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Postado em 23-01-2010
Arquivado em (Artigos, Rosane) por vitor em 23-01-2010 11:56

UBALDO:VIGOROSO ANIVERSARIANTE

ROSANE SANTANA

BOSTON (EUA) – O escritor João Ubaldo Ribeiro está de volta a Bahia, ou melhor, a Itaparica, onde comemora hoje 69 anos, na casa que foi de seu avô Ubaldo Osório, onde nasceu, repetindo um ritual de anos. O intelectual celebrizado no Brasil e no exterior, através de romances como “Viva o Povo Brasileiro” e “Sargento Getúlio”, desferiu ontem, com a verve de sempre, contudentes críticas ao projeto de construção da ponte entre Salvador e Itaparica.

Em texto de extraordinário vigor, João Ubaldo volta a atacar a proposta do governo baiano, contra a qual se posicionou desde o ano passado, por considerá-la dispendiosa e economicamente inviável, além de uma ameaça a cultura local e ao meio ambiente. Ele acusa os idealizadores de “ávidos sacerdotes de mamon”, “filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas”.

Em homenagem ao aniversário daquele que é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa, Prêmio Camões 2008, Bahia em Pauta reproduz o artigo “Adeus Itaparica”, publicado originalmente em A TARDE.

( Rosane Santana, jornalista, mestre em História pela UFBA, mora em Boston há trêa anos, estuda em Harvard e arruma as malas para retornar à terrinha em fevereiro)
 

 

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João Ubaldo Ribeiro…

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…”Adeus, Itaparica do meu coração”

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O ARTIGO DE JOÃO UBALDO

Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terrA, na casa onde nasci. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo.

De lá para cá, muito se tem perpetrado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.

Conheço esse progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.

Também conheço os argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente responsáveis. Na verdade, sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aquele que investe aqui usando os mesmos padrões aplicados em PagoPago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através do abastardamento de toda a verdadeira riqueza das populações assim atingidas.

As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda.

Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso.

Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shoppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional. Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram substituídas por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro socioeconômico e cultural, os saveiros seriam subsidiados, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda a região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.

Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daqui a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não têm como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouvi todos os verbos terminados em “izar” com que julgam dar autoridade a seu discurso.

É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas, pelo menos, não traio meu velho avô.

JOÃO UBALDO RIBEIRO

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Comentários

Claudio Leal on 23 Janeiro, 2010 at 12:40 #

Magnífico artigo de João Ubaldo Ribeiro, que nos vinga com suas palavras. Há um processo deliberado de destruir o patrimônio histórico e imaterial da Bahia, a serviço de plutocratas e empreiteiros, agora claramente acarinhados pelo governo baiano com esse projeto perdulário da Ponte Salvador-Itaparica. É uma irresponsabilidade com o dinheiro público, um atentado contra a Baía de Todos-os-Santos e, como disse Ubaldo, um “estupro” contra Itaparica. Cadê os ambientalistas do Greenpeace? Cadê os historiadores? Os professores de merda da Universidade Federal da Bahia? Por enquanto, o romancista é o único a espernear, com a autoridade de quem pôs Itaparica no mapa literário do Brasil. E ele cumpre a missão do intelectual, segundo Edward W. Said: ser um dissidente atuando à margem do poder.


Cida Torneros on 23 Janeiro, 2010 at 12:46 #

Parabéns para o grande e talentoso João Ubaldo, defensor da Bahia histórica, antenado com a realidade maior do seu povo. beijos cariocas pra ele no seu niver, com votos de saúde e força pra lutar contra os depredadores que agem em nome de um “progresso” avassalador e mentiroso.
Cida Torneros


Olivia on 23 Janeiro, 2010 at 20:15 #

Avante Claudio Leal, vamos nos rebelar, chega de mesmice. Cadê a turba da “resistência”. De São Paulo lidere o movimento, tô dentro.


rosane santana on 23 Janeiro, 2010 at 20:30 #

“Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda”. Seria Odebrecht?


rosane santana on 23 Janeiro, 2010 at 20:41 #

“Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis”.


rosane santana on 23 Janeiro, 2010 at 20:44 #

“Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.”(Oswald de Andrade). Salve Ubaldo!


rosane santana on 23 Janeiro, 2010 at 20:46 #

“Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre.”


rosane santana on 23 Janeiro, 2010 at 20:47 #

“Tupi, or not tupi that is the question.”(Oswald de Andrade)


Chico Bruno on 24 Janeiro, 2010 at 13:02 #

Qual a solução que os senhores (as) oferecem para a falência do ferry-boat?


rosane santana on 24 Janeiro, 2010 at 18:07 #

Caro Chico: ferry-boat existe em todo o mundo e funciona. Por que não na Bahia? E, por que o interesse em uma obra de 6 bilhões de reais(é o que diz o governo, mas outras fontes apostam em 10 bilhões), que seria licitada no último ano de uma gestão? Para ficar inacabada como o metrô de Salvador? Se Paulo Souto ganhar a eleição, o que é uma possibilidade, dará prosseguimento? Ou, se Serra ganhar, vai liberar recursos para a citada ponte, em caso de Wagner sair vitorioso? Já pensou uma Baia de Todos os Santos decorada com as fundações de uma obra inconclusa? Já não basta o metrô? E por que não terminar o metrô, que é , sim, uma obra prioritária? Por que o interesse súbito em uma obra que, verdadeiramente, nunca foi prioridade e era, até antes dos negócios entre Odebrecht e o governo Lula, algo que não interessava ao empreiteiro? Ora, caro Chico, você, jornalista muito mais inteligente que eu, sabe muito bem a que se destinam as grandes obras neste país, mas parece que os mesmos que condenavam ACM, pelo nada inocente espírito de faraó, estão agora a imitá-lo. Pois, sabes melhor que eu, que obras desse gênero são prato cheio para corrupção, ou melhor, são fruto da corrupção em países tupiniquins, arremedos de potência, onde abundam a desigualdade social, o analfabetismo, a ausência de cidadania, com os tais aditivos que nunca acabam e aumentam em progressão geométrica o valor do empreedimento para engordar cofres privados. Isso é, sim, fruto e radiografia do nosso atraso. Ubaldo, um intelectual dos grandes deste país, sabe disso, e seu artigo constitui-se um libelo, bárbaro!


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