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Postado em 30-12-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 30-12-2009 09:48

O jornalista e colaborador especial deste site-blog baiano. Patrick Brock, manda de Nova Iorque um conto de sua autoria publicado no extinto Caderno Dez!, do Jornal A Tarde, em meados de 2005. Fala de seu avô, que faleceu no último Natal aos 94 anos, após oito deles sem sair da cama.

Durão, sertanejo, sergipano de Lagarto, ultra-religioso e conservador, sêu Hélio veio da barriga da miséria nordestina e gostava de ler nas madrugadas. “Um dia achei “Céu e Inferno” de Aldous Huxley em sua biblioteca”, revela Patrick na mensagem mandada para o editor (e amigo admirador) junto com seu bem escrito e comovente conto de fim de ano, que Bahia em Pauta orgulhosamente compartilha com seus leitores.

BP agradece, Patrick!

(Vitor Hugo Soares, editor)

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CONTO DE FIM DE ANO

AERO WILLYS

Patrick Brock

Hélio Barbosa nasceu numa noite dolorida, pelas mãos de uma parteira caolha, no 12 de dezembro de 1916, na terra seca de Lagarto, onde os habitantes famintos acostumaram-se a caçar os répteis remanescentes. Cresceu forte e sadio, mas perdeu os pais para a tísica aos 18 anos. Ensaiava carreira militar; chegou a cabo e era organizado e prestativo. Mas o irmão mais velho, um padre de certa influência que deveria sustentar o peso da família pela tradição daquelas terras do Sergipe, negou a herança onerosa e influenciou a reprovação do irmão nos exames que o tornariam oficial. Resignado, Hélio cuidou da família. Fez bicos.

A próxima oportunidade foi no Banco do Brasil. Virou inspetor, famoso pela argúcia e exatidão. Corrigiu muitas agências bancárias de cidades esquecidas, como Adustina. Próspero, conheceu a filha de um fazendeiro decadente de cana de açúcar. Formaram numerosa família, instalaram-se na Rua Maruim, ao lado da catedral e da prefeitura. Ele obteve uma posição estável e um Aero-Willys verde. Decidiu estudar na Bahia, formou-se em direito já um senhor distinto e dedicou-se à parapsicologia. Pelo menos uma vez, conseguiu deixar o seu corpo físico, feito interrompido apenas pelo rodar alvoroçado de um ônibus na sua rua, que se tornara central à medida que a cidade crescera nos últimos vinte anos. Reza a lenda
que declarou ao americano que queria casar com sua filha, a segunda mais velha e também a única a realmente peitar sua disciplina ditatorial. “Quer mesmo casar com ela? Você sabe como ela é teimosa?” Anos depois, a própria filha ultrajada repetiu o desafio para noiva de seu filho, como a história que repete os próprios erros. Aposentado no início dos anos 1979, Hélio viajou de navio à Terra Santa e o Vaticano, chegou até a comprar uma pistola Bereta .25, e até, às vezes, a empunhava para mirar o muro. Aos 70, Num prenúncio de decadência mental, separou-se da consorte com quem viveu mais de 60 anos, acusando-a de uma improvável traição. Só, diluiu a saúde em quedas estúpicas e névoa mental crescente. Aos 80 anos, ao menos 40 deles sob uma dieta metódica, calórica, tornou-se totalmente senil e praticamente imóvel. Dormia a maior parte do tempo. Fui visitá-lo.
– Lembra quando fomos passear no Aero Willis e o carro parou em frente ao Parque Cementeira? Você esperou a chuva passar e depois trocou o fusível. Buzinava duas vezes antes passar nas esquinas – falei, brincando, quando sentei ao seu lado para vê-lo almoçar. Seus olhos lacrimejavam de catarata. Toquei sua mão. Percebi que tentava me reconhecer. No quarto, ao redor, a audiência íntima respirava em calma expectativa na atmosfera de odor higiênico e pacífico de um lugar escudado, seu destino final. O frigobar persistente lembrava-o de tempos antigos, sem eletrodomésticos. Só um homem que veio da pobreza extrema, como ele, poderia considerar um luxo ter um frigobar no quarto.
– Eu gosto de ler, vô, disse, finalmente. Só aí é que ele assentiu, com um leve movimento da cabeça grisalha e esfiapada pelos últimos tufos de cabelos.
– E está fazendo muito certo.
Depois, voltou-se para o zumbido do televisor. Dormiu.

Patrick Brock, jornalista baiano e tradutor, mora em Nova Iorque

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