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João Ubaldo não está só.

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Itaparica: ainda não é adeus

Por Claudio Leal, Franciel Cruz, Maria Olivia Soares, Saymon Nascimento e Vitor Pamplona

A crônica “Adeus, Itaparica” (22/01/2010, A Tarde), do escritor João Ubaldo Ribeiro, provocou a formação de um abaixo-assinado em apoio ao autor de “Viva o povo brasileiro”, em defesa da Ilha de Itaparica e favorável a um debate público sobre a prioridade da bilionária Ponte Salvador-Itaparica, defendida pelo governo do Estado.

Entre os signatários de primeira hora, os escritores Luis Fernando Verissimo e Hélio Pólvora, o jornalista Sebastião Nery e os integrantes da Geração Mapa (companheiros de Ubaldo), Ângelo Roberto, Antonio Guerra Lima, Fernando da Rocha Peres, Fred de Souza Castro e Milze Soares.

Os professores Roberto Albergaria e André Setaro e o poeta Ruy Espinheira Filho também assinaram o manifesto que solicita uma resposta oficial do governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner (PT), ao polêmico artigo do romancista. “Este texto, necessário, oportuno, com a devida contundência, eu assino e dou fé”, afirmou o cineasta Tuna Espinheira, diretor de “Cascalho”.

A coleta de assinaturas está sendo feita por e-mail (manifestoitaparica@gmail.com) e por meio de uma petição online ( http://www.gopetition.com/online/33669.html ).

A iniciativa partiu de um grupo de jovens jornalistas e veteranos, escritores e amigos geracionais de João Ubaldo Ribeiro, dispostos a não permitir que “sobre as águas calmas e azuladas de Yemanjá” se erga “um monumento ao empreendedorismo desalmado”.

A meta é recolher assinaturas em todo o País e chamar atenção para a ameaça do megaempreendimento ao ecossistema da Ilha e à Baía de Todos-os-Santos. O texto final será remetido ao governador Jaques Wagner e ao romancista itaparicano, que já foi informado sobre o movimento da sociedade civil. “(Ubaldo) não está sozinho em seus questionamentos”, diz o abaixo-assinado.
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================================================= ITAPARICA

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ITAPARICA: AINDA NÃO É ADEUS

Abaixo-assinado sobre a construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica

“Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de uma igrejinha venerável por milagre preservada”

(João Ubaldo Ribeiro)

Os abaixo-assinados, cidadãos brasileiros, encontraram no emocionante e esclarecedor artigo “Adeus, Itaparica” (Jornal A Tarde, 22/01/2010), de autoria do escritor João Ubaldo Ribeiro, argumentos consistentes e equilibrados para inaugurar um debate amplo sobre o anteprojeto de construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica, anunciado pelo governo do Estado da Bahia. O itaparicano João Ubaldo, cujos romances puseram a Ilha na geografia literária brasileira e universal, é uma voz qualificada para questionar elementos sombrios e outros mais claros do empreendimento, previsto como bilionário para os cofres públicos e incerto para o destino ecológico e econômico da maior ilha marítima do Brasil. O autor de “Viva o povo brasileiro” não está sozinho em seus questionamentos e nos incorporamos a eles nos seguintes pontos:

1. É dever do governo do Estado da Bahia abrir um abrangente debate público sobre o projeto da Ponte Salvador-Itaparica, cujo edital de parâmetros para a construção foi anunciado pelo secretário de Planejamento, Walter Pinheiro. Entendemos que uma obra dessa dimensão deve ser discutida previamente com o povo baiano em audiências públicas (sobretudo nos municípios de Salvador, Itaparica e Vera Cruz), e não imposta por decisão unilateral do Estado.

2. Lamentamos o anúncio do anteprojeto de uma ponte de 13km sem a realização prévia de um estudo aprofundado de impacto ambiental, histórico e econômico. Representantes da administração estadual alegam vantagens de naturezas diversas, numa polifonia oficial ruidosa e nebulosa quanto às metas do governo. Será a ponte a via tecnicamente mais adequada para melhorar a logística da economia estadual e ao mesmo tempo revigorar a Ilha sem prejudicar suas características?

3. O precário serviço terceirizado de transporte marítimo (ferry-boat) Salvador-Itaparica não é um argumento sólido para justificar a construção de uma ponte faraônica e abracadabrante. Os cidadãos têm direito a um serviço público razoável e eficiente. Cabe ao governo oferecê-lo, como oferecem vários governos ao redor do mundo.

4. Não é clara a prioridade do projeto para o desenvolvimento econômico da Bahia, nem mesmo para o turismo regional. Na capital baiana, há prioridades infra-estruturais gigantescas ainda não atendidas pelo Estado (municipal, estadual e federal), a exemplo da construção do Metrô de Salvador, cujas obras se arrastam, penosamente, há uma década, sem perspectiva de conclusão. Há ainda dezenas de intervenções mais prioritárias, a exemplo da urbanização de áreas periféricas e recuperação de vias de acesso à capital baiana, além de investimentos básicos na própria Ilha e na preservação da Baía.

5. João Ubaldo é irrespondível quando lembra o risco de a intervenção estatal estimular o turismo predatório na Ilha de Itaparica e no entorno da Baía de Todos-os-Santos, com megaempreendimentos agressivos ao meio ambiente e descaracterizadores da singularidade histórica da Bahia. Como enfatiza o escritor, os argumentos governamentais e empresariais apresentados até esse momento prenunciam um “atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História”.

