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Postado em 12-12-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 12-12-2009 00:04

Cavalaria ataca protesto contra corruptos
Cavalaria
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ARTIGO DA SEMANA

BRASÍLIA SOLTA OS CAVALOS

Vitor Hugo Soares

Dona Lavínia é termômetro humano confiável quando preciso medir súbitas alterações de temperatura política no País, ou efeitos de alguma febre malsã no meio social, como a que grassa nestes dias em Brasília. Diarista que duas vezes por semana aparece para arrumar as coisas no apartamento do bairro de classe média onde moro em Salvador, esta antenada sergipana com décadas de vivência baiana, em área violenta da capital, chegou assustada na última quinta-feira.

Perguntei o motivo pensando em algum drama de vizinhança ou pessoal e ela foi direto ao ponto. “O senhor não viu o Jornal Nacional ontem? Os cavalos passando por cima das pessoas em Brasília?”.

Vira sim: na TV Globo, na Record, na Band, e até em noticiários internacionais, sobre rápida e truculenta ação das tropas mobilizadas no Distrito Federal para acabar com o ato de protesto popular contra “um dos mais repugnantes espetáculos de corrupção da história”, como assinala a revista Veja na reportagem de capa desta semana: “O Natal dos Safados”.

Eu assistira muito mais até, porque era 9 de dezembro, o Dia Internacional contra a Corrupção. Paradoxal, a deduzir pelos fatos no DF. Enquanto a polícia espancava e pisoteava gente com cavalos, pertinho dalí realizava-se um ato oficial, no Centro de Convenções de Brasília, para celebrar a relevante data do calendário mundial dos bons costumes.

O governo aproveita para afiar a retórica e emprestar pompa e circunstância, além de destacar o conteúdo do projeto de lei produzido na Controladoria Geral da União (CGU), que considera hediondo e endurece as penas em casos de corrupção ativa e passiva , inclusive contra governadores e outras altas autoridades públicas.

Mas enquanto a nova lei não chega, a cavalaria trata de “acalmar as coisas”, trotando sobre pessoas caídas no asfalto. Limpam a estrada para o escândalo do Mensalão do DEM seguir seu curso e poder andar célere para o esquecimento e a impunidade, como os demais: dos tucanos, dos petistas, do Senado, dos Sarney…

No ato do Dia Contra a Corrupção, mesa e auditório lotados de algumas das mais ilustres figuras da República, o presidente capricha no discurso. “Se o castigo para esta gente (banqueiros, especuladores e autoridades públicass corruptas) não aumentar, continuaremos enchendo as prisões de gente pobre. Hoje só vai preso quem rouba um pão e fica livre o que rouba um milhão”, diz sem citar nomes.

O governador Arruda, cuja rapinagem mais que documentada em imagens jamais vistas neste país, parece ter levado bem mais de um milhão com seus auxiliares no governo do DF – incluindo o presidente da Assembléia Distrital cheio de maços de dinheiro vivo até nas meias -, trata de ganhar tempo.

Não é a primeira vez. Ele conhece bem o trajeto seguro para a impunidade, que é se fazer de morto e buscar o esquecimento o mais rápido possível. Já o trilhou uma vez com penas de tucano, quando ajudou o ex-presidente do Senado e ex-governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, do PFL, a violar o painel de votação do Congresso.

Na quinta-feira, sem um pedido de desculpas e sem permitir nenhuma pergunta, o governador do DEM anunciou num simulacro de conferência de imprensa, a sua saída “voluntária” do partido. Declara que a desfiliação visa “poupar os companheiros de legenda de ter que decidir entre saciar a sede por atos radicias e midiáticos, ou julgar com amplo direito de defesa e cumprimento dos prazos estatutários”.

O governador do panetone alega ainda desejar evitar uma discussão judicial que possibilitasse a sua permanência no partido. E faz a revelação que ele julga irá apaziguar de vez as coisas “Não disputarei eleição no próximo ano. Quero dedicar-me inteiramente à tarefa de cumprir, como governador, todos os compromissos e metas assumidas no programa de governo”.

