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Postado em 19-12-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 19-12-2009 00:40

O poder de uma imagem..
Fantome
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…de Silvio Berlusconi
Silvio

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ARTIGO DA SEMANA

O FANTASMA DA ÓPERA DE MILÃO

Vitor Hugo Soares

Uma das imagens mais fortes, entre as cenas marcantes no caso da recente agressão sofrida pelo primeiro ministro da Itália é, sem dúvida, a da saída de Sílvio Berlusconi do hospital, em Milão. Alí esteve internado, até quinta-feira, para tratar dos ferimentos no rosto e na alma, decorrentes da estatueta do Duomo atirada sobre ele, por um italiano com problemas mentais, domingo passado, na saída de um ato público na imensa praça em frente à famosa catedral milanesa.

A fotografia de que falo – entre as inúmeras que foram feitas e publicadas no Brasil e no mundo – é uma dessas raridades que grandes profissionais conseguem, as vezes. No caso, o repórter fotográfico Giampiero Sposito, da agência de notícias européia Reuters. Coisa para prêmio, tamanha a sua expressividade e as múltiplas possibilidades de interpretação humana, política e comportamental que oferece. Bem mais até –avalio – que o também impactante registro fotográfico da cara sangrando do polêmico líder político.

Vi pela primeira vez a foto da Reuters no Público, bom e confiável diário da minha predileção, prazer renovado quando vou à Lisboa e posso manuseá-lo na edição impressa, sentado numa das mesinhas de rua de A Brasileira, bar tradicional do bairro boêmio do Chiado, ao lado da estátua do poeta Fernando Pessoa. Com um copo de vinho “Porca de Murça” na mão, o prazer é ainda maior..

Mas a face transformada de Berlusconi ví na edição online do jornal, que acesso na web pelo menos três vezes ao dia, por força do ofício de blogueiro, na sempre formosa (embora cada dia mais violenta) cidade da Bahia, como chamava Jorge Amado. Leio Publico para saber as últimas da romântica cidade à beira do Tejo, na porta de entrada da Europa. O rio que a atriz Maitê Proença confundiu com o Atlântico, no vídeo polêmico mostrado no programa Saia Justa, da GNT, que indignou os lusitanos recentemente e quase os levanta em armas em defesa da honra cívica agredida.

Mas retomo a ponta do novelo para não me perder no meio das lembranças de Lisboa, de Dulce, de Amália, de Zeca Afonso e de Pessoa.

O flagrante que Sposito colheu, do primeiro ministro italiano, é mesmo impressionante. Berlusconi olha os jornalistas e curiosos de dentro do automóvel, na saída do hospital milanês, com destino à sua não menos rumorosa casa de descanso e lazer, nos arredores da cidade da alta costura e do futebol. Deverá permanecer em repouso absoluto, por pelo menos duas semanas, recomendam seus médicos.

A expressão, em geral enigmática de Berlusconi, aparece mais enigmática ainda na fotografia da Reuters. Com rosto cheio de ataduras colado na vidraça traseira do automóvel oficial, o político só bem remotamente guarda algumas atitudes e a aparência do “Il Cavalieri”, tratamento respeitoso que lhe é dispensado por jornais e outros veículos de comunicação em seu país e em Portugal.

O Berlusconi da foto é todo o Fantasma da Ópera, como lembrou ontem, na conversa matinal com o jornalista Ricardo Boechat, o impagável anarquista José Simão, na Radio Band News-FM, transmitida em Salvador. Com todas as ilações políticas, comportamentais, psicológicas (até freudianas) que a comparação com o impressionante personagem da ficção permite.

Este é o ponto. O Fantasma da Ópera da novela francesa, de 1910, criação imortal do escritor Gaston Leroux. Desde a sua publicação, foi adaptada inúmeras vezes para o cinema e produções teatrais, cujo auge é a produção da Broadway, por Andrew Lloyd Webber, Charles Hart e Richard Stilgoe. O musical mais visto de todos os tempos em todo o mundo.

A obra de Leroux é tida por inúmeros analistas como uma “novela gótica” (a expressão é do Wilkpedia), que combina romance, horror, ficção, mistério e tragédia. Uma criação sobre subterrâneos da alma e das relações humanas, cuja ação desenvolve-se no século XIX, na Ópera de Paris, um monumental e luxuoso edifício construído, entre 1857 e 1874, sobre um enorme lençol de água debaixo do terreno.

Tudo a ver com o drama de Berlusconi, destes dias, na Itália, com cenário transposto para a fantástica Milão. A dúvida que se levanta agora é sobre os signos da imagem e das atitudes do líder, duramente agredido em público domingo passado. A nova face de uma tragédia pessoal e política? Ou sacada de mestre dos marqueteiros italianos, a serviço do governo desastrado do primeiro ministro, considerados geniais desde os filmes de Fellini e De Sicca?

O conservador direitista Berlusconi, nas cordas, acusado das mais corruptas, mafiosas e sinistras transações – y otras cositas más – em seu país até a semana passada, de repente tende a virar vítima de agressões, preconceitos e incompreensões de seus “adversários e algozes”.

Uma espécie de Fantasma da Ópera de Milão, tipo ideal para receber a solidariedade, a compaixão e a simpatia do grande público, como o fantasma da Broadway. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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