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Bahia em Pauta estende o seu tapete vermelho para receber o texto de uma figura especial nesta quarta-feira,20: a jornalista Thais Bilenky que visitou Israel e Jordânia em janeiro deste ano e relata o que viu e sentiu.

“Gente boa”, como a define o repórter Claudio Leal , de Terra Magazine em Sampa, e este editor referenda desde que a conheceu pessoalmente na Bahia e teve na jovem paulista uma das mais atentas, antenadas e corretas editoras de seus textos semanais em TM.

Ex-repórter de Terra Magazine, em São Paulo, a paulistana – e vocacionalmente baiana – Thais deixou a marca de sua sensibilidade de repórter na cobertura cultural e política da revista eletrônica do portal Terra. Desde o final de 2009 ela se dedica a outros projetos profissionais.

Sempre inquieta, basta viajar e as mãos de jornalista coçam para escrever, como comprova a cobertura do carnaval passado, em Salvador, e este texto especial para o Bahia em Pauta.Thais conta que quando leu o recado do editor de BP, para ela mandar algum texto, pegou uma caderneta e escreveu a crônica no ônibus, no retorno de Eilat para Jerusalém

Thais, querida moça da Rua Augusta com jornalismo á flor da pele, você merece bem mais que um simples tapete vermelho. Bahia em Pauta agradece pelo esforço e o texto empolgante. Chega mais.

( Vitor Hugo Soares, com ajuda preciosa do reporter de TM, Claudio Leal)

Tel-Aviv:surpresas, humor e emoções

Thais Bilenky

Os israelenses adoram os brasileiros. O garçom em Eilat se empolga ao saber que o cliente nasceu no país em que acabara de passar três meses. Depois de três anos servindo ao Exército, um ex-soldado corre em direção aos visitantes numa festa em Tel Aviv, para saber onde deve ficar durante o ano que pretende viver no Brasil. Seu amigo vai atrás, e o outro anota telefones e cidades.
A amistosidade é grande, mas a burocracia em Israel é menos afável. A entrada no país, judaico, cravado no Oriente Médio árabe, em constante guerra com os vizinhos, é tensa. Interrogatórios, inspeções alfandegárias, raios-x, vistorias, novos interrogatórios. Quem deseja conhecer Jerusalém, cidade-berço das três maiores religiões monoteístas do mundo, não o faz sem paciência.
A vida em Israel é móvel. O país, de 22 072 km² de extensão, é coberto por eficiente malha rodoviária e ferroviária, metrô nas maiores cidades e táxis à vontade. Muitos israelenses vivem nas pequenas cidades que circundam os centros urbanos onde trabalham (Tel Aviv é o principal). Os oficiais do Exército têm direito a transporte público gratuito. O serviço é obrigatório para homens entre 19 e 22 anos e para mulheres entre os 19 e 21 anos.

Os israelenses tentam, não raro, mostrar que o país é seguro, “diferentemente do que se mostra na tevê”, alegam. Gostam de lembrar que o Exército é mais “mundano” do que se pensa. E, sim, algumas meninas chegam a considerá-lo “divertido”. Longe das frentes de combate, o cotidiano israelense é claramente bom, abastecido por um desenvolvimento tecnológico avançado, bolsas e incentivos de estudo, e até o sustento, pelo Estado, de judeus ortodoxos que não trabalham. Mas um turista “inofensivo e desarmado” nem sempre consegue se sentir em paz.
Um breve relato pessoal pode ajudar a colorir a descrição. De Tel Aviv fui de ônibus para Eilat, um balneário ao Sul cercado pelo Mar Vermelho, para visitar as ruínas de Petra, na Jordânia. O roteiro é comum entre turistas, estrangeiros e nativos. Em geral, é feito em grupo ou excursões com guias jordanianos. Fui com uma amiga, Ana, e só.
Sair de Israel e atravessar a pé os 200 metros de fronteira até o país árabe vizinho se
anunciou assustador. As duas horas que enfrentaríamos até chegar ao pólo turístico geravam ansiedade. Entre os muros e arames farpados e elétricos dos dois países, uma mulher vem puxar papo.