Reli esta semana a entrevista de Arruda publicada com todas as honras e destaques, em agosto passado, nas Páginas Amarelas da Veja, com o título “Ele deu a volta por cima”. No trecho sobre métodos e práticas na política e na gestão pública, a revista pergunta: “E qual é o seu limite?”

Arruda reponde: “É o limite ético. É não dar mesada, não permitir corrupção endêmica, institucionalizada. Sei que existe corrupção no meu governo, mas sempre que eu descubro há punição. Não dá para entregar um setor de atividade do governo para que um grupo político cuide dele por interesses empresariais escusos. Se peço a um parlamentar eleito para me ajudar a administrar sua base eleitoral, isso é política. Mas, se entrego a esse parlamentar a empresa de energia elétrica, isso não é aceitável. Quando me pedem algo assim, eu aproveito que tenho cara de bobo e finjo que não entendo”.

Dona Lavínia, a diarista do começo destas linhas, pergunta: “O senhor já viu uma coisa dessas?”. Sem saber se ela se refere aos cavalos ou aos maços de dinheiro de Arruda, mas sem querer me fazer de desentendido, dou resposta que serve para as duas situações: “Sim, já vi. E não deram em nada”. Com ou sem cavalos.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 12 dezembro, 2009 at 14:41 #

É isso aí, meu irmão, até aqui nunca deu em nada esses odiosos crimes de corrupção cometidos por esses políticos nojentos que assolam o nosso país. Mas por aqui, mesmo com este cenário nada esperançoso, torço para que você, assim como D. Lavínia, possam ainda assistir a virada desse jogo. É difícil acreditar, eu sei, mas creio que podemos sonhar, sim, com alguma moralização quando assistimos, e participamos de alguma maneira, da luta diuturna de um homem público como o Ministro Jorge Hage, a frente da Controladoria-Geral da União, assim como foi a do seu ilustre antecessor – o nosso querido Ministro Waldir Píres. O mundo já reconhece e copia, como por exemplo, no caso do Portal da Transparência, veículo ímpar, desenvolvido pela CGU, em se tratando de dar conhecimento à sociedade sobre os gastos públicos, o trabalho desenvolvido nesta, modéstia à parte, respeitável Instituição. Falta muito, eu sei, mas não podemos esquecer que, também, muito já foi feito na busca da ética e da moral no serviço público federal. Mais de dois mil servidores já foram banidos do serviço público em decorrência da prática de corrupção. Empresas já são declaradas inidôneas, fato nunca antes ocorrido na história deste país, embora existisse tal previsão legal desde 1993. Gastos públicos já são mostrados pela internet. Enfim, mesmo com os alarmantes casos que vemos na TV e jornais sobre a corrução no serviço público, o dia 9 de dezembro – Dia Internacional de Combate à Corrupção – pode ser celebrado pela CGU com muito orgulho, pois está fazendo a sua parte, todos os dias, com muito afinco, competência, compromisso, através de um trabalho incansável liderado pelo nosso digníssimo Ministro Jorge Hage.


Carlos Volney on 12 dezembro, 2009 at 21:28 #

Bravo, bravíssimo, Vitor Hugo. Que bálsamo têr você a comentar com tanto brilhantismo a fedentina em que se tornou nossa política. Fiquei quase em nirvana com sua expressão “já o trilhou com penas de tucano”. Sim, esses mesmos tucanos que agora posam de vestais. A propósito, onde anda a sanha investigativa implacável de ACM, o neto, como bem disse o inefável Hilton 50 ??


Carlos Volney on 12 dezembro, 2009 at 21:31 #

Em tempo:
Leiam “em que se transformou”, ao invés de “se tornou”, no comentário acima.


Olivia on 13 dezembro, 2009 at 8:37 #

É preciso mais, muito mais. Até aqui, só retórica. Os grandes bandidos, continuam soltos e vivendo nos melhores metros quadrados do país.


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