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Postado em 18-12-2009
Arquivado em (Aparecida, Artigos, Multimídia) por vitor em 18-12-2009 13:05


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CRÕNICA / SENTIMENTOS                       

 

                           CUANDO ME ENAMORO

                          Aparecida Torneros*

 

 

Dezembro chegou ao meio e um estado indiferente, morno, pleno de pasmaceira, havia me tomado de assalto, por duas semanas. O esforço repetido de me fazer compreender num mundo tão incompreensível. Kopenhagem fracassada, o clima indo pra cucuia, o mundo em clima de “salve-se quem puder”, meu umbigo pedindo isolamento, o computador desligado, a ausência de inspiração para escrever, a solidão disfarçada pelas aulas de francês, um desgosto estranho que tem sabor de “esse filme eu já vi e morro no final, tô fora”, a saudade da infância, a saudade de risadas ecoando na memória dos dias em que eu nem imaginava que a vida podia ser finita, e também nem questionava a pequenez da sombria face dos egoístas ou dos que desrespeitam seres e natureza, sentimentos e confianças, achei que ia percorrer este dezembro, fugindo de mim mesma, como na música do Roberto, a 200 km por hora.

Nenhuma chance de ir ao shopping e fazer compras natalinas, o desânimo de enfeitar a casa para as festas, uma única vontade, fechar-me em copas, enclausurada no ninho da própria solidão de um final de 2009, pensativo e desconfortante, após perder tios idosos, cansar-me de tantas esperas, decepcionar-me com os conceitos de amor e amizade.

  A gota dágua, um telefonema, de longe, na quase madrugada de uma manhã enevoada. A voz disse “buon jour”, mas o tom era de discórdia, talvez a disputa mais infantil de um triângulo amoroso tão extemporâneo quanto a mediocridade que permeia a história de amores mal resolvidos. O silêncio me invadiu, internamente. Pra que responder, se qualquer palavrinha em nada ia modificar o acontecido?

  Melhor me “desenamorar”, não da vida, pois desta e por esta, estou em constante enamoramento, aliás crescente, no dia após dia… Refiro-me ao desencantamento por criaturas humanas e falhas, como eu, pessoas que são previsíveis e desconcertantes, que fazem parte de um inúmero e retumbante eco dos sonhos não vividos, dos tempos que nem chegam a chegar afinal.

  Mas, o destino prega peças, tripudia previsões, oferece saídas, janelas, abre portas, ilumina caminhos, põe na casa ao lado um olhar de carinho, o de alguém que me fez recomeçar o dezembro, bem no meio, acelerando um repentino estágio de “quero tudo” para a segunda quinzena. Peguei-me sorrindo, internamente, redescobri a canção que fala de se enamorar e dar a alguém o melhor que se tem para dar, sonhos e olhares brilhantes. Como um renascimento pré-vivencial, reconheço a alegria que volta ao meu coração, não posso desperdiçar o resto do ano, com lamúrias e tristezas. Estou pronta para refazer projetos, vejo que o tempo me dá um sobressalto, vou correr atrás do prejuízo, vou enfeitar minha vida, com detalhes de luz e cores.

  Então, eis que o mundo se colore de novo, vou a alguma festa com urgência, compro logo uma bolsa cor de cenoura, não posso fazer por menos, sou personagem do sonho de quem me confessa que me acha “charmosa”, acho que um vulcão me sacode em tempo de corre-corre, imagino-me recuperando o fôlego, acendendo as luzes da casa inteira, o sol renova minha sede de viver, o que terá sido pior do que ter perdido 15 dias sem perpectivas de festejar dezembro?

  Foram dias para refletir sobre escolhas infundadas, momentos que ficaram para trás, e daqui pra frente, lá vem o Roberto de novo, “tudo vai ser diferente”, preciso recomeçar o mês, tenho dias para preencher com música, festa, carinho, amizade, bem naquele tradicional “clima” de um dezembro freneticamente solucionado em termos de esperanças renovadas.

  Lá vou eu, Papai Noel, me aguarde que baixo na sua chaminé e lhe dou de presente um sorriso tao grande que serei capaz de incendiar o futuro de um 2010 bem mais feliz ainda. Boas Festas, feliz resto de dezembro, e obrigada por ter a chance de recomeçar a ser feliz.

  Cida Torneros, jornalista, escritora e cronista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

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Comentários

Paulo Renan on 19 dezembro, 2009 at 9:16 #

Impactante, ainda que não previsível, a crônica da talentosíssima Cida é bem mais que mero registro de renovação de emoções. É um alento, um bálsamo mesmo, para os que se desencantam com as coisas do coração e prostam-se, rendidos, a desilusões extremas mas passageiras. Que Cida não tire seu sorriso do caminho para podermos passar com nossa dor.


vitor hugo soares on 19 dezembro, 2009 at 10:26 #

Renan

Por falar em talento: que ótimo saber que você também anda navegado por este Bahia em Pauta. Palavra de editor.Chega mais, que para gente (boa) como você e Cida aqui tem sempre um lugarzinho especial. De coração.


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