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Postado em 15-01-2010
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 15-01-2010 08:46

DEU NA COLUNA

… “E seguiu para a igrejinha, sempre em destaque nas pequenas comunidades, porta entreaberta, mas desguarnecida. Entrou”…Este é um pequeno trecho da história comovente que o jornalista político Ivan de Carvalho narra em sua coluna na edição de hoje na Tribuna da Bahia, em mais um -e merecido – tributo à memória da médica Zilda Arns, morta dentro de uma igreja em Porto Príncipe, vítima do terremoto arrasador no Haiti.
(VHS)
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Sinais no Haiti

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OPINIÃO POLÍTICA

Meu Deus, me dê um sinal
Ivan de Carvalo

Quase comecei pedindo perdão aos meus poucos e pacientes leitores por escrever, pelo segundo dia consecutivo, sobre Zilda Arns. Mas optei pela música – e recente atitude – de Caetano Veloso, no caso de suas críticas a Lula e às desculpas que a mãe do cantor e compositor baiano pediu ao presidente.
“Não peço desculpas / e nem peço perdão”. Em verdade não é excesso escrever, seja em dois dias consecutivos, seja em muitos, sobre Zilda Arns, a fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa.
Desta vez, não pretendo, ao contrário do que tentei fazer ontem, qualquer prospecção sobre o sentido da vida e da obra dessa guerreira da paz, da fraternidade e do amor na sua expressão mais elevada – o amor a Deus e à humanidade.
E não esperem de mim detalhes e miudezas da história que vou contar, lembrada quando o sono recusava-se a chegar no tempo habitual. É que o ser humano registra na memória tudo que experimenta, sente, vê, fala, ouve ou simplesmente percebe. Mas a imensa maioria de toda essa gigantesca massa de informação não permanece no que, para simplificar, chamaria de “memória operacional”, sempre disponível.
A maior parte vai para alguma espécie de “arquivo morto”, de onde só emerge, quando algum evento extraordinário ou algo que parece o acaso – que não existe – arranca algum conteúdo de memória daquele arquivo morto e o projeta na memória operacional.
Bem, no caso de dona Zilda Arns, a breve e singela história estava na memória operacional – onde ficam as informações cruciais, bem como as que usamos em nossa rotina e as que nos marcam emocionalmente – e certamente não foi a primeira vez que lembrei dela. Li, há uns anos, uma entrevista da irmã do cardeal Arns (ou deveria o cardeal ser qualificado de “o irmão de Zilda”? – eis uma questão difícil de responder, deixa prá lá).
Uma entrevista a uma revista de circulação nacional, cujo nome não lembro, porque não importava. Zilda Arns contava sua ida a uma pequena e humilde comunidade no interior do Brasil. Visita marcada, dia e hora previstos, imaginava ser recebida pela população local. Chegou, o lugar estava deserto. Ninguém a aguardava para as boas vindas, sequer para um bom dia. Casas fechadas, outras com portas entreabertas, mas pessoas… nenhuma. Decepcionada, conta ela, pensou: “Meu Deus, me dê um sinal de que vale a pena” toda aquela luta em que se envolvera. E seguiu para a igrejinha, sempre em destaque nas pequenas comunidades, porta entreaberta, mas desguarnecida. Entrou. E de repente viu-se coberta por uma intensa chuva de pétalas de rosa que caiam dos lugares altos.
Reconheceu na hora: “Obrigada. Que maravilhoso sinal me deste…”.
No Haiti, recebeu, aos 75 anos, outro sinal. Ou nós recebemos. Se estava na hora de ir, então que não fosse da cama de hospital, de uma gripe, mas de terremoto, em missão, de modo que o Brasil, o Haiti e o mundo mais conhecessem sua obra. Ela pedira um sinal, Deus deu dois.

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