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Postado em 07-01-2010
Arquivado em (Artigos, Claudio, Multimídia) por vitor em 07-01-2010 12:37

A canção que unia Dalva a Lamenha

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CRÕNICA/ENCONTROS

Sylvio Lamenha e Dalva de Oliveira, outra canção de amor

Claudio leal

O nome do cronista caiu na mesa. Ligeira busca na memória, persistente dúvida interna, um movimento das sobrancelhas rarefeitas. O professor Cid Teixeira, esse gênio de historiador desengravatado, recorre aos dois entrevistadores: “Sylvio Lamenha ainda é vivo?”. Resposta do antropólogo Roberto Albergaria, numa síntese melancólica: “Todos já estão mortos, Cid”.

Pois veja, depois de uma sentença tão definitiva, do lado cá dos vivos os companheiros de boêmia e de jornalismo deram de reviver Sylvio Lamenha a cada capítulo da minissérie global “Dalva e Herivelto – Uma canção de amor”, um brilhante diário para os telespectadores. Mas, por desígnios da morte, falta um espectador das desventuras do casal mais talentoso e briguento da música brasileira.

Imitador e fã extremado de Dalva de Oliveira, capaz de reproduzir os erres estridentes da cantora, Lamenha é uma pontada de saudade a cada aparição de Adriana Esteves, a intérprete da “Divina”. Jornalista do Diário de Notícias nos anos 60, o advogado Antonio Guerra Lima se lembrará por décadas das manhãs em que Sylvio cantava na redação um clássico de Herivelto Martins, “Ave Maria no Morro”, enquanto batucava na máquina a coluna “Hi-So”, insuperável em vibração cultural e diversidade de rostos. Ele pode ser flagrado no ofício, caderneta em punho, como um colunista social do filme “Tocaia no Asfalto”, de Roberto Pires. Encerrava a tripa de notinhas, invariavelmente, com um poema: “E, no mais, poesia é axial”.

Gay “avant la lettre”, Lamenha era ralhado pelo paternal diretor dos Diários Associados na Bahia, Odorico Tavares: “Senhor Silvio, eu lhe dou uma coluna social e o senhor só me põe homem?”. Além de Dalva, a grande paixão platônica de Lamenha era o irmão de uma famosa miss com duas polegadas a menos. Baixem as cortinas.

Os trinados do baiano não tardaram a cativar o rouxinol. Ficaram amigos de copo e de palco. Em 1972, em fase de declínio, Dalva foi produzida pelo jornalista Tarso de Castro, parceiro do colunista social nos verões baianos, quando faziam farras em Salvador e na Ilha de Itaparica, não raro embarcados na lancha do construtor Walter Fernandez, a Atrevida (“O mundo é mais bonito/Com Benito/ A vida só tem vez/ Com Walter Fernandez”, anotava na Hi-So).

Numa sacada de fera, Tarso incluiu o jornalista no show da decadente Dalva, que morreria naquele ano, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Lamenha, autor da contracapa de um dos discos da cantora, atuava ao lado da musa Leila Diniz. Nome do espetáculo? “Vem de ré que eu estou de primeira”. Deu até pra notar o sorriso do leitor. Quem não viu a silhueta deve conferir a magnífica caricatura de Lamenha incorporando a estrela do rádio, feita pelo craque do bico de pena Ângelo Roberto.

O livro inspirador da minissérie global, “Minhas duas estrelas”, do grande cantor Pery Ribeiro (escrito em parceria com Ana Duarte), traz duas histórias em que Lamenha se torna reincidente no álcool e na amizade. Os gays sempre foram fãs ardorosos de Dalva, registra o filho da artista com Herivelto, “e esse era dos mais fanáticos”. Depois de um show com Chico Anysio, em Salvador, os músicos foram recebidos pelo prefeito da cidade.

Temeroso com a aproximação de Sylvio – a mãe deveria permanecer a quilômetros de qualquer drinque –, Pery Ribeiro passou o jantar olhando para os lados, atento à chegada do homem “inteligente e bom de papo”, mas desencaminhador de Dalva.

Perto do fim do encontro, ressurge a ave Lamenha, que arrebanha sua mãe para a noite de Salvador. Um telefonema desperta Pery na madrugada: embriagados, os dois não deixavam o dono de um bar de “quinta categoria” encerrar o expediente. Noutra temporada baiana, Lamenha introduziu conhaque no camarim da cantora, furando o bloqueio imposto pelo apresentador Luis Vieira. Bêbada, Dalva de Oliveira não conseguiu terminar o programa televisivo.

