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Postado em 04-02-2010
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 04-02-2010 09:54

Secretário Pinheiro: palavras agressivas…

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…contra escritor João Ubaldo

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DEU NO JB


Vasconcelo Quadros , Jornal do Brasil

BRASÍLIA – O governador Jaques Wagner (PT) quer entrar para a história como o líder político que materializou a obra de maior impacto na vida dos baianos, a ponte Salvador-Itaparica, colosso com extensão de 14 quilômetros, custo estimado entre R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões e vetor de um megaprojeto de infraestrutura de desenvolvimento regional. Mas há uma pedra no meio caminho. E das grandes.

– Se essa ponte sair vai favelizar a ilha. Será a lógica da especulação imobiliária e da roubalheira. Itaparica será uma patética Miami tupiniquim dos pobres – dispara o escritor João Ubaldo Ribeiro, ilustre itaparicano, que passa férias na ilha e não se conteve ao tomar conhecimento do grande empreendimento.

O protesto do escritor que universalizou a ilha em seus livros vem desencadeando uma série de manifestações de artistas e intelectuais, preocupados com o impacto das obras em dois santuários, a Baía de Todos os Santos e as cidades de Itaparica e Vera Cruz. Hoje, Itaparica é uma bucólica e paradisíaca ilha com pouco mais de 20 mil habitantes, distribuídos em 240 quilômetros quadrados. Ubaldo acha que, de um lado, a ponte atrairá mais pobreza, violência e destruição ambiental e, de outro, a especulação imobiliária, com requintados e milionários condomínios fechados.

– Não haverá preservação coisa nenhuma – diz o escritor, que sacudiu a Bahia com um artigo, Adeus, Itaparica, publicado a seu pedido no jornal A Tarde, de Salvador. Embora garanta que não teve a pretensão de abrir uma cruzada, o escritor ganhou gosto pela polêmica e reforçou seus argumentos com severas críticas à iniciativa. – Só expressei minha desolação.

João Ubaldo, que considera o projeto “uma estupidez” movida, entre outros fatores, por um processo de estigmatização do “ferry-boat”, o precário sistema de travessia de Salvador para Itaparica, cujas filas, em feriados e fins de semana, se arrastam por até seis horas.

– Com R$ 150 milhões de investimentos é possível reaparelhar e colocar mais três ou quatro embarcações sem correr o risco de homiziar as favelas ou nos deixar como marisco entre os donos da terra e os posseiros – desabafa o escritor. Ele diz que a procura por terra já começou e afirma, com base em informações de amigos engenheiros, que a estimativa de gastos do governo estadual faz parte do “velho golpe” de começar uma obra e depois dizer que o orçamento estourou. – Pode apostar que não cobre (o valor estimado) nem o primeiro quarto da ponte.

O governo baiano praticamente já abriu o canteiro de obras para a construção da ponte, que será mais longa que a Rio-Niterói (13,2 km) e comparável à Vasco da Gama, sobre o Rio Tejo, em Portugal (17,3 quilômetros). Há mais de três décadas na gaveta, um esboço do projeto foi entregue por Wagner ao presidente Lula em março do ano passado, com um pedido para que a iniciativa fosse incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2. O resultado já é visível: o orçamento do Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (Denit) deste ano tem disponíveis exatos R$ 23.752.770,00 para os estudos de viabilidade e dos impactos da obra.

– O João Ubaldo tem todo o direito de destilar o veneno dele. Deve estar olhando para governos anteriores – reagiu o secretário de Planejamento do governo baiano, Walter Pinheiro. A ponte, segundo Pinheiro, vai além de Itaparica. Criaria um novo eixo de expansão da já esgotada região metropolitana de Salvador pelo lado Oeste do estado, interligando uma via expressa a partir do Porto de Salvador ao Recôncavo Baiano e à região do Baixo Sul da Baia pela BR-242. E desta para as duas principais rodovias federais, a 116, em direção ao centro do país, e a 101, pelo litoral.

Na semana passada, com a publicação do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) convocando empresas e pessoas física interessadas em esboçar o projeto da ponte, o governo baiano sinalizou que não se trata mais de uma simples idéia. Depois, garante o secretário de Planejamento, Walter Pinheiro, virão as outras etapas, como o edital e, finalmente, a licitação.

População local apoiaria obra em caso de plebiscito

Encarregado de tocar o projeto da ponte Salvador-Itaparica, o secretário de Planejamento, Walter Pinheiro garante que as obras só serão executadas depois de uma ampla discussão com a sociedade baiana. Apesar dos grandes interesses que colocam duas gigantes da construção civil como possíveis participantes, a OAS e a Odebrecht, o governo não fechou ainda com nenhum projeto, cujo prazo para apresentação vai até 14 de março. Pinheiro responde o principal crítico da obra, o escritor João Ubaldo Ribeiro, afirmando que a reação é resultado do amplo debate.

– O velho João Ubaldo saiu da rede. Se não fosse o PMI (Procedimento de Manifestação de Interesse), ele receberia a ponte pelo peito – ironiza o secretário. Pinheiro garante que o projeto tem viabilidade econômica, sustenta que o governo está atento a todos os aspectos do impacto da obra e afirma que a suspeita de corrupção levantadas pelo escritor é vício da eterna desconfiança de governos passados. – O João Ubaldo não se libertou do vício da coisa pronta.

O secretário acha que, ao levantar suspeitas de propina antes da existência de um projeto, o escritor está “adjetivando” o próprio irmão, o engenheiro Manuel Ribeiro Filho, diretor da OAS, uma das empreiteiras que reivindicam participação na obra. Irmão mais novo de João Ubaldo, Manuel entregou ao governo, no ano passado, uma proposta de construção da via expressa Salvador-Itaparica, reforçando a viabilidade das obras para a economia de Bahia.

Ao JB, o escritor afirmou que diverge das opiniões do irmão e admite que, caso o governo recorra ao que chama de “modismo” e realize um plebiscito, a maioria dos moradores da ilha estará a favor da ponte.

– Se a gente fizesse uma lista de quem mora em Itaparica e é a favor da ponte, seria uma covardia. O João Ubaldo vai lá de vez em quando – alfineta o secretário de Planejamento que, apesar das divergências por causa da obra, se define como um fã do escritor. – Viva o Povo Brasileiro (uma das mais famosas obras do escritor) é meu livro de cabeceira. (V.Q.)

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