Sorri ao saber que fala com brasileiras:
– Nossos filhos terminam o Exército e vão direto para o Brasil. E vocês… vêm para cá?
Mas ela gosta mesmo de saber que somos judias. O sorriso não mente. Pedimos para participar de seu grupo de excursão e ela se dirige ao cicerone, que acede mas logo volta atrás quando o soldado jordaniano recolhe nossos passaportes. Depois de uma visita à alfândega, voltamos ao muro com arame farpado e nos deparamos com dez homens que falam um inglês rudimentar. São taxistas consorciados que tabelam um preço (alto) para levar turistas perdidos à Petra.
Brasileiras e judias, conseguimos driblar a apreensão e pechinchar: 90 dinar (1 dinar
jordaniano vale aproximadamente 2,50 reais) ida e volta. Não havia muitas opções, entramos no carro. O deserto sul-jordaniano é lindíssimo, mas o chaveiro em forma de bala de revólver, o carro todo costurado, as fotografias de homens apontando metralhadoras chamavam mais a atenção. Natural da cidade de Aqaba, Mohamed, o motorista falante e alegre, percebe a aflição das passageiras e cisma em amenizar a tensão:
– Jordan safe. Very safe.
Todo dia, conta, leva turistas de Eilat a Petra, Petra a Eilat. No seu celular, garante que guarda fotos recentes de passageiras argentinas, e fotografou só para mostrar ao filho. O telefone toca, somos incapazes de compreender o tema da conversa, mas Mohamed sorri, ao desligar:

– Meu filho. Tenho esse filho, outra da idade de vocês e uma esposa.
Pausa. Mira pelo retrovisor:

– Only one wife.
Feita a manobra de turismo, ver Israel a poucos metros é um alívio. Os soldados jordanianos na fronteira se alegram com o “República Federativa do Brasil” do passaporte, perguntam pelo Kaká (pronunciam Káka), pelo Rio de Janeiro, pelas “cheeks brasileñas”, sorriem e manifestam satisfação com nossa visita.
Chega-se a Israel, uma militar recolhe nossos passaportes. Ana é liberada rapidamente. Thais, não. Qual a origem do nome? O significado? Desconheço. Mas há um significado?, insiste.

“Deve ter, não sei, é um nome comum no Brasil…” E não me pergunta se sou judia. Quer saber se tenho irmãos, quais os nomes deles e dos meus pais, se celebro feriados judaicos. Quais? Por quê? Digo que são encontros familiares, importantes para nossos avós, a comida é boa. Mas percebo que quer argumentos mais precisos. Hosh Hashaná é o ano novo judaico, Iom Kipur o dia do perdão. Digo que fiz Bat Mitzvá. A soldada, com entusiasmo modesto, seguindo uma lógica própria, enfim me pergunta se sou judia e me deixa passar, na hora em que me animei.

 Dia seguinte, sete horas da manhã, o ônibus deixa Eilat a caminho de Jerusalém. Ao nosso lado um homem entrado nos 40 anos de idade, de origem árabe, bem vestido, senta-se. Traz consigo uma mala preta e uma sacola de compras. Em Israel, uma maleta preta como a dele não resiste por dez minutos se abandonada ao relento. Soldados explodem-na antes que ela… Isso aí. A sacola cai da prateleira do ônibus. Alertado, o homem a recolhe e, meio constrangido, informa:
– É doce.
Ajeita a mala na prateleira. Estica o paletó, checa os bolsos, verifica as horas em intervalos mínimos – e o celular também. Observa com atenção cada passageiro. Não cochila como os demais. Paranoia e preconceito, sem dúvida. Mas se um turista bobo e judeu é feito suspeito, um homem árabe, sozinho, soa amedrontador. Mas o ônibus não pareceu se importar, à minha exceção.

Não são comuns cenas de agressão pública entre judeus e árabes nas ruas de Israel, mas o jornal Jerusalém Post dá conta de que 67% dos israelenses têm medo de que a violência afete sua família no dia-a-dia. Entre os palestinos, o temor chega a 77% da população, segundo o mesmo periódico. Ao contrário das pesquisas, tem-se a impressão de que quem vive em Israel, e na Palestina de modo geral, em comparação com os ocidentais, é mais familiarizado com a tensão no Oriente Médio e entende, por experiência própria, o confronto entre judeus e árabes; no caso dos israelenses, aparentemente, a passagem pelo Exército desmistifica o conflito. Quem chega desavisado com a máquina fotográfica nas mãos é que vê tudo com flash: como se a vida na região fossem cenas de um filme de ação e perigo.
E, no fim, parece bem mais assustador do que a vida como ela tem que ser.
Thais Bilenky é jornalista, mora em São Paulo e adora a Rua Augusta

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Comentários

Olivia on 20 Janeiro, 2010 at 21:35 #

Que beleza amiga. Maravilha de texto, sua pena no Bahia em Pauta muito me alegra. O Carnaval tá chegando e a Bahia espera a moça da Rua Augusta de braços e corações abertos.


Claudio on 20 Janeiro, 2010 at 22:01 #

Olívia,

Acho que ela vai nos trocar mesmo é pelo carnaval de Tel-Aviv. Mas já fiz uma petição ao rabino Henrrrrry Xsssobel para liberá-la do serviço carnavalesco obrigatório. Para ser deferida, enviei junto uma gravata. De resto, o texto tá de tirar o kippot!


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