “Histórias de Cronópios e Famas”, o livro notável de Julio Cortázar.

“Sobre um fundo de caricaturas da vida de Buenos Aires, é uma seleção variada, insólita, de notas, de fantasias e de improvisações. Um humor melancólico, irônico ou violento”… Eis a mais perfeita definição destes dias da política e da vida brasileira. No Distrito Federal, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas , na Bahia, em Pernambuco. Tanto que o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra Dilma Rousseff (PT), já anunciam que estarão em Salvador em pelo menos um dia para ver de perto essa folia. Faltam Ciro (PSB) e a verde Marina (PV) para a festa ficar completa e mais animada.

Por falar em Bahia, o secretário de Planejamento estadual, o evangélico deputado petista Walter Pinheiro, ataca com ferocidade inusitada ao escritor João Ubaldo Ribeiro. Entrevistado pelo “Jornal do Brasil”, Pinheiro surpreendeu esta semana pelas imagens e palavras agressivas ao partir para cima do autor de “Viva o Povo Brasileiro”, em defesa do governo na polêmica em torno da ideia do governador Jaques Wagner de construir uma ponte com 13km de extensão, ligando Salvador à Ilha de Itaparica. A obra bilionária ( R$1,5 a 2 bi)já desperta cobiça de quatro grandes empreiteiras – OAS e Odebrecht à frente .

Nascido em Itaparica e dono da obra fabulosa que projetou a ilha baiana no mundo inteiro, Ubaldo se opõe frontalmente à construção da ponte.A considera faraônica e distante das prioridades locais. Expôs isso com argumentos devastadores em defesa de sua opinião em artigo publicado no jornal A Tarde, que ganhou apoio nacional.

Depois de largo silêncio e ao ver o incêndio se espalhar pelo país, o governo Wagner saiu em defesa do projeto. Mas já corria na frente o manifesto intitulado “Itaparica: ainda não é adeus”, de apoio a Ubaldo, que recebeu assinaturas de figuras do porte de Chico Buarque de Holanda, Verissimo, Emanoel Araujo, Cacá Diegues, Milton Hatoum, Ricardo Cravo Albin, Sonia Coutinho, Jomard Muniz de Britto, Hélio Pólvora, Edson Nery da Fonseca, Sebastião Nery, Hélio Contreiras, entre muitos outros, baianos ou não.

Mas a fúria do secretário Pinheiro na defesa da ponte surpreendeu até alguns petistas, lembrados da docilidade do parlamentar nos debates com João Henrique Carneiro (PMDB), na última eleição para a prefeitura de Salvador, na qual Pinheiro foi fragorosamente derrotado: nos debates e nos votos. Vejamos dois trechos do que disse sobre João Ubaldo, o secretário encarregado de tocar o projeto (segundo assinala o JB):

– O João Ubaldo tem todo o direito de destilar o veneno dele. Deve estar olhando para governos anteriores.

– O velho João Ubaldo saiu da rede. Se não fosse o PMI (Procedimento de Manifestação de Interesse), ele receberia a ponte pelo peito.

Ontem, no jornal A Tarde, o próprio governador Wagner se encarregou de renovar o combustível da polêmica, ao chamar de “besteirol” e “clichês” os argumentos do escritor João Ubaldo. É mais que provável que tudo terá resposta. A questão é saber se antes ou depois do carnaval.

Enquanto isso vale verificar o que andou rolando esta semana fora da Bahia.

Ao retornar de férias na Europa, o deputado do PSB, Ciro Gomes, candidato do partido à sucessão de Lula, jogou água gelada na cabeça dos que já consideravam favas contadas sua desistência da postulação, em favor do nome da ministra Dilma Rousseff. “O PSDB e o PT querem que eu retire a minha candidatura. Algum dos dois está errado. A única pessoa que está certa de querer tirar a minha candidatura é o Serra. Significa que o santo Lula nesse assunto está errado”, rebate Ciro.

Se o tiroteio é mesmo pra valer, ou apenas bala de festim de carnaval, só se saberá depois de Momo passar.

O senhor de Brasília parece apostar no tempo, senhor da razão. Depois do susto da crise de hipertensão em Recife, Lula dá sinais de ter colocado a cabeça no congelador – velha e sábia receita do gaúcho Leonel Brizola – mas sem deixar de falar grosso. “Eu meço minha pressão todos os dias: é 11 por 7 (em Pernambuco bateu nos 18 x 12). Foi um problema (a crise de hipertensão) que aconteceu. Mas, se eles pensam que vou ficar sentadinho em Brasília, podem tirar o cavalinho da chuva. Vamos inaugurar tantas obras que eles vão ficar doidos.”. Ontem já estava em Florianópolis.

“Eles”, provavelmente, são os tucanos e a turma do DEM, assim como os petistas baianos chamam de “essa gente” o ex-governador Paulo Souto (DEM), os ex-carlistas no Estado e, ultimamente, o cantor Caetano Veloso e o escritor João Ubaldo.

A conferir, depois que o carnaval passar.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Ivan on 6 Fevereiro, 2010 at 0:32 #

Muito interessante o artigo. Mas eu diria que só o penúltimo parágrafo – com a genial sugestão ou constatação da inclusão petista de Caetano e Ubaldo entre “essa gente” – qualificação reservada pelos petistas baianos aos ex-carlistas – vale um artigo inteiro.


luiz alfredo motta fontana on 6 Fevereiro, 2010 at 7:49 #

E por falar em nostalgia

– “O que você vai ser quando crescer?”

Saudade do tempo que a reposta era:

– “Salsicha do Frigor Eder S/A.”

O menino Wagner, no aprazível Rio de Janeiro respondia:

– “Engenheiro!”

(quase conseguiu, a ditadura interrompeu o sonho)

Mas…

Insiste, via o sacríficio da Baía de Todos os Santos, em macular o horizonte de tantos baianos, com sua monumental (13 km) ponte.

– Viste, mamãe, consegui!!!!

Pena que o carnaval já não pertine ao mundo das marchinhas, compor algo como:

– “A Ponte caiu, foi Ubaldo, foi Ubaldo!!!”

Seria sucesso estrondoso.

Já o axé, insiste:

– “Sacode, estique, e reverencie!”

Com 1,5 ou 2,0 bi, patrocínios não faltaram, e essa variação de musculação poderá investir em amplificadores do tamanho da…”ponte que caiu”!

Tim! Tim! VHS!

E os versos finais poderiam ser:

– “Ubaldo sorriu!”

– “E o engenheiro partiu!”

– “Já a ponte, ninguém viu!”


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