Sylvio Lamenha morreria de câncer, mas antes experimentou a fusão de bebida e desesperança, a mesma esteira em que derrapou a carreira de Dalva. Fantasiado de Nero, com uma lira furtada por Glauber Rocha e amigos do túmulo de Castro Alves, naufragou-se em cachaça e lança-perfume num baile do Bahiano de Tênis. Terminou no hospital, em coma. Mas não será lembrado somente por essas milongas. Projetado em Dalva, Lamenha encarnava esse desejo etéreo de distrair a morte com representações de hedonismo e alteridade. Até certa dose, valeu o engenho.

Claudio Leal é jornalista.

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Comentários

Mariana Soares on 7 Janeiro, 2010 at 13:16 #

Claudinho, que belíssima crônica!!! Você, realmente, tem uma pena de ouro, inteligência brilhante, emoção que rasga o coração e a alma da gente…Você é uma daquelas raríssimas exceções que sabe trasnformar sentimentos e emoções em palavras. Parabéns! Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor é, de fato, uma das mais belas séries que a Rede Globo já realizou, especialmente, para quem gosta de boa música e ama escancaradamente, embora não seja adepta aos arroubos e excessos da divina Dalva de Oliveira. Sua crônica, no entanto, para mim, superou a série televisiva. Palmas para você!!!


André Setaro on 7 Janeiro, 2010 at 13:46 #

Sobre ser uma interessante crônica do saudoso Lamenha, que precisa, urgentemente, ser redivivo, a escrita de Leal mostra um estilo incofundível e um raro sentido de observação e síntese dos caracteres humanos.


Olivia on 7 Janeiro, 2010 at 14:04 #

Valeu a crônica, companheiro. Deliciosa. Se nosso Armandão estivesse vivo, assinaria embaixo. Salve Dalva, Salve Lamenha. Vamos reviver estas histórias, a moçada precisa saber.


Carlos Volney on 7 Janeiro, 2010 at 16:21 #

Que delícia de crônica e que prazer reler Claudinho, a mais pujante afirmação da nova geração do jornalismo brasileiro. Diga-se que é admirado por mestre Vitor Hugo, precisa mais? Um beijo Claudinho e vida longa com sucesso profissional retumbante, como tenho certeza de que assm será.


Cleidiana Ramos on 7 Janeiro, 2010 at 20:39 #

Claudio: você, Cid Teixeira e Albergaria juntos é covardia….ler você é sempre um prazer. Abraços.


Luís Augusto on 9 julho, 2012 at 11:27 #

Fuçando na internet reminiscências juvenis, deparo-me tardiamente com esse texto de Cláudio Leal, cujo talento brilhou nos primeiros textos seus que li em A Tarde. Mas cedo para lembrar outra função de Sylvio, que conheci nos corredores da TV Itapoan: jurado do “Poder Jovem”. Sobre um trocadilho que fez no ar, disse um colega de bancada cujo nome não recordo: “Lamenhatável”. O que foi um “frisson”, pois era o apelido de conhecido homossexual da Bahia de antigamente.


Cida Torneros on 11 julho, 2012 at 13:34 #

llindooooooooo…eu amei e acompanhei Dalva de Oliveira, inclusive, como repórter, em 1972, qdo a perdemos..ela era estrela Dalva mesmo!


Aninha on 2 novembro, 2015 at 12:09 #

Leal, precisamos da biografia de Lamenha.


vitor on 2 novembro, 2015 at 15:55 #

Claudio é a escolha certa para realizar a biografia. Mas deixe que lhe diga, Aninha Franco. Sempre uma grande honra lê-la por estas bandas do BP, onde vc já publicou textos memoráveis. Bjs.


Silvana Olivieri on 2 novembro, 2015 at 20:02 #

Que alegria ler esse texto, Cláudio.
Sou sobrinha de Sylvio e estou começando um documentário sobre ele. Gostaria muito de conversar com vcs que o conheceram.


Zezé Medrado on 21 julho, 2016 at 12:12 #

Sylvio Lamenha também é a cara do Garcia , bairro onde morava, ali quase de frente ao Colégio 2 de Julho, e também é claro , das suas aprontava.
Figuraça!


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