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Postado em 13-12-2009
Arquivado em (Artigos, Rosane) por vitor em 13-12-2009 09:03

Governador Arruda:”valeu!”/Img.Arquivo
JRarruda
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ARTIGO / CORRUPÇÃO

ACORDA BRASIL

Rosane Santana

Conversei outro dia, com uma colega chinesa, Jing Yang, na Universidade de Harvard, sobre seu país, enquanto esperava a chegada da professora em sala de aula. A imprensa, de uma maneira geral, inclusive nos Estados Unidos, insiste, com certa freqüência, na idéia de que o século XXI será um século asiático. É verdade que a crise norte-americana tem levado muitos a se perguntarem sobre quem sucederá os EUA na liderança mundial e a China, o principal credor do país, com cerca de um trilhão de dólares investidos em letras do tesouro e outros seguros americanos, de acordo com a National Public Radio (NPR), é forte candidata ao pódium.

Ressalte-se, de uma vez por todas, cerca de um trilhão em aplicações variadas e não seis trilhões de dólares, como já li em alguns jornais brasileiros e blogs, talvez para valorizar a crescente influência da China no mundo Ocidental, inclusive na América Latina, na mesma proporção que decresce a influência americana. Este é um fenômeno que alguns estudiosos atribuem à política neoliberal de Bill Clinton, mantida por George W. Bush, trazendo de volta o velho nacionalismo no continente de Che Guevara em choque direto com Washington.

O Brasil também tem aparecido como forte concorrente da China. Estabilidade econômica proporcionada pelo Plano Real, que o governo Lula seguiu à risca desde a Era Palocci, a reação da economia brasileira à crise econômica mundial e as recentes descobertas de petróleo e gás natural – as mais importantes dos últimos 20 anos, segundo The New York Times – colocam o país na berlinda. E é o bastante para o governo navegar em alta popularidade, numa onda de falso otimismo que ignora os entraves a serem vencidos pelo país no caminho do desenvolvimento e bem-estar social.

No Brasil como na China, concorda minha colega Jing Yang, a concentração de renda e a corrupção impedem o salto em direção a um lugar no pódium. “Poucos, muito poucos controlam a riqueza”, diz ela, que adotou os EUA como pátria recentemente. Com a volta da censura prévia à imprensa, referendada por decisão recente do Supremo Tribunal Federal, que proíbe o jornal “O Estado de São Paulo” de divulgar tenebrosas transações de um dos herdeiros do presidente do Congresso, José Sarney, infelizmente o Brasil, se não houver reação, também caminha para se igualar à China nesse aspecto, o que será péssimo. À propósito, louve-se a atitude do vice-presidente da República, José Alencar, que manifestou preocupação ao cerceamento da liberdade de imprensa.

Tenho feito contínuas reflexões sobre a realidade brasileira em comparação com o que vivencio nos Estados Unidos há cerca de três anos, país que tomo como referência por ainda ser uma potência militar e econômica e, internamente, um modelo de democracia, com a maioria da população, inclusive milhares de brasileiros que aqui residem, tendo acesso ao mercado de consumo, às maravilhas da tecnologia e à educação e uma Justiça célere e eficaz, além de uma imprensa livre. Sobre a China, só conheço o que li nos livros e conversei com colegas na Universidade de Harvard, onde os chineses estão em toda parte. Por aqui, o Brasil é uma grande promessa, mas é preciso viabilizá-la.

O problema número um, citado por todos, professores e alunos, com os quais conversei, é a corrupção, em evidência neste momento, graças a revolução tecnológica, seus poderosos satélites, micro-câmeras e comunicações eletrônicas instantâneas, que, segundo o sociólogo inglês Anthony Giddens, viabilizou a aldeia global de Marshall McLuhan. Entretanto, o fenômeno, herança do patrimonialismo português e, por que não dizer, ibérico, já existe mesmo antes da fundação do Estado brasileiro, no século XIX, nas antigas Câmaras de Vereadores dominadas pelos latifundiários e senhores de engenho. A diferença é a repercussão globalizada.

Não se rouba, portanto, nem mais nem menos, rouba-se como sempre se roubou num país de baixa participação política (65% dos brasileiros ignoram a política, segundo recente pesquisa do Vox Populi), onde há falta de transparência nos negócios públicos e impunidade. Acrescente-se concentração de renda, analfabetismo e ignorância.

Afinal, quem imagina, num mundo democrático e civilizado, que um país onde seus líderes são flagrados escondendo dinheiro em cuecas, meias e coisas que tais, pode ser levado a sério, está enganado. O máximo que conseguiremos despertar é a antiga atitude de cobiça dos colonizadores – explorar, saquear, roubar as nossas riquezas. A imagem de José Roberto Arruda , ninguém menos do que o governador do Distrito Federal, embolsando um maço de dinheiro e dizendo “valeu”, que rodou o mundo, é um tiro no peito de todos os brasileiros que se esforçam para construir um país melhor.

Acorda Brasil!

Rosane Santata, jornalista, mestre em História pela UFBA, mora em Boston (EUA) e estuda na Universidade de Harvard

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Comentários

Patrick Brock on 13 dezembro, 2009 at 15:53 #

Muito se fala da China como potência em ascensão, mas esquecem dos inúmeros problemas, sejam ambientais ou sociais. O crescimento chinês mais cedo ou mais tarde vai esbarrar na falta de liberdade política e de expressão, e no passivo ambiental de seu desenvolvimento desenfreado. Se hoje se respira um a um pouco melhor em Nova York, é porque as poluentes fábricas que a habitavam se mudaram para a China.


vitor hugo soares on 13 dezembro, 2009 at 19:06 #

Patrick

Na mosca. Curta, mas perfeita análise. Desenvolva um pouco mais e mande para publicação na cabeça do Bahia em Pauta, como merecem suas análises e opiniões.Abraço baiano do admirador de sempre.


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