6. Anteprojetos e desenhos da estrutura da Ponte Salvador-Itaparica, divulgados pela mídia baiana, apontam para uma agressão à paisagem da Baía de Todos-os-Santos, um patrimônio ambiental inalienável do povo baiano, talvez o último a salvo da sanha empresarial que avança sobre o meio ambiente de Salvador e do Estado. Em sua visita à Bahia, em 1949, o escritor Albert Camus anotou em seu diário de viagem: “Prefiro essa baía à do Rio, muito espetacular para o meu gosto. Esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. A ponte atingirá a medida e a poesia evocada por Camus, já incorporadas à alma dos baianos e dos turistas; sobre as águas calmas e azuladas de Yemanjá vai se erguer um monumento ao empreendedorismo desalmado?

7. Desejamos uma resposta formal do governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner, ao artigo do romancista João Ubaldo Ribeiro e aos baianos. Seria um gesto de delicadeza e compromisso com os princípios democráticos fundadores do seu programa de governo.

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Comentários

Marcos Vinícius on 26 Janeiro, 2010 at 18:00 #

Já assinei. Movimento mais do que justo.


Donatila on 26 Janeiro, 2010 at 18:02 #

Todo apoio ao escritor João Ubaldo Ribeiro, Já assinei o abaixo-assinado na rede. Parabéns pela oportuna iniciativa.


Gaça Azeedo on 26 Janeiro, 2010 at 18:31 #

Assinei em seguida. Com a coerência de sempre.


Altino Machado on 26 Janeiro, 2010 at 22:50 #

Daqui, do Acre, o meu irrestrito apoio à resistência baiana que se forma a partir do protesto de João Ubaldo Ribeiro. Que haja máxima transparência no debate sobre a obra porque os interesses privados ou de um governo passageiro pode se sobrepor aos interesses da sociedade.


Altino Machado on 26 Janeiro, 2010 at 22:59 #

Daqui, do Acre, o meu irrestrito apoio à resistência baiana que se forma a partir do protesto de João Ubaldo Ribeiro. Que haja máxima transparência no debate sobre a obra porque os interesses privados ou de um governo passageiro não podem se sobrepor aos interesses da sociedade.


eduardo sacramento on 27 Janeiro, 2010 at 12:26 #

nao e possivel eles ficarao loucos he…………… eu moro moro na italia sou de salvador nacido a criado porfavor vamos luta pra que essa ponte nao seja construida sobre as aguas azus e calma da nossa mae yemanja nao deixenhi isso acontecer vamos luta por isso viva o povo baiano de sao salvador e itaparica vamos brigar pra que isso nao aconteça


José Carlos Cruz on 29 Janeiro, 2010 at 14:42 #

PONTE ITAPARICA
A construção da ponte é uma necessidade antiga, a exemplo Niteroi. Em cidades desenvolvidas o transporte é digno e eficaz, o que não dá é ficar horas numa fila, pagar caro, ser mal atendido e ter um transporte ultrapassado e inseguro, só na cabeça dos intelectuais é que isso é digno, duvido que eles passem por esse sufoco e sintam-se bem. “Afinal eles moram na favela”. É estranho esse manifesto (que é político) e não se pronunciaram contra o METRÔ este sim que não quer dizer nada, não traz nenhum beneficio para a população, pelo contrário é uma agressão ao meio ambiente.
Sou favorável a construção da ponte acho que vai trazer inúmeros benefícios (saúde, educação, emprego, segurança, respeito, dignidade, etc. …)

J.C.Cruz.


rogerio campos on 1 Fevereiro, 2010 at 17:45 #

assinei o manifesto, que não é exatamente em apoio a João Ubaldo Ribeiro mas à Ilha de Itaparica e também a Salvador, que não suportariam a primeira o turismo predatório e de alto coturno, como ocorre em outras regiões da Bahia e do Brasil e, tanto Itaparica quanto Salvador e as pequenas cidades e entornos do litoral norte o tráfego pesado de caminhões de 80 toneladas que, pelas mesmas razões expostas pelo secretário de infraestrutura (“economia no combustível”) seriam desviados da BR 101 e da BR 116 para passar por dentro da Ilha, de Salvador, de Lauro de Freitas, para fazer da Estrada do Coco, a via preferencial para quem vem ou vai carregado pro Sul-Sudeste ou Nordeste. Vamos lutar contra esta ponte, os escritores, os amoladores de faca, os pintores, os poetas, os engraxates, as baianas de acarajés, os representantes políticos, os jornalistas, os vendedores de mel, os pescadores artesanais, os artesãos da industria naval do Recôncavo, os velhos marinheiros. os babalorixás, os músicos, os baianos e estrangeiros, os de bom senso, os brancaleones. Triste Bahia,oh tão desemelhante tantos negócios tantos negociantes.


Janio Santos on 8 Fevereiro, 2010 at 19:10 #

Eu até assinaria. Mas, não creio que isso deva partir, exclusiva e especificamente, de alguém que reside no Rio de Janeiro e que, no máximo, passa alguns dias de suas preciosas e ricas férias em Itaparica; que não vive e nem passa por todos os problemas que a supramencionada Ilha possui. Como pesquisador, concordo que a Ponte tem um interesse exclusivo: a reproduçào do capital turístico e dos interesses hegemônicos de grupos, isso é visível em outros lugares, como Morro de São Paulo. Todavia, apenas passar 10 dias de férias, sem se envolver com os problemas cotidianos da comunidade (que se agigantam em períodos de crise), no não acesso a uma infinidade de direitos, inclusive, no direito a uma vida digna, não me parece a postura política e ideológica mais condizente. Para mim, que trabalhei na Ilha, que não é e nem nunca foi “da fantasia”, inclusive, dessa fantasia criada por João Ubaldo, que, por sinal, é parte da própria elite do Município de Itaparica, suas palavras soam meramente como retórica, sem quaisquer contribuição à uma real transformação social. Quer dizer, a presença ou não da ponte mudará o que de efetivo na vida daquela comunidade? Essa é a verdadeira raiz do problema João Ubaldo?


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